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Rita Lee convida Raul Seixas para dançar: leia colunas escritas pela roqueira em 1994

Artista escreveu no Jornal da Tarde por 12 semanas. Falou sobre amiga ídola, Nossa Senhora, Monteiro Lobato, ETs, Rolling Stones, Ná Ozzetti e Raul

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Foto do author Edmundo Leite
Foto do author Rose Saconi
Atualização:
Página do Jornal da Tarde de 15 de outubro de 1994 com a estreia de Rita Lee como colunista do jornal. Foto: Acervo Estadão

Muito antes de escrever livros autobiográficos de sucesso, Rita Lee [1947-2023] compartilhou seus textos não musicais com leitores do Jornal da Tarde na década de 1990. Por quase três meses, de 15 de outubro a 31 de dezembro de 1994, Rita Lee foi colunista do extinto jornal publicado pelo Estadão. “Esta vossa colunista, que sofre da coluna, não terá compromisso com a atualidade, só me interessa a eternidade”, escreveu Rita em sua estreia.

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E mandou alguns avisos nesse primeiro texto: “Até agora não sei se o que realmente quero é ser abduzida por discos voadores ou me tornar a primeira Presidenta do Brasil com nada mais, nada menos, do que a Minha, a Sua, a Nossa Senhora Aparecida no cargo de Vice... Não sou Irmã Paula, nem vou dar esporro em neodrogadinhos, mas discutamos sobre “Legalizações Gerais”... Daremos bandeiras, entraremos ou pelo cano ou para a História. Miss Lee ama vocês, tá? Sou capricórnio, ascendente Aquário, lua em Virgem. Beijos e bençãos”.

O tema autobiografia já estava na cabeça de Rita naquela época. Numa das colunas, dedicada à amiga com status de ídola Mathilda Kovak, Rita disse que tamanha era afinidade entre elas que uma escreveria a autobiografia da outra. “Ficamos de escrever nossas autobiografias (ela a minha e eu, a dela), não permitidas, porém aprovadas via fax. We hate telephone!... Nossas autobiografias não autorizadas serão um sucesso depois de nossa morte - os escândalos já estarão garantidos e a grana dos meus filhos também.”

Após os dois primeiros textos publicados, diagramados horizontalmente com fotos da cantora, a coluna de Rita Lee passou a ser editada num formato vertical e ganhou ilustrações do cartunista Villa. Apesar do subtítulo “On the road” [na estrada], Rita Lee não se limitou a contar bastidores de sua carreira artística. Falava de tudo, com seu estilo debochado, cheio de trocadilhos e com várias frases em inglês.

No texto sobre os Rolling Stones, de quem abriria os shows em janeiro de 1995, Rita conta que Mick Jagger era amigo, daqueles de ligar, de seu marido Roberto de Carvalho: “Certa vez atendi ao telefone e ouvi: “Please, may i speek with Roberto, this is Jagger, Thank you”.

Colunas de Rita Lee publicadas no Jornal da Tarde em 1994. Foto: Acervo Estadão

Ná Ozzetti, gravadoras e críticos

Além de Mathilda Novak, outra mulher que teve um texto dedicado só a ela foi a cantora Ná Ozzetti, um talento desprezado pelas gravadoras. “Ná Ozzetti não é cover de ninguém; Voz afinada como punhal de índio; repertório impecável - dá até medo, porque ela canta só por prazer! Gravadoras não ousam “fabricar” Ná;” ... “O mais bacana, legal, Bwana, é que ela tem estilo. Você não confunde Ná com Nô, Né, Ni; não há compromissos em ser de vanguarda (até que enfim!); não há desfile de modas de costureiros famosos (até que enfim): não há nenhum japonês por trás com modeletes de cabelos estranhos, nem grifes de roupas Grafieldlanyamasayst - Laurantwestwood! Ufa, relaxe e goze — ela descansa você.

Nesse dia, Rita também mirou nos críticos musicais: “A mídia ladra; os críticos não têm saco para ouvir a enxurrada de demos de novatos (eles odeiam os empregos deles e reparem que todos têm olheiras profundas por falta de auto-estima). É claro. Deus criou o artista e o Diabo criou o crítico...”

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Raul

No último texto, publicado em 31 de dezembro, dia de seu aniversário de 47 anos, Rita fala de Raul Seixas [1945-1989], outro ícone do rock brasileiro, a quem Rita interpretou num filme e a quem homenageou num show no Vale do Anhangabaú.

Anhangabaú e seu painel mágico misturado com Raul, o Seixas, e sua presença dele constante; tem sido assim desde o filme que eu fiz, “Tanta Estrela Por Aí”, no papel de Raul (aliás, ganhei o papel de melhor ator!). Dava para sentir no ar o povão mix de Sampa delirando ao falar do Raul — todo artista quando morre vira herói! Dediquei a ele, do coração e intenção Ovelha Negra que delirou as pessoas diante da honesta identificação do Maluco Beleza com sua metamorfose porraloucambulante, mas resolvi manter o nível, afinal fora apenas sua “cavala.” ... P.S. — Sr. Raul Seixas, teremos o prazer de dançar esta noite... ”

Leia esse e alguns dos outros textos de Rita Lee publicados no Jornal da Tarde em 1994:

Colunas de Rita Lee publicadas no Jornal da Tarde em 1994. Foto: Acervo Estadão


Jornal da Tarde - 15 de outubro de 1994

Rita Lee

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Rita Lee

Ruiva em terra de morenos é o de menos. Eis a questão: até agora não sei se o que realmente quero é ser abduzida por discos voadores ou me tornar a primeira Presidenta do Brasil com nada mais, nada menos, do que a Minha, a Sua, a Nossa Senhora Aparecida no cargo de Vice. Haverá, com certeza, um golpe divino, no qual, pela primeira vez na História do nosso país, a Vice Presidenta será empossada calorosamente com pompas celestes e reverenciada pelos séculos dos séculos, amém! Provavelmente a Basílica de N. S. Aparecida será a nova residência presidencial mais apropriada.

Até lá, sendo uma mera mortal serviço do meu País, vou cumprindo missões e responsabilidades, pois como terráquea mundana insana da tribo dos seres falantes, The Tataratlames, aceitei o convite do JT, onde meu ego de neón desfilará semanalmente sua futilidade; serei uma colunista mundana, terei a opinião de um fogo de paspalha ( como já diz minha gurua Mathilda Kovak), coisas que duram meio segundo das vinte e quatro horas do dia. “Who wants vesterday’s papers?” My dog and the Wheel Steel Chair Stones...

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O Jotatê me deu carta branca... is this good or bad? Pra que serve carta branca no poker, “poker” nenhuma; no buraco vale menos que o morto, sei lá, devem me achar a boba da corte, uma coringa com corpinho de 17 anos e os olhos e ouvidos do rei! Meu début jornalístico fútil é em outubro, Goldner Oktober. Tudo vem a calhar, a Rita Lee agora vai on the road, dar as caras na estrada, fazer show, estar onde o povo estará, Rita on the Rox, Hita on the Ritz, Rita in Rio, Educating Rita, The Meter Maid, tanto faz, assunto é o que não vai faltar! ô meu!

A gente encontra por aí cada figura, cada situação... Lita Ree vai ser tão senhora de si que poderá até se transformar em senhora do-ré-mi, dependendo do Tom Jobim que ela vai jogar como tempero; claro que não necessariamente, La Lee vá escrever só sobre Música, essa coisa chata (cá pra nós, ela odeia rock’n roll por sinal, você sabia?). Não basta ter um rostinho bonito, hay que tener talento, diz Big Mamma, ainda mais agora que aos 46 anos a gente deita e rola na cama, porque já fez fama.

Hay mucho que delirar, enlouquecer, inventar, descobrir, pero... respeito é bom e jovens senhoras gostam, sã? Me aguardem semanalmente aqui no JT escrevendo o best of do que eu faço todos os dias da vida: escrever. Quer manter correspondência com madame Jones? Não se faça de besta, a velha saca todas. Quer dicas de rango natureba junkie? Não se faça de diet, dona Ritinha e sua coxinha maravilhosa estarão suculentas.

Quer saber por que o Brasil é tão louco? Não seja careta. Mire-se no espelho mágico das mulheres de Atenas e transforme-se em Medusa. Esta vossa colunista, que sofre da coluna, não terá compromisso com a atualidade, só me interessa a eternidade.

Me odeias? Me amas? Me desejas? Me escreva sem pudores, cheio de amores. Tia Jones vai propor agora um primeiro joguinho inútil: perca seu tempo e dê-se ao luxo de meditar sobre quem teria se separado na maternidade. Exemplo: José Serra e Homer Simpon com certeza: Darlene Glória e Leila Cordeiro seriam siamesas? Barbra Streisand e Lassie são filhotes da mesma ninhada? Sonia Braga e Prince? Quem é quem? Meditemos juntos, pois...

Não sou Irmã Paula, nem vou dar esporro em neodrogadinhos, mas discutamos sobre “Legalizações Gerais”... Daremos bandeiras, entraremos ou pelo cano ou para a História. Miss Lee ama vocês, tá? Sou Capricórnio, ascendente Aquário, lua em Virgem. Beijos e bênçãos.


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Jornal da Tarde - 24 de dezembro de 1994

MATHILDA KOVAK

Rita Lee

Ela me ama, me odeia, me perdoa e, claro, vai se vingar de mim pela falta de chiquê. Tô nem aí, vou declarar publicamente meu amor “BWANALDO” . Sim, estou disposta a carregar suas malas de Elizabeth Taylor onde quer que ela estréie. Tenho Carteira de Habilitação e Atestado de “bons antecedentes”, sim digamos (eu sou reincidente, mas nada tanto assim); posso perfeitamente ser sua motorista particular impecavelmente uniformizada “Yes Mam, No Mam”; posso fazer parte da segurança com meu curriculum de três anos de faixa amarela em caratê. O que não se faz por seu ídolo? É ficar longe dele.

Além de minha mãe, linda e deusa, Dercy Gonçalves, Inezita Barroso, Lucille Ball, Brigitte Bardot e Nossa Senhora Aparecida, só falta ela: Mathilda Kovak - Mahat Mathilda, Guru Deva, a flor do Lótus. Por que? Pobre de você, mero mortal, que não sabe ainda nada da vida. Ela é nossa pequena Buda, às vezes Buda Mole, mas opera milagres, é sarcástica, neurótica, irônica, não deixa pedra de bobagens sobre pedra (constrói um castelo com elas).

Sua Sereníssima SS. Mathilda Kovak é capaz de me tirar e pôr no sério num passe de mágica; she’s my gurua with a cause and whithout babaquisiness. Sim, vou vernissar Mathilda Kovak numa exposição fechada ao público porque não se dá perólas aos porcos just like that.

Humildemente confesso que na próxima encarnação gostaria de ter a cabeça dela (só a parte de dentro, o cérebro, a inteligência, etc,), o bom humor que só depende do seu mau humor, a sacação de babaquice da raça humana que me comove e me faz sentir uma escrava. Não tenho pudores em confessar que bico, copio, afano, roubo e vampirizo Mathilda Kovak há séculos.

Às vezes até que sou honesta e meu ego me permite creditá-la por certas genialidades. Ela é carioca, de Niterói (perdão), odeia tomar sol e ir à praia (o que já é uma qualidade do cacete), branquela, mignon, parecida com aquela atriz Giovana Gold (muito melhorada, of course).

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Ficamos de escrever nossas autobiografias (ela a minha e eu, a dela) , não permitidas, porém aprovadas via fax. We hate telephone! A gente apenas se encontrou uma ou duas vezes? Sei lá, foi um tal da tribo dos Imbassahy versus Cherokee que AFE! Nossas autobiografias não autorizadas serão um sucesso depois de nossa morte - os escândalos já estarão garantidos e a grana dos meus filhos também.

Mathilda Kovak, Ignes Imbassahy, dê-nos o ar de sua graça para que respirando a pureza e maldade de seu coração de madrasta em cujo espelho meu não há Branca de Neve que lhe tire o coração, não me odeie por revelar um pouco de sua existência, sua identidade, afinal, os alquimistas já chegaram, so my old witches of light, so my sisters of skies, we live between mystic and madness.

Welcome back Mathilda from wherever you were; que sua caneta mágica psicografe como sempre o que todos (principalmente eu) gostariam de ler, reler, treler, meditar e sacar toda a loucura santa que existe dentro da sua cabeça careta. Seu cavalo me parece bem e forte, favor cavalgá-lo e chicoteá-lo se tiver preguiça de viver, sim?

P.S.- Na sua autobiografia vou contar aquela passagem do arrombamento da porta do meu modesto quarto de dormir, crente que eu tinha me suicidado; e vou contar com detalhes que você quase me matou de pânico!

Jornal da Tarde - 5 de novembro de 1994

Ná Bwana Ozzetti, que excede

Rita Lee

Eu tenho um amigo que colocou um Alô Alôcinógeno via fax e lá fui eu telespeguiada a assistir a um show do qual ele (esse amigo) divide a direção com Márcio Kogan, outra criatura das entranhas. Juro que não eram os Rolling Stones, juro que não era David Bowie, os únicos que realmente me tiram de casa. Era Ná Oz-zetti!

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Como Chacrinha já dizia que nada se cria, tudo se copia, me deu um certo aval em achar que nem tudo que se copia seria um cover. Os tempos mudam, afinal toda santa semana acontece uma avalanche de nossos novos e maravilhosos artistas brasileiros sem a menor condição de apoio das bocejantes gravadoras, cujos produtorezinhos “lei de Gerson” se preocupam em “levar vantagem” no repertório do novo artista, não sem antes desrespeitá-lo simplesmente não ouvindo com atenção nossos zilhões de gênios desconhecidos.

Se nós macacos velhos ( com corpinho de 17) não temos ”tempo” de sermos escutados em nossas tão suadas demos, fico imaginando essa meninada genial que quer mostrar o seu valor e vai parar na geladeira das gravadoras sem maiores explicações. Conheço Mais de 1.000.000.000.000... deles.

A mídia ladra; os críticos não têm saco pra ouvir a enxurrada de demos dos novatos (eles odeiam o emprego deles e reparem que todos têm olheiras profundas por falta de auto-estima!). E claro, Deus criou o artista e o diabo criou o crítico — elementar, meu caro Watson... Bem, mas a caravana Rolidei dos artistas brasileiros passa e fodam-se todos.

Atenção: se você for filhote de papai rico, apadrinhado por um diretor costa-quente de TV, tem um empresário Al Capone xpérto que empacota você num especial de fim de ano na TV, patrocinado por uma cerveja doida para vampirizar uma música de verão cujo novo som até que poderia se chamar Ugalumumba, todos têm bunda! Pronto! Chega mais: você estará incluído na lista dos 100 mais fabricados do ano! E neguinho se vira e acredita, até vende a alma ao demônio em troca de um sucesso passageiro...

Poucos, muito poucos, dos nossos artistas brasileiros sabem o valor que têm e por isso não têm pressa. Sempre foi assim; até o coqueiro mais alto sabe o tamanho do tombo! O povo brasileiro deixa rolar, o que vier neste verão ele traça, também, fudido do jeito, que tá, o negócio é aceitar a moda barata que cada ano se oferece. Artistas plebeus duram pouco.

Ao povo brasileiro só interessam os reis e rainhas cujo reino e respeito lhes serão eternos. Legal, tudo passa rápido, moda X, moda Z, axérobica, é gostoso... Pra que se aprofundar em águas rasas — os tempos não são assim? Mas o Brasil é uni pais onde a tradição permanecerá e não se deixará enganar por qualquer paixão que lhe “devolva” a escravidão, tão difícil de ser conquistada.

Fui lá na Ná. Nome doido, parece nanãyansã. Deparei com este lado do Brasil dos artistas geniais durangos-kids que batalham apesar da ditadura enlouquecida dos merchandisers. Ná Ozzetti não é cover de ninguém; voz afinada como punhal de índio; repertório impecável — dá até medo, porque ela canta só por prazer! Gravadoras não ousam “fabricar” Ná; sai dessa Vanessa e tratem de se tratar e acordar! Ela não soa nenhuma cantora imitando qualquer outra que está “na moda”, que está “dando certo”; ela é normalmente louca. Não há pose, não há aulas de axérobica na frente do espelho pra ter uma expressão corporal modernosa. Ela é naturalmente simples e portanto chique.

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O mais bacana, legal, Bwana, é que ela tem estilo. Você não confunde Ná com Nô, Né, Ni; não há compromissos em ser de vanguarda (até que enfim!); não há desfile de modas de costureiros famosos (até que enfim): não há nenhum japonês por trás com modeletes de cabelos estranhos, nem grifes de roupas Grafieldlanyamasayst - Laurantwestwood! Ufa, relaxe e goze — ela descansa você.

A direção, cenário y otras casitas más são obras-primas dos arquitetos, cineastas, extra-terrestres brasileiros Isay Wenfeld e Márcio Kogan, que tiveram o cuidado e a sensibilidade de não dirigir explicitamente Ná, o que combinou tão bem com o jeito dela saber o que quer e topar a sutileza da orientação dos mestres.

A Banda está nos trinques e todos tocam com prazer para que Ná, dentro de sua simplicidade com trombetas, passe para o público uma perfeição tecnovocal, uma sensibilidade e bom gosto no repertório, uma doçura de honestidade, uma compostura e competência que com certeza ( ah, língua!), vai me deixar com vontade de fazer um “Arrombou a Festa das Cantoras”.

Pode ser que ela demore mais até chegar mais perto do público planetário e pobre de mim que não sou da Fundação Roberto Marinho, porque se fosse bancava este show tão simples de ser feito (o custo total deve ser uma bobagem pra António Ermírio); cenário facilmente desmontável, simples, a luz, banda, efeitos geniais e criativos, tudo simples, tudo possível.

How’ much is that? Menos do que a gravata que Fernando Henrique comprou no Versace de N. York, menos muito menos do que as pedras preciosas roubadas do Abil Akell?

P.S.: — Tenho recebido tantas cartas como jornalista (não tenho sindicatzo), mas fico espantada ao saber que há tanta gente no Brasil que gosta de ler e ouvir boa música.

P.P.S.:— Obrigada Isay, Márcio, por tentarem mais uma vez não me deixar suicidar.

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P.P.P.S.: — Ná — Bwaná Ozzetti!


Jornal da Tarde - 10/12/1994

Bokassa Jagger e seus Stones muito vivos

Rita Lee

Mr. Bokassa Jagger sempre e nunca me enganou. Quem me garante que não foi ele quem tramou o “afogamento acidental” do meu primo Brian? Confesso que gosto ainda mais dos Stones depois que Jorres morreu, mas se Mr. Bokassa não vendeu sua alma ao diabo, alugou-a bem baratinho... Era um “segredo” sabido de todos que Jagger tomava injeção de silicone nos beiços para se transformar cada vez mais em Mr. Bokassa, Rei dos Tom Tons e a-go-gos!!! Contaram que ele chegou até a tietar John Lennon uma época para ficar mais por “dentro” do sucesso dos Beatles. Deve ter adorado Altamont quando os Hell’s Angels aprontaram a fama, mas quem deitou na cama da imprensa foram os Stones.

Só uma mulher bancou Jagger com a mesma classe dele: ( eu copiava as roupas e cabelos dela, of course!) — Marianne Faithfull, que competia com o namorado em escândalos e overdoses e por pouco ele não se transformou em Mr. Faithfull. Beautiful Wild. Beautiful Horses! Mick foi preso e Lúcia Turnbull me presenteou na época com um poster da manchete do Herald Times.

Acho que por um momento de fraqueza eis que Mick se casa com Bianca “La Negrita”, meio breguncinha, que falava francês para não ficar tão “desrafinée”. Por pouco os menos avisados não lhe pediam para passar um cafezinho. Tiveram uma filha — Jade — responsável pelo netinho que Vovô Jagger não deve achar tão engraçadinho”... Hoje Bianca, “La Negrita” vem ao Brasil posar para a revista Caras e jogar suas tranças para Olacyr de Moraes. Uau! Que aventura hein?

Tudo bem, Jagger se vinga transando com o melhor de todos: David Bowie! Angie (a mulher de Bowie na época) ganhou uma musiquinha por não atrapalhar nem insistir em participar do jogo deles. Legal, né? Tadinha, mas cê acha que ela cabia no meinho? Acho que depois (enfim, sei lá eu da vida sexual de Mr. Bokassa), veio a texana new drag Jerry Hall que pariu três puro-sangues do cinqüentão adolescente. Civilized Horses!

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O casal veio ao Brasil filmar uma pérola que não deu muito certo não sei porqué. Olha só: tinha Norma Benguel de chicotinho e tudo transando com Jagger na música She’s the Boss; dizem que ela processou ele por perdas e danos, de quem? Dele!!

A cena da cadeia de Jagger e Grande Otelo é um “Klassix”! Macunaima versus Mr. Devil. Na verdade, Jagger é amigo de Roberto com quem mantém até hoje uma cordialidade e reconhecimento pelo qual Roberto “selecionou” tietes de gente interessante na primeira vez que ele veio ao Rio com Bianca”La Negrita” e se hospedaram na casa de Florinda Bolkan. Desde então eles se falam por telefone, trocam pedras mágicas brasileiras, discos novos, etc. Aliás, Roberto vai se encontrar com ele em Miami para uma entrevista privè! Certa vez atendi ao telefone e ouvi: “Please, may I speek with Roberto, this is Jagger, thank you”. Achei normal e bacanérrimo, fosse outro, botava a secretária para chamar seu Carvalho, né?

Apesar da normalidade, Jagger adoraria ser um real royal do Império britânico; dá pra notar, né? Aquele brilhante incrustado no dente dá uma certa bandeira quando King Bokassa smiles! Adoro todos os Stones; Keith é o meu pre-ferido, Charlie Watts meu predileto, Ron Wood, meu xodó. Vou sentir demais a falta de Bill Wyman, mas o que se há de fazer? Vou pelo menos tentar lascar um beijão telepático naquela bocona carnuda; no máximo posso levar um “I beg your pardon?”

Mas acho que com Roberto do meu lado Mr. Bokassa não vai se recusar a pelo menos tirar uma foto ao meu lado e de Olacyr de Moraes. Em nome de uma rapariga que ama os Beatles (hoje ando meio implicada com eles) e os Rolling Stones, tenho a declarar que Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, o maravilhoso Face Ron Wood e o criolão baixista vão levantar defuntos da cova e as caveirinhas dançarão e chacoalharão ao som do melhor som de Rock’n Roll de todos os tempos — The Rolling Stones.

P.S. — Não sou saudosista como já me declarei, mas na-da como uni belo Yellow Sunshine no pôr-do-sol daqui do Brasil e você num barquinho que vai e a tardinha que cai, e os Rolling Stones que continuam vivos...


Jornal da Tarde - 31/12/1994

No Baú do Anhangaba

Rita Lee

Anhangabaú e seu painel mágico misturado com Raul, o Seixas, e sua presença dele constante; tem sido assim desde o filme que eu fiz, “Tanta Estrela Por Aí”, no papel de Raul (aliás, ganhei o papel de melhor ator!). Dava para sentir no ar o povão mix de Sampa delirando ao falar do Raul — todo artista quando morre vira herói! Dediquei a ele, do coração e intenção Ovelha Negra que delirou as pessoas diante da honesta identificação do Maluco Beleza com sua metamorfose porraloucambulante, mas resolvi manter o nível, afinal fora apenas sua " cavala”

Tava bonito, tava organizado, nenhuma briga, prisão. Sampa trabalhava até aquelas altas horas da noite. Não saio de Sampa e de Sampa ninguém me tira — é puro sadomasoquismo, sã? O Anhangabaú dançava com o som que corria solto entre os arranhas-ceús, avenidas e ruas com uma alegria grátis para o povo paulistano do Brasil todo que carrega na costas nosso País.

E engraçado você lá em cima do palco sacar velhas caras que sempre se descolam e usam suas credenciais com um colar de brilhantes, lá naquele chiqueiro (como você pode ser um ser superior num “chiqueiro”?). Lotado o palco de gostosinhos e gostosinhas e o som rolara legal, o que dava uma dose dupla de tesão e cumplicidade.

Ni qui acabou o show para 70.000 pessoas, me levaram de carro direto pra casa! Nem meu cachorrinho Pithagoras estava por lá, nenhum dos meus filhos dava “festinhas”, enfim SOS e S.O.S! mais solitária do que as de dentro das barrigas da Somália.

Pânico é o nome de uma das minhas doenças. Entrei em pânico. Todos com suas namoradas caindo na gandaia da noite e eu, Joana ”Dark”, de volta ao cárcere, queimada na “fogueira da solidão”! Foi-se fase natureba! Tomei uma overdose de pílulas para dormir, The Valley of Dolls, e lá fui eu por umas 15 horas até me chacoalharem para acordar.

Acordar? Hour Boring! Aquele filme já tinha visto várias vezes! A princesa Isabel assinando a Lei Áurea e imediatamente levada ao castelo para o povo comemorar a festa na rua. Odeio boates, odeio discotecas, odeio lugares da moda, odeio gente fumando, odeio gente bebendo (gin), odeio clubes, restaurantes, academias, gente falando alto, gente precisando de palco. Não é isso que eu quero depois de um show. Quero companhia, e sempre escolho a melhor, a minha. Me empapucei como há muito tempo não fazia, me senti abandonada, cheia de solidão.

Minutos atrás estava com 70.000 pessoas, e now apenas eu. Lembre-se de que agora estou fazendo a linha “quanto mais natureba mais bacaneba” , mas não há Anjo da Guarda que agüente pela bilionésima vez o mesmo filme.

Dormi com os anjos apesar de tudo, tive sonhos reveladores, mas acordei com demônios. Ela tá viva?” Os humanos têm uma tendência mui mórbida de achar que os artistas são suicidas. Well, some of them are, but eu só quero comemorar a vida e agradecer o que eu sou mas, desta vez, mais uma vez, alone again, naturally.

P.S. — Sr. Raul Seixas, teremos o prazer de dançar esta noite...

Coluna de Rita Lee publicada no Jornal da Tarde de 22 de outubro de 1994. Foto: Acervo Estadão


Jornal da Tarde - 22 de outubro de 1994

Rita Lee on the road

Rita Lee

Taubaté-que-enfim... sós... Lá fui eu estrear a tou 94/95 no Reino do Pó de Pirlimpimpim. Melhor impossível. Monteiro Lobato nunca me enganou! O Sítio do Pica-Pau-Amarelo é belo e recheado de pequenos, grandes prazeres. Quem já visitou o Esiúdio/Museu/Pousada do Mazzaropi? Você fica conhecendo todos os lugares onde foram filmadas as pérolas do nosso maior e puro gênio caipira. Como a gente já possui um alto grau de loucura-beleza-pura (natureba), não saberia dizer ao leitor se na casa de Mr. Lobato eu dei de cara com Celly Campeio num banho de lua ou se Hebe Camargo apareceu de Emília, de braços dados com Jeca Tatu, em busca da Chave do Tamanho. LSP perde!

Taubaté é o reduto dos mescalitos, pirilampos, cilibrinas, sacis-pe-rerês, sei mais o quê... Veja só: tava eu lá no palco, no meio do show, com o canhão de luz ofuscando minha já tão míope visão, quando eis que mais ou menos lá pela segunda fileira de gente, me aparece um anjo. Insisto em declarar a quem quiser acreditar que eu ando totalmente careta, aliás, é meu novo estilo, sã? Mas juro que vi! Com estes olhinhos que um dia um disco voador há de levar! Era um ser perfeito que sorria pra mim. Alto, loiro, cabelos longos, olhos azuis, mais potente que o canhão de luz, aura lilás, sem dúvida uma aparição, Ergueu sua mão como quem quisesse me dar alguma coisa.

Não foi fácil chegar até ele, afinal, ainda é aquele velho esquema de seguranças troncudos, pessoas gentis e desvairadas que tentam me puxar, ou passar a mão, ou simplesmente me fazer um carinho de fã. Não sei como a mão do anjo chegou até a minha e colocou uma pedra. A “ostra” sentiu a pérola e fechou imediatamente. Virei de costas para a platéia em busca de um lugar seguro para aquele talismã. Voltei até o pedestal do microfone central, onde há também urna mesinha com meus pequenos apitos, lenços de papel, kazoo, água. vitamina C, enfim, coloquei a pedra em segurança no meio dos meus “amigos”. Quando olhei de volta para o anjo, ele já não estava mais lá. Sem deixar de cantar, ainda tentei dar umas bandas pelo palco procurando... procurando...

E claro que num milésimo de segundo saquei que tudo fora uma bela visita dos deuses alegres da música do planeta nave-mãe Terra. Agradeci a atenção dispensada e em “Ovelha Negra” cantei pra mim mesma, cantei para todos que estavam e não estavam lá, cantei para os que querem e esperam que tudo, tudo dê certo. Taubaté feliz comigo e eu com ela e o show rolou lindamente mágico até o fim.

Descabacei a estréia mais emocionante da vida. Quando saía do camarim, cheio de pernilongos, à côté forever da minha irmã Virginia, experimentamos juntas mais duas “aparições”. Um casal idêntico, vestido de branco, também loiros, sorridentes e luminosos, bem na porta do carro que nos levaria até o hotel. Eles nos acenaram sincronizados e disseram telepaticamente: “Vão com a Luz”. Vivi e eu quase desmaiamos, tamanha a emulação. Ela me perguntou em câmara lenta: “Você viu o que eu vi?” Eu só disse SIM com a cabeça.

Meus amores leitores, o efeito Pirlimpimpim paira permanememente sobre Taubaté que enfim... juro que sim... o prana da cidade é feito de Pirlimpintpim, o que faz com que você, de um segundo para o outro, entre num mundo onde a magia comanda a vida; daí Monteiro Lobato, daí Mazzaropi, daí tudo que sonha nossa vã filosofia. O pó de existe de verdade, não é loucura de “ilariê de baixinhos do, anos 50″, não!!!

A coisa é séria, e se um dia você cismar porque cismar como a Emília de ir até Taubaté, vá! A única coisa que terá que Jazer é... RESPIRAR, não se esqueça de respirar; lembre-se de não se esquecer de Taubaté na sua busca da luz; essa pequeno cidade paulista, mágica, que poucos sacam, o Reino de Pirlimpimpim...

NEXT WEEK: a viagem até Santos e o show — que paradoxo, mora!! Depois eu conto... Tão bom quanto. Até lá!

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