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A elite cara preta

André Liohn

10 de março de 2015 | 21h45

Blackface actor

 

Pensei muito depois de ter lido o artigo “O panelaço da barriga cheia e do ódio”, ontem. Na minha opinião,  o texto escrito pelo jornalista Juca Kfouri é uma ode ao preconceito, além de ser pobre e equivocado em fundamento e em síntese. Tendo lido e relido o texto, uma questão não saiu de minha mente: se manifestar nossa insatisfação com a barriga cheia é ódio, então, não manifestar insatisfação exatamente porque a sua própria barriga não está vazia é o que?

Me lembrei da velha técnica teatral muito popular no século 19 em que atores brancos pintavam suas faces de preto para interpretar estereótipos caricaturados, vulgares, ingênuos ou até mesmo burros e pedantes de pessoas negras. Ao rotular as pessoas que se manifestaram insatisfeitas com a presidente Dilma como “elite branca”, Juca pintou a própria cara de preto, com a graxa mais grossa que encontrou, para de alguma forma validar seu desejo branco e burguês de defender os que ele acredita não serem capazes de se defender por si próprios, ou seja, a classe pobre, preta, frágil e de educação falha. Enfim, todos os coitados e miseráveis do Brasil. Mas eu me pergunto, como ele rotularia os negros pobres ou não que se sintam insatisfeitos com o governo federal neste momento? Eu conheço vários. Ser branco no Brasil é muito mais complexo do que ser elite ou não, é ter as portas sempre abertas para que nós brancos possamos entrar e sair do mundo negro quantas vezes quisermos, como quisermos e para fazermos qualquer coisa .

Com sua poesia, Vinicius de Moraes, para o deleite do povo brasileiro, pode se declarar o “branco mais preto do Brasil”. Vinícius nasceu em 1913 e morreu em 1980, ou seja, 10 anos antes do fim do regime do Apartheid na África do Sul. Hoje, procurando informações sobre seu engajamento politico contra este regime, nada encontrei. Claro, foi uma busca superficial, apenas uma manhã lendo e ouvindo entrevistas e músicas e espero que eu esteja errado. Mas, mesmo que tenha existido qualquer engajamento político de Vinicius contra este regime hediondo, qualquer coisa que ele tenha feito, dito ou escrito nunca ganhou tanta notoriedade quanto a frase que através da poesia aproxima não só a ele, mas a todos nós brancos de uma paz espiritual que obviamente não temos, exatamente, porque no final do dia, sabemos que somos privilegiados por termos nascido brancos. Quais seriam os caminhos para que um brasileiro negro se declarar o negro mais branco do Brasil sem que isso soasse pejorativo nos nossos ouvidos? O momento político em que vivemos acentua nossos preconceitos e qualquer negro genuinamente insatisfeito com o governo federal, dentro do conceito de elite branca, seria o anti-Vinicius brasileiro e teria que arcar com o rotulo de ser o negro mais branco do Brasil. Aqueles que evocam o absurdo chamado elite branca sempre que querem defender o governo petista desconsideram a história de avanços conquistados pela população negra brasileira, inclusive todos os avanços obtidos exatamente durante os governos petistas. Estamos em um momento crítico de nossa história, podemos, sim, piorar as condições de vida em nosso país. Generalizações preconceituosas como a do jornalista Juca Kfouri estão entre as piores armadilhas em que podemos cair.