A história de ontem a hipocrisia de hoje.
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A história de ontem a hipocrisia de hoje.

André Liohn

21 de novembro de 2014 | 20h38

Capa da revista VEJA de 27/5/1992

Capa da revista VEJA de 27/5/1992

No dia 27/05/1992, a revista VEJA publicou uma entrevista com Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente da República, Fernando Collor de Mello. A capa da revista, vinha com uma foto de um Pedro Collor irritado, com olhar profundo e desafiador, o titulo, sempre em letras garrafais era; “Pedro Collor conta tudo”. A capa, mais que a revista, foi suficiente para que todo o Brasil começasse a demonizar Fernando Collor que já vinha com uma lista de erros em relação ao seus planos e ações de governo. O então candidato derrotado, oponente de Fernando Collor em 1989, nas primeiras eleições diretas do Brasil pós ditadura, o agora, ex-presidente Luis Inacio Lula da Silva, com auxilio do seu partido e da credibilidade que os seus 31.076.364 votos os davam, fez durante dois anos, forte oposição ao governo e com o surgimento das denuncias publicadas, foi um dos grandes encabeçadores, o como ele mesmo disse em entrevista ao jornal do canal SBT,  o detentor da paternidade de um movimento nacional e multi-partidário, buscando a imediata remoção de Fernando Collor do posto de presidente da nação. Participando de encontros com políticos e manifestações de rua, Lula, ao contrário de hoje, não questionou as possíveis más intenções que a revista VEJA poderia ter naquele momento e muito pelo contrário, nutriu sua influência política aproveitando que o povo brasileiro, na sua maioria, nunca chegou a ler a matéria escrita pela revista, mas se deixou influenciar pela capa e depois, pelo fervor emocional que se criou no Brasil. Collor perdeu seu mandato, respondeu por um processo de corrupção onde supostamente havia recebido 8 milhões de dólares para sua campanha eleitoral, foi absolvido e 8 anos depois, voltou à vida política e atua ainda hoje como senador. Líderes importantes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, José Genoino, a quem tive a oportunidade de conhecer ainda criança em Botucatu e a quem já cheguei imaginar como um futuro presidente do país, foram condenados e presos por casos de corrupção que deixam os 8 milhões pelos quais Fernando Collor de Mello foi absolvido, parecendo roubo de dinheiro de altar. Hoje, novamente acusados de um crime ainda mais sofisticado em método e destrutivo em consequências, o partido dos trabalhadores, o ex-presidente Lula e todos aqueles que por um motivo ou outro ainda os apoiam, culpam não somente a revista VEJA, mas toda a mídia como vendida, ultrapassada e como Lula insinuou, faminta por desgraças.

As tais mídias independentes não passam de veículos de propaganda mal intencionada, tentam desqualificar jornalistas e confundir o público, fazendo-os acreditar e pior, aceitar que o hábito esquizofrênico de compartilhar, textos, videos, fotos ou arquivos produzidos por outros em seus sites, páginas ou contas de twitter sem nenhuma curadoria, cuidado ou edição possa ser chamado de jornalismo.

Se Lula não fosse hoje quem é, se estivesse ele mesmo lutando pelo impeachment de qualquer um, seria ele hoje tratado como golpista ou como herói, assim como foi em 1992? Naquele ano eu participei de eventos e ações públicas manifestando meu desejo de que o Brasil não fosse mais roubado. Vivia na pele as consequências de um país atrasado, pobre e corrupto e 3 anos depois, completamente desiludido com o futuro que previa para mim no país, eu o deixei, sem voltar meus olhos um segundo para trás. Amadureci em idade e conceitos e hoje, de volta, vejo que milhões de brasileiros vivem ainda os mesmos problemas que eu vivi. Não quero exagerar, não fui nenhum Pixote, mas ainda hoje, milhões de Pixotes vivem no nosso país. O Brasil é uma jovem democracia, costuma-se dizer, velha, aparentemente o que temos, é a imutável hipocrisia de muitos de nossos políticos.

 

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