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Carta aberta para Neymar

André Liohn

07 de julho de 2014 | 14h53

Neymar, você não me conhece, mas eu, como muitos outros que não se importa com futebol, mesmo não me importando, não tenho nenhuma chance de deixar de saber quem você é. E como estamos em período de Copa, até de problemas relacionados a tua sunga da sorte eu ouvi falar, sunga para mim é coisa pessoal e então, acho que posso, sem cerimônias, dizer que não aguento mais ouvir falar de você, de qualquer coisa a teu respeito, até mesmo, deste teu miserável arranhão nas costas.

Até querendo te dar algum crédito, gostaria que com todos os super poderes que a mídia afirma que você tenha, você também pudesse escolher não aparecer na vida de pessoas que não estão nem ai com a tua existência. E se por acaso tiver, por favor, inclua meu nome nesta lista.

Não se ofenda com o modo como me expresso, sei que a culpa por teu nome estar constantemente perturbando minha orelha não é responsabilidade apenas tua. Jornalistas, alguns bons jornalistas neste pais, ou por cegueira conveniente, irresponsabilidade ou mesmo por puro oportunismo, insistem em pegar carona na cauda da tua estrela e escrevem, narram, filmam, fotografam, discutem, sonham, qualquer bobagem que tenha haver com você; teu cabelo, tuas namoradas, teus sorrisos e agora, este teu arranhão.

Nunca havia pensado em escrever nada parecido com este desabafo mas agora, eu realmente não posso suportar que um pais inteiro se comova com você e se esqueça, ou pior, ignore ou não entenda, que um dia antes do teu tombo, duas pessoas perderam a vida por causa da corrupção por trás de todo o circo que sustenta esse esportizinho no qual o futebol se transformou. Teu tombo não me comove e se não me sinto comovido a culpa não é minha, afinal, futebol é um esporte onde fingimentos parecem ter se tornado tão essenciais para o jogo quanto o próprio chute da bola.

A senhora Hanna Cristina dos Santos, tinha vinte e quatro anos de idade, trabalhava como motorista de ônibus e deixa uma filha de apenas quatro anos para crescer sem a proteção de uma mãe. O senhor Charlys do Nascimento, tinha vinte e cinco anos de idade, alguns, concordando com o prefeito da cidade de Belo Horizonte, o senhor Marcio Lacerda, que disse que acidentes acontecem, dirão que Charlys morreu apenas porque estava no lugar errado na hora errada. Eu gostaria de encontrar bons argumentos para discordar disso, mas sinceramente Neymar, não consigo encontrar um único que seja suficientemente convincente.

Momentos como este em que vivemos no Brasil, onde a contusão de um atleta se transforme em comoção nacional, enquanto, um crime como o que aconteceu em Belo Horizonte não cause nem mesmo desconforto, me faz pensar que não somente Charlys estava no lugar errado na hora errada. Chego a sentir, com muito desgosto, que todos os cidadãos de bem deste pais estão no pais errado na hora errada.

Que me chamem do nome que quiserem, mas como cidadão, sinto repúdio pelo ensaio fascista que a seleção brasileira representa. Ter que cantar o hino nacional em voz alta, atropelando as regras aceitas por todas as outras nações, é prova que o suporte que vocês recebem da população não nasce da boa relação do povo brasileiro com o esporte. Isso surge, diretamente, da ignorância do nosso povo sobre o que o conceito de civilidade realmente signifique.

Me enfurece pensar que crimes como este que tirou a vida destas duas pessoas, dificilmente deixarão de acontecer por aqui. As campanhas de muitos de nossos políticos são financiadas pelo diesel de construtoras corruptas e só uma reflexão séria sobre isso poderia mudar nossa realidade. O viaduto que desabou, imagino que você saiba, faz parte dos projetos de melhoria da mobilidade urbana que o mundial deveria proporcionar.

Segundo os cegos e todos os que viraram as camisas, a copa esta dando certo. Os estádios estão prontos o saldo de gols é alto e os aeroportos estão funcionando. Fomos injustos com Ronaldo! Copa do mundo realmente não se faz com hospitais, nem com pontes, nem estradas, metrô ou trem bala. Agora é tarde, não podemos reclamar se pagamos por tudo e recebemos quase nada. Deveríamos ter reclamado antes de pagar. Daqui para frente no Brasil, para evitar choradeira, melhor mesmo é não deixar que nada comece. 

Neymar, eu sei que você não quer ter teu nome envolvido em assuntos difíceis para que você possa sempre continuar vendendo coisas fáceis, mas, se você, além de maquiagem para vender produtos, tiver um pouquinho de coragem, manifeste-se e de honra ao esporte que você pratica salvando o teu oficio desta farra superfaturada não apenas nos gastos, mas principalmente na hipocrisia. 

Melhoras!

 

André

 

Testemunha mostra interior de ônibus atingido por viaduto na Avenida Pedro I

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