Ossos do ofício

Estadão

25 de janeiro de 2010 | 03h51

Se o mundo fosse justo, o trocadilho teria seu lugar no panteão das criações humanas. Ficaria abaixo dos sonetos e das sinfonias, sem dúvida, mas acima dos provérbios e das palavras cruzadas. Infelizmente, tido como artifício banal, peixe abundante no vasto lago do pensamento – espécie de lambari do intelecto – o trocadilho é tratado com desprezo. Desdenhado pela maioria dos poetas e escritores, sobrevive apenas à sombra das máquinas de café, na firma, no papo dos donos de churrascaria e – mistério dos mistérios – nas fachadas de pet shops.

Por alguma razão, seres humanos que vendem produtos para animais de estimação têm uma compulsão por jogos de palavras nos nomes de seus estabelecimentos: AUqueMIA, AmiCÃO, CÃOgelados, SimpatiCÃO, Oh my dog!, CÃOboy, Pet&gatô, por aí vai.

Diante desses e de outros exemplos – que encontram-se em todo o território nacional, como provam as fotos no blog http://trocaodilho.tumblr.com – o leitor pode achar que nós, apreciado-res da “poesia de ocasião”, estamos contentes. Muito pelo contrário.

O trocadilho com T maiúsculo não é uma simples molecagem com sílabas. Ele cria um terceiro sentido, maior do que a soma de duas palavras. “Wim Wenders e aprendendo”, por exemplo, retira toda a graça do fato de os filmes do diretor alemão serem muito cabeças e, convenhamos, um pouco chatos. “A justiça farda, mas não talha”, escrito durante a ditadura, por Millôr Fernandes, trazia nas entrelinhas a ideia de que a censura podia até maquiar as aparências, mas não conseguiria evitar que a arte brotasse por aí. Já “guacamole em predra dura, tanto bate até que fura”, embora possa criar um sorriso maroto no rosto do infeliz que imagina o Atlântico transformado em pasta de abacate, não significa absolutamente nada. É só uma firula fonética, como Oh my dog ou uma criança dizendo patapatapata.

De todos os pet shops que já vi, um, no entanto, mereceu meu respeito. Fica na Av. Santo Amaro e chama-se Amaro’s Bichos. Veja que beleza, a introdução de um único apóstrofo antes do S é suficiente para o surgimento de tantos significados. Funciona em inglês, em português, resume a essência da loja e sua localização. Deviam criar para o dono da Amaro’s Bichos um cargo de analista para nomes de estabelecimentos dedicados aos animais. MaluCÃO? Licença negada. CÃO de mel? De jeito nenhum. HomeoPATAS? Talvez, vamos ver.

E já que entramos no terreno dos trocadilhos bilíngües, gostaria de expor um, de minha lavra. Surgiu quando eu descobri que jogo de palavras em inglês é pun, e pode ajudar a todos que, como eu, são repreendidos ao soltarem algo como “Wim Wenders e aprendendo”, numa mesa de bar. Basta encarar seus detratores e dizer, com falso arrependimento: “desculpa, pessoal, soltei um pun”.

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