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Bate-papo com Orlando Brito

Armando Fávaro

27 de fevereiro de 2014 | 12h49

● A era digital impõe uma nova linguagem ao fotojornalismo? Com novas tecnologias que aparecem o tempo todo, contar histórias por meio de fotografias é mais fácil nos dias de hoje?

Brito_  Não creio que a era digital tenha empregado nova linguagem fotojornalismo. Talvez tenha criado facilidade no manejo e produção de imagens. E, também, tenha multiplicado porque zilhões de pessoas mundo a dentro tenham maior possibilidade de retratar algo. Narrar com imagem jamais perderá sua propriedade de noticiar. Uma fotografia serve para contar como algo aconteceu, o jeito que uma pessoa tem ou como é o visual de um lugar. O mundo mudou, mas uma fotografia continua, pelo menos as de notícia, exigindo a capacidade de comunicar alguma coisa com clareza de informação.

 

● O Fotojornalismo está menos reflexivo?

Brito_  Sim e não. O mundo está menos reflexivo. A sociedade dos tempos atuais não pode prescindir das maravilhas da tecnologia. Tudo ficou mais veloz e a fotografia de jornalismo tem de atender a essa realidade. Impossível hoje calcular o número de câmaras fotográficas espalhadas pelo mundo. Aliás, telefones que tiram retrato. Cada pessoa que possua uma dessas maquininhas é um fotógrafo em potencial. Isto, na verdade, torna a fotografia uma das peças mais democráticas do planeta. Mesmo que você não seja propriamente fotógrafo profissional, faz parte do universo da imagem.

Acontece que essa incalculável multidão de fotógrafos diletantes não produz fotografias com a mesma qualidade e profundidade de um profissional que foi formado e é capacitado para isto. Aqueles são praticamente autores anônimos. Esses são autores com maior engajamento no processo de noticiar. Uns, na verdade, não são levados em conta. Outros, ao contrário, não. Quando um leitor de algum jornal, revista e mesmo da Internet vê o crédito de uma foto com a chancela da assinatura de um respeitado autor imagino que dê maior credibilidade a ela.

 

● O fotojornalismo distingue-se como um universo de desejo, criação e técnica, em busca de comunicar. A alta produtividade e a veiculação instantânea deixou a sensibilidade do fotojornalista menos afiada e aguçada?

Brito_ Sempre tive a noção de que uma câmara, seu equipamento, é material de trabalho. Você tem que dominar a técnica para ficar com sua atenção voltada para o desenrolar de um fato, de olho nos personagens que dele tomam parte. Possuir uma boa máquina fotográfica e lentes sofisticadas não irão transformar você em grande fotógrafo ou que irão aumentar a sua capacidade de dizer com imagem aquilo que aconteceu.

 

● Como você vê a necessidade do profissional multimídia?

Brito_  É… os dias de hoje, exigem que um comunicador exerça várias funções. É comum vermos numa cobertura, repórteres filmando ou tirando retrato, fotógrafos escrevendo. Particularmente, não gosto disso. Mas não se pode desconhecer que esse é o novo formato do jornalismo. Gosto, nesse aspecto, de jornalistas com atividade específica. Cada um no seu quadrado, sem nenhuma intenção de ser defasado em relação a isto.

 

● As restrições e a repressão do regime militar alimentavam a criatividade expandindo o modo de olhar do fotojornalista?

Brito_ Engraçado, pode parecer contrassenso. Mas na época dos militares as restrições eram menores que hoje. Digo isto com a autoridade de quem está no front dos acontecimentos diariamente, seja nos palácios, nos campos de futebol ou em qualquer cerimônia. Tenho pleno conhecimento dessa contradição. De qualquer maneira, a era do regime militar produziu, pelo menos no meu caso, fotografias que bem espelham e retrato a dureza daqueles tempos. Toda crise gera boas imagens.

 

● No seu entender, quais imagens fotográficas expandiram seus enredos para além da pauta jornalística tradicional?

Brito_ Desde que iniciei na profissão, em 1966, até hoje sempre tive e tenho a preocupação de observar o trabalho de fotógrafos variados para ter referência do que se fazia e se faz mundo a fora. Além disso, ficava atento aos fotógrafos com eu trabalhava no dia-a-dia. Foi assim que entendi perfeitamente o equilíbrio que uma fotografia deve ter: forma e conteúdo. Especialmente as de jornalismo. Não adianta que uma imagem seja somente bonita. Não adianta também que outra seja somente informativa. Para o meu entendimento, o contrapeso dessas duas premissas é essencial. Aprendi isto com Jankiel Gonkzarovska (do Globo e da Manchete), já falecido. Com o também saudoso Claus Meyer – alemão de nascimento, americano de nacionalidade e brasileiro de coração –, descobri que é essencial ter frieza e atenção diante dos fatos.

Vi e revi, vejo e não me canso de rever os chamados fotógrafos clássicos. Nadar, Ansel Adams, Sou fotojornalista, portanto é lógico que eu tenha preferência pelas fotografias de acontecimentos. A foto do Nick Ut, da menininha correndo com a pele calcinada por uma bomba na Guerra do Vietnã talvez seja a mais marcante, no campo da denominada foto captada num conflito, o chamado flagrante. O trabalho de Robert Capa na Guerra Civil da Espanha e na Segunda Guerra Mundial também.

Todas as fotos de Dorothea Lange sobre a depressão americana, no início do século passado, contribuíram imensamente para meu olhar sobre as pessoas do interior. Penso que todos os fotógrafos da minha geração tiveram influência direta da escola Henri-Cartier Bresson. James Natchwey publicou um livro, “Inferno”, que mudou minha vida. Obra insuperável. Mostra, em preto e branco, a dor e o sofrimento de países em guerra e da fome na África. A grandiosa maioria das fotos foi feita sem nenhum rebuscamento de luzes artificiais de lentes grande-angulares ou teleobjetivas. No campo da fotografia de pose, construída, gosto de Helmut Newton e Richard Avedon. Também dos portraits de Yousef Karsh, Marin Chambi e Arnold Newman sempre foram referência para mim. Duas fotos da Annie Leibovitz foram referência essencial para mim. A primeira, da atriz Meryl Streep. A segunda, a de John Lennon com Yoko Ono.