Exposição ‘Corpos de imagens’ de Eikoh Hosoe
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Exposição ‘Corpos de imagens’ de Eikoh Hosoe

Armando Fávaro

11 Março 2014 | 09h11

Pela primeira vez no Brasil, a obra do renomado fotógrafo japonês Eikoh Hosoe, pioneiro da fotografia contemporânea no Japão, é atração no Sesc Consolação. O público poderá ver em única mostra suas narrativas de cinco décadas – que têm como inspiração e modelos as figuras do escritor Yukio Mishima e os dançarinos de Butô, Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno – numa rica composição onde desejos e memórias íntimas se misturam com a realidade objetiva.

Para apresentar essa valiosa mostra convidamos Christine Greiner, curadora da exposição.

Reflexões sobre a fotografia no Japão

Christine Greiner*

Quem tiver a oportunidade de visitar a exposição que está em cartaz no Sesc Consolação, “Corpos de Imagens” (até 3 de maio), poderá ter uma ideia não apenas da obra do fotógrafo Eikoh Hosoe, mas de um movimento poético e subversivo que começou no Japão, durante os primeiros anos do pós-guerra. Hosoe faz parte desta geração revolucionária de fotógrafos, artistas, escritores, cineastas e performers que construiu uma nova cultura visual, pensando nas possibilidades da imagem, não apenas como documentação, mas sobretudo como reflexão crítica.

Este tipo de discussão na área do cinema, já havia sido iniciada, entre cineastas e críticos japoneses, com o Movimento do Filme Puro, nas primeiras décadas do século 20. Curiosamente, nem a fotografia, nem o cinema nunca foram “puros” no Japão, mas sempre marcados por um atravessamento importante de diferentes linguagens e por uma noção de realidade que estava mais ligada à exposição de uma materialidade sígnica do que a fatos reais, o que de certa forma dialogava com algumas discussões propostas por André Bazin, entre as décadas de 1940 e 1950. Bazin lançou muitas perguntas mobilizadoras ligadas a ontologia da fotografia e do cinema, identificando justamente a impureza dessas linguagens.

Como explicou Kôen Shigemori, em um texto de 1960, o que estava surgindo no Japão era “um novo problema de linguagem visual”. Se a noção de imagem havia sido, primeiramente, aquilo que se processava na retina; a fotografia trazia a possibilidade de expor afterimages, ou seja, uma espécie de vestígio acontecimental e nunca a coisa em si.

A pergunta importante dos fotógrafos era como criar algum tipo de narrativa com estes dispositivos sensórios e técnicos. Isso porque, na época, a construção de uma narrativa em uma foto era primordial, como afirmou Shômei Tomatsu que fez algumas das fotos mais importantes dos chamados hibakusha ou pessoas que foram atingidas pela bomba atômica e sobreviveram. Hiper expor a pele ou conferir uma certa luminosidade que tornasse visível a narrativa da imagem, eram apenas algumas das estratégias para testar a forma mais efetiva de transformar uma foto em um ensaio critico.

Já no caso de Eikoh Hosoe, a possibilidade de testar narrativas de imagens surgiu, sobretudo, a partir dos ensaios fotográficos que fez de alguns amigos como o escritor Yukio Mishima e o dançarino Tatsumi Hijikata. Ordeal by Roses, com Mishima, documentou o inicio do projeto estético deste escritor que seria finalizado no auge da sua beleza com um ritual de suicídio no quartel general de Tóquio em 1970. Neste sentido, o ensaio fotográfico testemunhou um manifesto pessoal que seria revelado uma década depois.

Já Kamaitachi, o ensaio com Hijikata, girou em torno da viagem que fizeram a Tôhoku, uma região localizada no nordeste do Japão, onde o dançarino havia passado a sua infância. A impureza deste ensaio está na total contaminação entre fotografia e dança. A concepção da dança butô proposta por Hijikata já vinha se constituindo a partir da imersão nos debates propostos por artistas, escritores e filosofos acerca do informe, que seria um estado espaçotemporal equivalente ao breve momento em que antes de algo ser algo identificável, insistiria em resistir a toda forma reconhecida.

Para tanto, no caso das fotografias de Hosoe, as fronteiras entre fundo e figura foram borradas, algumas vezes há sobreposição de imagens ou uma falta deliberada de nitidez que sinalizaria o papel primordial da percepção corporal, não necessariamente visual. Em algumas das suas fotografias, o que se vê, antes de mais nada, é a imagem do próprio corpo e não apenas a imagem externa representada na foto.

Assim, como em todos os outros movimentos que ocorreram na mesma época no Japão, algumas ações de fotógrafos foram assumidamente políticas. No entanto, não se deve supor que se tratava apenas da documentação jornalística dos acontecimentos que se passaram no período do pós-guerra. A grande questão nem sempre era o que estava sendo fotografado e documentado, mas sim como.

Esse deslocamento de coisas, lugares e pessoas para ações, persistiu durante anos, como uma pergunta sem resposta que indagava sobre modos de extinção (de vida), esvaziamento (de sentidos) e dissolução (dos sujeitos).

Alguns desses debates retornaram nos últimos anos, tendo em vista as condições precárias do Japão contemporâneo. E, mais uma vez, o fotojornalismo e os ensaios artísticos desfizeram os seus limites, tendo em vista testemunhar as imagens de uma crise silenciosa e camuflada, que habita os cafés de internet das grandes cidades japonesas, onde vivem aqueles que não podem mais pagar os seus aluguéis.

* é professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, onde coordena o Centro de Estudos Orientais.

 

Serviço

Exposição – Eikoh Hosoe – Corpos de Imagens
Sesc Consolação – Rua Dr. Vila Nova, 245 – SP
Até 03 de maio

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