Fotojornalista “canta” para o Papa
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Fotojornalista “canta” para o Papa

Armando Fávaro

21 Março 2014 | 08h48

Em sua infatigável maratona pelo País em 1980, o Papa João Paulo II juntou milhões de pessoas, superlotou estádios de futebol, basílicas e avenidas das cidades que visitou e ocupou todos os espaços nos jornais, rádios e televisão. As manifestações calorosas atestavam a alegria e o entusiasmo dos brasileiros.

Quando de sua visita à cidade de  Aparecida, em 4 de julho, milhares de fiéis ficaram o tempo todo confinados em módulos de madeira e distantes do papa. A tradicional passarela que liga a o Bairro Alto de Aparecida — onde fica o centro da cidade e se situa a Basílica Velha — à Basílica Nova foi interditada e a cidade ocupada por forças conjuntas de segurança, com 15 mil homens  (na época, isso representava quase a metade da população do município, de 34 mil habitantes) do Exército, Dops, Polícia Militar e Polícia Civil.

Os veículos de comunicação também se organizaram para acompanhar essa etapa da viagem do Santo Padre. Num pequeno hotel de três andares no centro da cidade, mais parecido com uma hospedaria, mais de 80 profissionais da imprensa se amontoavam e chegavam a dormir em colchões espalhados pelos corredores, nas noites que antecederam a chegada do Sumo Pontífice.

Naquela manhã nublada e de frio intenso, o fotojornalista Fernando Pereira, então trabalhando na sucursal paulista do Jornal do Brasil, chegou ao lugar reservado para a imprensa dentro da Basílica Nova, na lateral e distante 100 metros do altar onde o Papa celebraria a missa, mas saiu dali na busca de um lugar melhor para realizar o seu trabalho. O fotógrafo estava ciente do rígido esquema de segurança implantado e sabia que um profissional da revista Manchete havia sido preso por soldados do Exército,  o que deixou os jornalistas sem condições  normais de acompanhar Sua Santidade.

Após caminhar algum tempo pela Basílica, Fernando deparou com uma fila que descobriu ser a dos componentes do coral que acompanharia o Papa. Após a distração de um segurança, que dava informações a uma freira, entrou nessa fila, apanhou a bata dos componentes do coral e se posicionou no alto, na extrema direita, onde tinha uma melhor mobilidade com sua câmera. “Durante o ensaio, antes da chegada do Santo Padre, alguns cantores quiseram me expulsar dali, mas ponderei: ‘por favor, deixem-me fazer o meu trabalho, juro que não vou atrapalhar ninguém’”, diz o fotojornalista.

Fernando conta que depois de três noites sem dormir direito, buscando fotografar o Papa, lá estava ele no meio de um coro de mil vozes. “Por três horas fiquei abrindo e fechando a boca como se fosse um deles e não sabia se a partitura à minha frente era uma obra de Bach ou de Schubert.” Durante a apresentação, o maestro Jonas Cristensen fazia gestos para que todos cantassem com toda a força de seus pulmões. “Ele fazia um gesto largo como se eu estivesse desafinando, na verdade eu mexia os lábios, mas não deixava escapar um som. O componente ao lado me perguntou se eu havia perdido a voz. Engoli a seco e fiz o que pude para acompanhar a música e fotografar de um ângulo privilegiado, em que o Papa aparecia em primeiro plano e os fiéis ao fundo.”

No término da missa, os participantes do coral ganharam um lenço branco e puderam chegar um pouco mais próximo do Sumo Pontífice para saudá-lo. Fernando Pereira falou consigo mesmo, após limpar o pigarro da garganta: “Fernando Pereira, o Pereirinha às suas ordens”. “O Papa vinha caminhando, majestoso, e assestei a minha câmera, agora livre de todo o aparato de segurança montado em Aparecida.” Depois que o Papa partiu, o fotojornalista saiu tranquilamente da Basílica, sem ser importunado pela segurança, ao contrário do que alguns jornais, pressionados pelas autoridades militares,  publicaram.

 

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