José Patrício conta a história da imagem contemplada no Prêmio Vladimir Herzog
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José Patrício conta a história da imagem contemplada no Prêmio Vladimir Herzog

Armando Fávaro

01 Abril 2014 | 08h32

Era uma madrugada de maio de 1997. Eu estava na zona norte de São Paulo quando o pager ( bipe) tocou. Li em seu visor a seguinte mensagem: “Rebelião Cadeia Praia Grande Santos”. O estagiário na central de escuta do extinto jornal Diário Popular me informou que havia reféns e os amotinados exigiam a presença da imprensa. O estagiário também informou que estava fora de nossa jurisdição ir até a baixada santista. Então argumentei que jornalista não tem jurisdição. Seguimos, eu e o repórter, até o local da rebelião. O diretor permitiu a presença da imprensa nos corredores, por solicitação dos presos e, ao entrar no corredor do presídio, me deparei com uma cena chocante: três presos já estavam mortos e os líderes da rebelião falaram que não queriam a presença de rádios e jornais escritos e sim das emissoras de televisão com link ao vivo. Segundo eles, se até o amanhecer nenhuma emissora de TV estivesse com link ao vivo, outros dois presos que estavam amarrados seriam mortos, na frente de todos, e pediram para que todos se retirassem do local.
Colchões, cobertores e vários materiais inflamáveis foram usados pelos presos durante a madrugada. Eles atearam fogo em tudo. O Corpo de Bombeiros foi chamado e o incêndio se estendeu pela madrugada adentro. Estava do lado de fora do presídio quando o Corpo de Bombeiros chegou. As escadas foram erguidas e, quando o último bombeiro subiu no vão que circulava a cadeia, eu subi atrás, fiquei escondido na canaleta de segurança a madrugada toda. Quando o dia amanheceu, comecei a fotografar e foi quando vi os dois presos amarrados. Nas costas de um deles estava escrito “ESTRUPADOR”, com erro de ortografia. Nas costas do outro estava escrito ‘ESTRUPADOR METELÃO”. Continuei fotografando até que um dos presos notou minha presença e gritou: “Aí fotógrafo. Cadê a TV. Nóis vai matar mais um, fica aí que você vai ver”. De repente um policial apareceu na guarita e gritou para mim: “Mão na cabeça. Deita no chão”. Gritei: “imprensa”. Ele quis saber onde estavam os filmes fotográficos que operei. Respondi que já tinha mandado tudo por um motoqueiro. “Daqui de cima da guarita joguei para ele todo o material”. O PM disse que eu tive sorte por estar vestido com uma calça jeans azul. Se não, ele teria sentado o dedo, atirado em mim. Desci o mais rápido possível, encontrei o repórter e falei: “Vamos embora logo daqui pois eu tenho uma grande imagem”. Ao chegar à redação, o diretor foi informado da imagem e, quando viu a foto, disse efusivamente que era foto para prêmio. A reportagem foi publicada no dia seguinte e a repercussão foi enorme. Muitos ligaram criticando pela brutalidade que a imagem continha. Outros elogiaram. Fui contemplado com a menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de 1997 por esta fotografia.

Rebelião no presídio de Praia Grande. Foto: José Patrício

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