Lula em oração, por Celso Júnior
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Lula em oração, por Celso Júnior

Armando Fávaro

30 de maio de 2014 | 18h32

Fotos: Celso Júnior/Estadão

 

Para a cobertura da viagem do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva à cidade de Parnaíba, distante 370 km de Teresina, capital do Piauí, em 22 de fevereiro de 2006, o repórter fotográfico Celso Júnior e o repórter Leonencio Nossa se hospedaram no mesmo hotel onde ficariam o presidente e sua comitiva. Era a última etapa de uma viagem que o presidente fez pela Região Nordeste do País para visitar iniciativas governamentais em educação. Na cidade de Parnaíba, Lula inauguraria uma placa alusiva à expansão do câmpus da Universidade Federal do Piauí.

Na noite anterior à solenidade, Celso e Leonencio perceberam uma movimentação diferente da equipe de segurança do presidente, graças ao investimento do jornal em hospedar seus jornalistas no mesmo local da comitiva presidencial, um resort à beira mar, na praia de Lagoa Doce, e resolveram não dormir para não perder nenhuma atividade não programada na agenda oficial.

Celso Júnior conta que era um momento em que o ex-presidente falava muito no seu emagrecimento, tinha emagrecido 14 quilos, e “a segurança poderia isolar a praia, o que impossibilitaria nosso trabalho”. Assim, a dupla jogou um pouco de sinuca e no início da madrugada se deslocou para a praia, onde passou a noite. Cochilaram nas cadeiras que ficam na beira da praia e às 5h30 da manhã começou uma movimentação da segurança presidencial. “Eles vieram até nós e pediram para sairmos das cadeiras, mas não nos tiraram da praia, mesmo porque a praia é pública.”

Por volta das 6 horas a luz do apartamento de Lula acendeu e ele apareceu rapidamente na janela, mas Celso não conseguiu capturar a imagem. Passados 15 minutos Lula apareceu na porta do apartamento, vestindo um short e Celso, com uma teleobjetiva conseguiu fazer algumas imagens do presidente, achando que ficaria por ali. Mas, para surpresa dos dois jornalistas, o presidente começou a caminhar na direção deles e, quando chegou mais perto, o cumprimentaram com um “Bom dia”, no que Lula respondeu: “Bom dia, bom dia. Eu não esperava encontrar vocês na praia tão cedo. Vocês não dormiram?”.

Depois de um aperto de mão o ex-presidente saiu correndo pela praia deserta. Segundo Celso, virou uma loucura: “O Lula correndo, eu, o Leonencio, os assessores e a segurança também correndo. Todos correndo atrás do presidente, por 5 km, parecia uma cena de filme. Ele não parava de correr. Eu estava de calça jeans, tênis e com todo o equipamento fotográfico, estava complicado para mim”.

 

 

 

De repente o ex-presidente parou de correr, começou a caminhar e entrou no mar. Celso entrou junto, sempre fotografando. Depois de algumas imagens Lula fez uma piada: “Você é de onde? Você é caipira que vem para a praia de calça?” O fotógrafo, que estava com a água até a altura da cintura, respondeu: “Pois é presidente, coisas da profissão…” mas sem parar de fotografar. 

 

 

 

Depois de alguns minutos assessores e seguranças pediram ao fotojornalista para deixar o presidente um pouco mais à vontade e Celso começou a caminhar à frente de Lula. “Num determinado momento olhei para trás e vi a cena do presidente com os braços levantados e rezando, deu para ouvir a sua oração. Foi um momento em que o caso do mensalão saiu um pouco do noticiário e começava o ano da campanha para a sua reeleição. Ele fez sua oração dentro do mar, olhando para o céu e com os braços levantado para cima. Os seguranças abaixaram a cabeça em sinal de respeito. Só eu fiz essa imagem.”

 

Ao voltar caminhando pela praia, Lula conversou com o repórter, depois tomou banho numa ducha da piscina do hotel e tomou um rápido café da manhã enrolado numa toalha. Celso conta: “Lula foi muito receptivo, por uma hora documentei tudo. Lula ainda pediu que o fotógrafo oficial não divulgasse essas imagens pois era um furo de reportagem nosso, ou seja, ele tinha consciência da importância do material jornalístico que conseguimos”. Quando Celso e Leonencio chegaram à solenidade oficial, as fotografias já estavam publicadas no site do jornal e era o assunto mais comentado por todos os presentes. Em seu discurso Lula comentou “Às 6 horas, fui à praia sozinho tomar um banho de mar. Tem de ter uma hora de lazer e prazer, senão a gente morre”.

 

 

 

Essas imagens não só estamparam as homepages da maioria dos sites e das capas dos jornais, como também foram adquiridas pelo Clube Náutico Capibaribe, de Recife, já que o símbolo do clube estava estampado no short usado pelo ex-presidente.

**O fotojornalista Celso Júnior começou a trabalhar no Grupo DCI, depois ficou 14 anos no Estadão e levou a experiência no fotojornalismo para sua empresa de fotografia de casamentos em Brasília. http://www.celsojuniorfoto.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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