“Tá fotografando o quê?”
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“Tá fotografando o quê?”

Armando Fávaro

14 Março 2014 | 11h25

Na rotina de trabalho da redação de um veículo de comunicação, é normal que os profissionais de imagem se deparem com pautas que trazem consigo a possibilidade de conflitos. Quando determinadas manifestações – seja de estudantes, de trabalhadores ou movimentos sociais – são reprimidas pela força policial, o profissional, por mais que se defenda, corre certos riscos para obter a imagem que melhor informe, como nos ensinou Robert Capa (1913-1954): “Se suas fotografias não são suficientemente boas, é porque você não está suficientemente perto”.

Ao se posicionar para exercer o seu ofício e o seu direito de informar, os jornalistas se veem no meio de violentas ações por parte dos dois lados do conflito que, invariavelmente, não gostam e não querem permitir que suas ações sejam capturadas e gravadas pelas câmeras, ou seja, não desejam que suas atitudes cheguem até o conhecimento da sociedade. Para isso, usam o artifício mais conveniente no momento da ação, a truculência.

 

Em meio à confusão, os jornalistas de imagem, mesmo que procurem se proteger, tornam-se alvos da cólera dos gladiadores urbanos. Fúria essa que leva fotógrafos e cinegrafistas aos prontos-socorros, hospitais e cemitério.

 

O fotojornalista Yasuyoshi Chiba, da agência AFP, ferido por PMs durante manifestação em frente o Palácio da Guanabara, no Rio de Janeiro, em 22 de julho de 2013. Foto: Uanderson Fernandes

 

Há décadas jornalistas relatam a agressão da Polícia Militar e a hostilidade de manifestantes. Alberto Jacob, então fotojornalista do Jornal do Brasil, teve sete costelas quebradas por um grupo de PMs que covardemente o agrediram e tomaram sua câmera quando da cobertura da missa de sétimo dia da morte do estudante Edson Luis, na igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 4 de abril de 1968. Essa agressão foi registrada pelos fotógrafos Alberto França e Odyr Amorim e a matéria publicada no JB.

 

Durante a manifestação dos professores da rede estadual de ensino, em 18 de maio de 2000, a Avenida Paulista, a principal via da maior cidade do País, foi palco de violenta repressão de policiais munidos de carabinas, cachorros e bombas contra os manifestantes. A PM usou a cavalaria e a tropa motorizada para dispersar os professores. O fotojornalista Alex Silveira, do jornal Agora, foi ferido no olho por uma bala de borracha que o deixou praticamente cego, interrompendo a sua carreira no fotojornalismo. O mesmo drama vive o fotógrafo Sérgio Silva que perdeu a visão do olho esquerdo ao também ser atingido por uma bala de borracha disparada pela PM, durante a manifestação contra o aumento das tarifas no transporte público na cidade de São Paulo, em 14 de junho de 2013.

O fotógrafo Marcos de Paula, do Estadão, que acompanhava o protesto no feriado em comemoração do Dia da Independência, no centro da cidade do Rio de Janeiro, na manhã de 7 de setembro de 2013, foi ferido por uma bomba lançada pela Polícia Militar contra os manifestantes que estavam na frente do Batalhão da PM na Praça Tiradentes. Os manifestantes jogaram um artefato explosivo no quartel e a reação veio em seguida com a bomba, que bateu no chão, ricocheteou e feriu o antebraço do fotógrafo.

A mesma violência que vitimou Alberto Jacob, Alex, Sérgio, Marcos e tantos outros jornalistas foi responsável pela morte do cinegrafista Santiago de Andrade, ferido na cabeça por um artefato lançado por manifestantes, quando cobria para a TV Bandeirantes a manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus, em 6 de fevereiro de 2014, no Rio de Janeiro.

Exemplos como esses não ocorrem apenas no Brasil. Em Atenas, Istambul, Madri, Kiev, Damasco, entre tantas outras localidades, os jornalistas de imagem também são vítimas da violência e procuram se proteger da melhor maneira possível. Como é o caso de Saad Sulibi que faz de seu rifle e de sua câmera parceiros inseparáveis no seu ofício de documentar as ações dos rebeldes na Síria. “Eu gravo os conflitos com a minha câmera, mas, se o exército atirar contra mim, eu disparo de volta…porque a minha vida é mais importante do que qualquer imagem que eu possa gravar“, diz Sulibi.

 

Saad Sulibi no distrito de Deir Ezzor, na Síria. Foto:Zac Baillie

Assim, na busca da melhor informação, os jornalistas de imagem trabalham com base numa linguagem de instantes, procurando condensar num ou em vários momentos toda a essência de um acontecimento e o seu significado. E como nos diz James Nachtwey:   “Se nosso trabalho não fosse capaz de alterar em alguma medida a marcha do mundo, não teríamos tantos problemas para capturar imagens”.

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