Wilson Pedrosa conta a história da foto de Itamar Franco no sambódromo
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Wilson Pedrosa conta a história da foto de Itamar Franco no sambódromo

Armando Fávaro

04 Março 2014 | 12h30

Nas viagens presidenciais, é normal que os veículos de comunicação desloquem seus profissionais baseados em Brasília para essas coberturas, pois esses jornalistas, além de terem uma credencial especial, são conhecidos de autoridades e do forte aparato da segurança presidencial.

Na manhã do dia 10 de fevereiro de 1994, quinta-feira que antecedia o carnaval daquele ano, os profissionais de imprensa foram surpreendidos com a notícia vinda da assessoria do Palácio do Planalto que informava a decisão do então Presidente da República, Itamar Franco, de, naquele feriado de carnaval,  assistir a primeira noite do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e, em seguida, descansar na cidade de Juiz de Fora, cidade que o soteropolitano adotou como sua terra natal.

Três dos quatro maiores jornais da época, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo, colocaram na cobertura dessa viagem seus fotojornalistas da sucursal de Brasília, O Globo optou por um fotógrafo da sede no Rio de Janeiro. Desses quatro profissionais, só um tinha a credencial com acesso ao desfile das escolas de samba, os outros três estavam limitados à cobertura da comitiva do Presidente da República.

Ao chegar no sambódromo do Rio de Janeiro, o presidente e sua comitiva foram acomodados no camarote da Liga das escolas de samba, nós, fotojornalistas, ficamos em frente a esse camarote com alguns seguranças à frente.

Depois de um tempo, o fotógrafo que possuía a credencial para a pista do desfile, foi para a avenida para enquadrar o presidente e os sambistas na mesma imagem e, de quebra, também capturar algumas fotografias dos foliões. Nesse período, o deputado federal Valdemar Costa Netto levou a modelo Lilian Ramos,que acabara de desfilar como destaque da escola Grande Rio, para conhecer o presidente Itamar Franco. Os dois ficaram lado a lado e, num determinado momento,  levantaram os braços para apanhar algumas serpentinas jogadas da avenida, esse movimento levantou a camiseta que a modelo trajava e, para nossa surpresa – e um certo delírio – nós três  ali confinados, percebemos que a modelo, estava sem calcinha.

Quando constatamos o que estava acontecendo, combinamos de cada um registrar um rolo de filme, de 36 poses,  e, após isso, avisar ao segurança presidencial. Assim, depois que todos os três acabaram com todo o filme, avisei um dos seguranças e este comunicou ao ministro da Justiça, Maurício Côrrea, que alertou o presidente da República.

Itamar, nervoso e constrangido, pegou a modelo e ambos se descolaram para a parte de trás do camarote, onde não podíamos mais fotografá-lo.  Enquanto o presidente se afastava, o fotógrafo que estava na avenida voltou e começou a contar o que tinha registrado e perguntou se havia acontecido algo mais interessante. Ao  contarmos as fotos que fizemos ele ficou transtornado e,  na saída da comitiva presidencial do camarote ele tentou de todas as maneiras registrar a modelo sem a calcinha e, como não foi possível,  deslocou-se rapidamente para a porta do hotel Glória, onde o presidente passaria a noite. Ele chegou antes da comitiva presidencial, novamente tentou, mas, impedido pela segurança,  não conseguiu fotografar o casal nas escadarias do luxuoso hotel. O jornal foi obrigado a comprar e publicar a imagem feita por um concorrente

Esta fotografia, publicada em jornais e revistas no Brasil e no exterior, gerou protestos no Congresso Nacional e recursos jurídicos que pediam a destituição do Presidente da República.

Wilson Pedrosa*

* Começou a fotografar no  Jornal de Brasília, em seguida atuou nos jornais Correio Braziliense e Jornal do Brasil. Depois transferiu-se para o jornal O Estado de S.Paulo, onde trabalhou por 24 anos. Hoje é fotógrafo Freelancer.

 

O presidente Itamar Franco no sambódromo com Lilian Ramos.
Foto: Wilson Pedrosa/Estadão