Quinta-feira, 31 de março de 1910

Estadão

31 de março de 2010 | 00h00

 

 

 

 

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A erupção do Etna-Novas boccas eruptivas-Atmosphera irrespirável-Fanatismo religioso e curiosidade prejudiciaes- saques de casas abandonadas- Prisões

ROMA – Telegrammas da Catania aos jornaes da manhan referem que a erupção do Etna augmentou sensivelmente durante a noite, tendo apparecido novas boccas eruptivas. Os  gazes que se evaporam das crateras e da mesma lava tornam a atmophera irrespirável em uma vasta zona dos arredores do vulcão.

As auctoridades mostram-se desgostosas pela grande affluencia de fiéis fanatisados e de curiosos, os quaes difficultam os serviços de salvamento das populações ameaçadas pela lava.

Em muitos pontos os soldados são obrigados a usar modos enérgicos para afastar das correntes de lava os crentes imbecilisados, que esperam fazer parar com as preces o terrível elemento incandescente na sua marcha devastadora. (…)

Camponezes famintos e sem tecto entregam-se a excessos lamentáveis, saqueando casas de proprietários abandonadas e embriagando-se nas adegas das vinhas. (pág.4)

 

 

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Muley-Hafid acceitou as condições impostas pela França. O ministro dos negócios estrangeiros publicou a este respeito uma nota que expõe claramente a situação. (…) As coisas ficaram, pois, bem figuradas e a França obtem todas as satisfacções que desejava: conclusão do empréstimo e accordos relativos aos penhores e garantias; nomeação de um alto commissario cherifiano, previsto pelo accordo de 1902 relativo á fronteira argelio-marroquina; medidas necessárias para a execução dos accordos assignados em Pariz em 15 de janeiro de 1910 relativos á mesma região; extensão dos poderes da commissão de verificação das dividas do Maghzen afim de permitir uma liquidação definitiva logo depois da conclusão do empréstimo; finalmente, applicação do artigo 60 do acto de Algeciras, relativo ao direito de propriedade dos europeus em Marrocos.

Poder-se-á ao menos esperar agora que todas as difficuldades serão aplanadas e que as coisas tomarão um caracter normal? (…)(pág.2)

 

 

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RIO

 Em sua edição da tarde de hoje, diz o “Jornal do Commercio”:

“Nas rodas políticas tem sido muito commentado o facto de não haver o marechal Hermes comparecido ao desembarque do presidente do Ceará, nem tão pouco mandado um representante qualquer dar as boas vindas.

Há quem pretenda enxergar nessa ausência do marechal uma indicação certa da sua attitude futura com relação ás oligarchias.

O sr. Accioly é a expressão máxima da corrupção política a que se convencionou dar aquelle nome. É o oligarcha-typo, a figura modelo do gênero. É  tudo isso, mas…descarregou a votação, no marechal, embora sem o cerebrino cuidado que o sr. Lemos teve no Pará, de mandar contar em separado as cédulas da opposição.

É provável que o candidato de maio não tenha pedido votos á oligarchia cearense. (…)

O que essa ausência significa é o que ainda não sabemos. Mas o facto é que a futura presidencia, quer queira, quer não, terá de encarar esse assumpto das oligarchias seja para extinguil-as, ou seja para toleral-as ou favorecel-as.

Como a segunda hypothese seria a desmoralisação de um governo digno, é claro que a primeira, no fim de contas, prevalecerá, talvez com attenuantes para certos casos particulares…” (pág.4) 

 

 

 

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LONDRES – O “Times” publica o seu “Engeneering Supplement”, no qual se nota um sensacional artigo sobre o novo cães do Rio de Janeiro será em muito breve espaço de tempo um importantíssimo centro comercial e o seu porto, quando concluídas as obras em andamento, não terá egual em todo o mundo.

Occupa-se tambem do serviço postal, pelo systema pneumático inaugurado no Rio de Janeiro.

Refere-se o grande orgam londrino á Estrada de Ferro de Madeira ao Mamoré, salientando a importância das obras de engenharia alli realisadas. (pág.4)

A situação na Ethiopia

 

 

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O telegrapho traz-nos a noticia do fallecimento de Menelick, victimado pela arterio-sclerose, depois de uma agonia de vários mezes.

A situação na Abyssinia, com o fallecimento do maior reformador e político do grande império christão do continente negro, torna-se bastante duvidosa e perigosa, pelas lutas que a successão ao throno poderá suscitar.

A respeito das rivalidades que se manifestaram desde o estado agudo da moléstia de Manelick, no “ghebi” imperial de Adis Abeba, um nosso collega do “Secolo” de Milão entrevistou recentemente um abyssinio illustre, o professor Ato asevork, docente de língua americana no Instituto Oriental de Napoles, cujas declarações, de uma actualidade palpitante , aqui resumimos.(…) (pág.3)

 

 

POLITICA INGLEZA

Conforme informamos hontem, em telegramma, a sessão da camara dos communs na véspera teve excepcional importância, visto ter sido occupada na discussão do veto dos lords, cujo direito o presidente do conselho, sr. Herbert Asquith, atacou vehementemente.

Segundo os telegrammas especiaes do “Jornal do Commercio”, que ampliam as nossas informações, disse o presidente do conselho que a grande maioria dos deputados recebeu mandato directo imperativo para  pôr fim ao estado de coisas actual em matéria de finanças e sua legislação.

A camara dos lords é o orgam de um único partido, de sorte que votado um “Bill” deste partido, ella rejeita os “bills” de outro partido.

Baseada na hereditaridade: mais vale a autocracia absoluta da camara única, responsável em face da nação, do que a da camara dos lords, irresponsável e prompta a sacrificar- como concordou o Marquez de Landsdowne, o que se considera os melhores interesses nacionaes.

Quando dizemos que uma segunda camara é necessária, não se trata absolutamente de uma camara fazendo concorrência aos communs, mas como interprete autorisado da vontade nacional. (pág.6)