Quarta-feira, 13 de abril de 1910

Estadão

13 de abril de 2010 | 00h00

 

 

 

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DO VELHO MUNDO

Com a devida venia, transcrevemos do “Correio Paulistano” a seguinte correspondência que lhe foi dirigida deBruxellas pelo sr. dr. F. Ferreira Ramos:

O funccionamento durante um anno dos serviços relativos é grande operação destinada á defesa do café permitte já ao economista caloular o prazo provável da extencção do maior empréstimo da America do Sul (não falando dos destinados a conversões de dividas) e prever algumas das consequencias dessa colossal operação que fez correr muita tinta e gastar tanta penna e papel em todos os recantos do globo em que o precioso fruto é conhecido. Procuramos resumir aqui mesmo esse assumpto: Os juros e amortizações  do empréstimo de libras 15.000.000 provêm de dois factores: a)sobretaxa de 5 francos; b)venda dos cafés em garantia.

 

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LONDRES – O sr. Arthur James Balfour, chefe do partido conservador, na sessão de hoje da camara dos communs, referindo-se ao projecto de reforma da camara dos lords apresentado pelo governo, disse que a primeira das três resoluções do projecto, limitando o direito de veto da camara alta, não servirá senão para augmentar os eternos conflictos entre as duas camaras. O sr. Winston S. Churchill, ministro do interior, declarou que os membros do governo estão de pleno accôrdo quanto as resoluções do projecto de reforma apresentado, principalmente no principio de subordinação da segunda camara á dos communs. Os srs. R. Ba. Haldane, ministro da guerra, e Edward Grey, ministro das relações exteriores, divergem dos outros membros do gabinete, accrescentou o sr. Winston Churchill, sómente a respeito da marcha a seguir na applicação das resoluções do projeto. Esses dois ministros queriam que as medidas a applicar fossem ainda mais radicaes do que são. (pág.4)

 

Gran-Bretanha – No terceiro dia em que na Camara dos Lords se debatia a questão da reforma daquella Camara, usou da palavra Lord Curzon nos seguintes termos:  “(…) Eliminar da Camara dos lords as incapacidades é uma tarefa delicada e espinhosa; não menos espinhosa será a que tem por fim escolher entre os diferentes projevtos e extrair de cada um delles um corpo de princípios geraes que devem servir para se estabelecer um plano definitivo de reformas.”(…)

Lord Curzon rejeita a idea duma segunda camara electiva; em rigor, admittirá que se ella fosse em parte electiva, mas essa parte eleita em condições que permittissem arraigar mais na democracia a confiança e a extima pelos lords e imprimissem á camara dos lords uma solidez tal que de futuro os choques dos partidos não a pudessem abalar. Em seguida, fez uso da palavra Lord Cromer, que pediu aos lords que rejeitassem toda e qualquer diminuição dos poderes que possuem. (…) (pág.2)

 

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ALLEMANHA

Está sendo muito discutida pela imprensa alleman uma conferencia realisada na Escola de Guerra de Berlim, pelo tenente Karl Kuhn, um dos mais brilhantes escriptores militares da Allemanha. Sustentou o conferente que a raça germanica degenera e que a culpa desse mal a tem o industrialismo, que faz despovoar os campos e accumula nas cidades massas enormes de proletários.(…) Essa emigração determina o empobrecimento physico da mocidade porque a atmosphera viciada das grandes povoações é inimiga da robustez do corpo, da riqueza do sangue, da agilidade e da força dos músculos. Só os camponezes são bons soldados. Os operários das cidades, uns envenenados pelo álcool, outros excitados pela propaganda socialista, que lhes torna odiosa a vida do quartel, são pessimos soldados.(…) Segundo as estatísticas officiaes do recrutamento, os melhores soldados allemães são os da Alsacia-Lorena, descendentes, não os colonos, mas naturaes do paiz. Os alsacianos e os lorenos são mais ágeis e fortes e os que melhor resistem á fadiga. Nem os estropiam as marchas nem os deprime a vida do quartel. Mas, se physicamente são os melhores soldados do império, a verdade é que o seu lealismo deixa muito a desejar. Elles não esquecem que a Alsacia e a Lorena foram, durante séculos, províncias francezas e por isso repugna-lhes a obediência a generaes da Allemanha. Por isso, nos últimos annos, foram condenados por deserção ou fugiram para a França e para a Belgica duzentos mil recrutas da Alsacia e da Lorena.(…) Na França a população rural é muito mais numerosa do que a população urbana e este factor é importante num caso de guerra(…) Seria triste que o industrialismo, concorrendo para degenerar a raça alleman, nos fizesse perder- continua o tenente Kuhn- o fructo de tantos annos de triumphos e conquistas. (pág.2)

 

O MEDO E OS HEROES

Um jornalista, que se deu ao trabalho de estudar a psychologia dos generaes em face do inimigo, chegou a conclusão de que, em regra, os grandes capitães são sujeitos a phenomenos de medo. Raros, os execpcionaes apenas, como Napoleão, Ney e poucos outros, os que guardam, intacto, o sangue frio. Napoleão e Ney, ao contrario do que até nos mais bravos succede, nem perturbações na respiração experimentavam.Eram, no campo de batalha, perfeitamente senhores de si. É claro que esses phenomenos não são persistentes. Manifestam-se quase sempre no começo da peleja, mas, com o andar desta, desapparecem. Um sábio allemão é de parecer que são até evitáveis, ou, pelo menos, corrigíveis. Basta que, ao parar o coração de bater (é assim que o medo se revela), se respire largamente. Trava-se logo a acceleração vertiginosa dos movimentos cardíacos, attenua-se o tremor das mãos, desannuvia-se a vista e desobstrue-se o ouvido. As melhorias são immediatas e a cura radical não se faz esperar. Além disso, a novidade do espectaculo e o cumprimento do dever profissional distraem o espírito e contribuem para pol-o ao abrigo do medo. (pág.3)

 

ANNUNCIO

 

 

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