Terça-feira, 3 de maio de 1910

Estadão

03 de maio de 2010 | 00h00

 

 

 

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NOTAS E INFORMAÇÕES

Em um banquete que se realisou ante-hontemna cidade de Buffalo, Estados Unidos, offerecido pela camara de commercio ao “Manufacturers Club”, proferiram discursos o sr. Taft, presidente da Republica, e o secretario do departamento de Estado, sr. Knox. O sr. Taft annunciou que os Estados Unidos iam entabolar negociações tendentes a desenvolver e fortalecer as suas relações commerciaes com o Canadá. O sr.Knox, depois de dizer que a diplomacia e o commercio deviam caminhar de mãos dadas, declarou que a participação ao empréstimo para a construcção dos caminhos de ferro chinezes era essencial ao desenvolvimento do commercio dos Estados Unidos, na China. (pág.1)

 

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A taxa do cambio e a economia nacional IV

Como temos dito, a elevação da taxa cambial de 15 para 16 dinheiros vem golpear a todas as fontes productoras da riqueza nacional. Já mostramos hontem os riscos que para o commercio acarretaria essa reforma. O commerciante que seja surprehendido com um stock de mercadorias importadas na vigência do cambio a 15, não poderá competir com aquelle que venha a fazer as suas compras favorecido pela nova taxa; e assim, a elevação cambial será para elle um desastre, talvez a quebra. Não menos compromettida poderá ficar a situação das industrias. Verão, de súbito, augmento virtual do custo de producção; ao passo que a diminuição das rendas será para ellas uma dura collisão conseqüente da contingência de concorrer com os productos mais baratos da importação estrangeira. E a lavoura?(…) A lavoura de café, certo, mais fundo golpe receberá, porque a sua situação economica ainda continua extremamente grave e delicada. A sua renda é absorvida quase toda com o custo de producção. O trabalho da cultura, da colheita e do preparo do café é oneroso; o frete ferroviário, as commissões a pagar, e o bárbaro imposto-pouco deixam ao productor. Não será surprehendente que para grande numero de fazendeiros os reduzidos saldos da exploração agrícola desappareçam integralmente, ou mesmo se concertam em “déficit” . (…)  (pág.1)

 

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ARTES E ARTISTAS

Conferencia literária – Realisou-se, hontem, no theatro AntÁnna, a annunciada conferencia de Olavo Bilac sobre “As mulheres de Shakespeare”. O primoroso poeta, que é tambem um admirável “diseur”, manteve a assistência durante hora e meia sob a impressão de um inexcedível encanto, graças á sua prosa tão suggestivamente imaginosa, alliada é elevação e originalidade dos conceitos. Bilac, que foi recebido por uma prolongada salava de palmas da selecta e numerosa assistência, começou por declarar que ia ler a conferencia, desviando-se assim da sua norma habitual de deixar ao acaso da inspiração do momento as considerações que o desenvolvimento do thema lhe fosse suggerindo. (…) Seria uma profanação confiar ao acaso das associações de idéia da occasião o que tivesse de dizer sobre as criações femininas de Shakespeare, como tambem o conferente commeteria um sacrilégio se, mettido na pelle do critico pedante, rebuscado de imperfeições, pretendesse analysar uma a uma, salientando-lhes as características essenciaes, essas figuras extraordinárias de emoção, de verdade, tão humanas nas gigantescas proporções em que as esculpturou aquelle gênio poético universal. Demais, seriam precisas, não uma mas tantas conferencias quantos esses typos femininos, que se chamam Ophelia, Miranda, Jessica, Cortia, desdemona, MacBeth, Julietta, cordelia, e cincoenta outras. Dessa immensa escada luminosa, que ascende da terra ao céu, e na qual cada degrau ha uma mulher , o conferente destacaria Ophelia, Cordelia, Desdemona e Julietta, que representam a  gradação evolutiva do amor, desse grande sentimento que domina todos os seres viventes, causa fecunda de tudo que existe, desse sentimento que avassalla tudo que tem vida, desde o infinitamente pequeno, partícula amorpha e inconsciente da matéria, até o homem em plena posse das mais nobres funcções da consciência. Esses quatro typos femininos formavam uma symphonia de amor, com a mesma estructura das symphonias de Mozart e de Beethoven. Ophelia com seu amor inconsciente, sem acção, nem vigor, incapaz dos grandes sacrifícios e dos impulsos irresistíveis, era o “allegro” da symphonia, em que se desenha o thema principal vagamente, delicadamente, deixando já perceber toda a obra, mas não a definindo ainda com nitidez. É que Ophelia amou Hamlet, como amaria outro homem qualquer; esse amor nasceu da convivência, do habito, desenvolveu-se ao calor brando de umas phrases, mas não se radicou profundamente no coração da filha de polônio, envolveu apenas aquella alma cândida, ingênua que atravessou a curta existência como que alheia a si mesma, num estado semi-inconsciente. A fatalidade do destino collocou-a no caminho do príncipe da dinamarcaq, e o idyllio delicado de amor terminava pela tragédia. Hamelet para o conferente é um homem na posse integral das suas faculdades psychicas, e não o indeciso, a victima cruel de uma abulia que não lhe permittia realisar a missão vingadora, que lhe absorve toda a actividade; não há duvida que a Idea de castigar os assassinos de seu pae o domina por compketo, tanto que elle, no seu grande amor á verdade, não é capaz de occultal-a na sua mal simulada loucura; por isso, elle é cruel , desapiedado e esmaga a casta Ophelia, porque tudo sacrifica ao seu ódio. Desse amor pallido ainda, hesitante, inconsciente, o “allegro” da grande symphonia shakespeareana, passa-se para o “adágio”, para o amor filial da duleissima Cordelia, virgem como ophelia, mas onde o instincto do amor se manifesta já numa das suas mais nobres modalidades: o sacrifício consciente, resignado, sem um impulso de revolta. Nessa prodigiosa criação, nessa Cordelia, Shakespeare synthwetisa a sobbrehumana tranformação do amor filial, nutrindo espiritualmente o desventurado e misero pae, que num momento de vaidoso orgulho faz descer a um todos os degraus da desgraça. E é Cordelia quem ,com uma abnegação sublime e heróica, integrando o thesouro inexhaurivel de um coração amantíssimo de mãe, restitue pouco e pouco a razão, e com Ella a alegria, o esquecimento da injuriosa gratidão das duas filhas e do remorso que podia pungir a alma desse rei Lear. Como a noiva de Hamlet, Cordelia tinha de ser immolada á fatalidade do destino ; e a sua morte inspira a Shakespeare as imprecações que fazem lembrar as mais violentas apostrphes das tragédia de Eschillo, traduzindo a maior e mais cruciante dor humana, ante o irremediável da morte. Terminou o “adágio”; na orchestra, á tempestade, que se desencadéa nos violinos cujas cordas ainda vibram violentamente, interferindo com a sonoridade majestosa dos metaes, succede o “scherzo” delicado, fino, intellectual e gracioso, preparando a transição para o “finale” impetuoso, onde num “presto” agitado se emmatanham todos os themas conductores da significação esthetica de toda a construcção. Desdemona symbolisa essa parte da symphonia do amor. E’ a modalidade do amor inspirado pela admiração instinctiva do que é grande, do que excede o limite estreito das farças humanas, e que depois se deixa impregnar dessa compassiva piedade que poreja tão facilmente da alma feminina. Não foi o sortilgio do mouro, como affirmava Basbancio, que encantou Desdemona, obrigando-a a antepor ao seu orgulho de casta e á obediência paterna esse amor poderoso, que é toda a sua vida e lhe há de ser fatal. O amor todo intellectual, a principio, resultante da fascinação que sobre as filhas de Eva exercem os os feitos heróicos e a rude e tormentosa luta pela vida. Foram as aventuras de Othelo, os seus prodígios de valor, as suas dores e os seus infortúnios, toda essa vida intensa de virilidade que seduziu desdemona. Esse amor todo cerebral não se podia eximir á necessária e natural exigência dos sentidos; e Desdemona amou com toda a vehemencia a alma generosa e crédula e o corpo esculptural daquelle que devia ser o seu algoz. E’ o amor intimo, sem as expansões das confidencias, sem as exterioridades da amargura que extravasa da alma; amor que vive de si mesmo, e que a morte transporta intacto, sublime de pudor e de infinda magua para as regiões mysteriosas do Além. A brutalidade de othello, que a orchestra desenha com vigor na contersão das cordas dos violinos e na estridência dos metaes, através de cuja sonoridade perpassa como um suavissimo “leit-motif” a canção do salgueiro da infeliz Desdemona, é o prenuncio da ultima parte dessa symphonia grandiosa, o seu coroamento épico, genial- o amor de Julietta. Romeu e Julietta é a tragédia do amor, do amor absoluto e indomável do amor força. Nem  ophelia, nem cordelia, nem Desdemona attingem esse potencial da paixão, porque cada uma destas soberbas criações representa uma modalidade amorosa, completa e perfeita em si mesma, quando pretende representar um dos aspectos da paixão;mas o amor de julietta integra, vasando-se num magnífico e prodigioso bloco do mais esplendente mármore, o amor proteiforme, a violência dos sentidos e a ternura illimitada da alma, o goso febrecitante da matéria e a idealidade intangível das mais puras aspirações de espírito. Essa Julietta, a mais suggestiva, a mais ampla, a mais complexa e a mais humana das criações de Shakespeare é o ultimo degrau da escada luminosa das amorosas do genial poeta; e, comtudo, em cada um desses degraus de ouro há uma Julietta, porque na alma de cada uma dessas mulheres é a essência subtilidade amante de Romeu que as impulsiona a realisar parcialmente os portentosos milagres do amor, que tudo fecunda e que é a razão suprema da vida. Entremeando a sua conferencia, Bilac disse primorosamente diversos trechos das tragédias de Shakespeare, traduzidos no verso limpo e crystallino, cantante e sonoro que fazem do conferente o mais emocionante, o mais encantador dos nossos lyricos. Ao terminar a sua conferencia Bilac foi enthusiasticamente applaudido. (pág.3)

 

ANNUNCIO

 

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