Sexta-feira, 27 de maio de 1910

Estadão

27 de maio de 2010 | 00h00

 

 

MANAUS

Os possuidores de borracha reuniram-se na Associação Commercial, desta capital, e resolveram continuar a resistência aos baixistas de Londres e de Nova York. Ficou tambem deliberado compar os pequenos lotes offerecidos pelos exportadores e concentrar o stock, para ser fundada aqui a bolsa de borracha. Os referidos possuidores esperam merecer a attenção do governo federal e o seu auxilio para a valorisação da borracha(pág.2)

 

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AUSTRIA-HUNGRIA

Na Austria despertam grande interesse os negócios da Albania. As noticias recebidas em Vienna no dia 1 de meio eram muito tranquilisadoras. Todavia, não se lhes deve dar inteira fé. Todos quantos conhecem a Albania sabem perfeitamente qual é a táctica dos albanezes, que nunca combatem em campo aberto. Uma marcha para a frente das tropas turcas não tem, nesta guerra de guerrilhas e de emboscadas, a significação que se lhe poderia dar. O jornal viennense conservador e catholico “Vaterland” recommenda que se desconfie muito destas informações favoráveis: “Já se annunciou, por varias vezes, diz esse jornal, que a insurreição terminara; todavia, ainda se tornaram necessárias novas operações. É possível que uma parte dos rebeldes se tivesse resignado a submissão e tivesse proclamado fidelidade ao sultão; mas semelhantes declarações já têm sido feitas muitas vezes. Trata-se talvez de ganhar tempo.(…).(pág.1)

 

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TURQUIA

As tropas turcas continuam perseguindo os revoltosos albanezes. Já foram conduzidos para Uskub uns vinte chefes feitos prisioneiros. Toda a imprensa turca condemna em termos severos a revolta dos albanezes e incita o granvizir a não recuar perante nenhum sacrifício afim de conseguir que a Albania volte á rigorosa obediência ás leis constitucionaes. Ergue-se todavia uma voz em seu favor, é a do redactor em chefe do jornal Albanez “Liria”. Numa “interviu” com o correspondente do “Temps” em Salonica, aquelle Albanez letrado, inteligente, inteiramente europeisado, falou a favor dos seus compatriotas nos seguintes termos: Toda a gente diz mal dos albanezes por causa dos últimos acontecimentos e ninguém pensa em lastimal-os.Faz-se a seguinte pergunta: Deve-se exterminar os albanezes sob o pretexto de que não são um povo policiado? Eu não desculpo de forma alguma os actos violentos dos meus compatriotas; sou até o primeiro a censural-os por esses actos, mas em seu favor há muitas circumstancias attenuantes. Toda a gente que tem percorrido aquella região é unânime em reconhecer que aquillo é um trecho da edade media, ou antes da época prehistorica situado na Europa do século vinte. Comtudo a minha raça, por mais atrazada e por mais rude que Ella se encontre, não deixa de ser inteligente e de possuir boas disposições. Porque não se hão de aproveitar essas qualidades? Porque não hão de ser utilisados os traços aproveitáveis do caracter Albanez, para se procurar fazer delle um povo moderno…ou quase moderno? Fazei com que em vez do canhão fale a razão, visto elles serem capazes de comprehender e de obedecer, esses rudes e ferozes montanhezes! Primeiro que nada é preciso por de parte toda a desconfiança, todo e qualquer malentendido que possa haver entre esses montanhezes e as autoridades locaes, pois a incúria e a má administração que constituíam o panagio de outros tempos é que justincam essa desconfiança. Estabelecer um perfeito accordo entre as autoridades e os administrados, é essa a condição essencial.Pode-se conseguir esse resultado por inicio de boa vontade e de um bom disgnostico do mal, sendo certo que infelizmente as autoridades ainda ignoram as necessidades da Albania e o caracter dos seus habitantes. E quando um funccionario encontra qualquer opposição aos seus intentos pronuncia logo a palavra “reacção”; e como único remédio, aconselha o ferro e o fogo, sem pensar que esses meios brutaes só servem para cavar abysmos e para fazer nascer o desejo de vingança. Os dois males de que soffre a Albania são: a extrema pobreza e a profunda ignorância dos seus habitamtes. É preciso remediar esses males por meio da construcção de vias de communicação e pela criação de numerosas escolas. Tem-se falado muito em desarmar a população. É o que é preciso fazer e sem demora, mas com tacto. Como pretender desarmar antes de ter installados tribunaes e de haver criado postos militares? Sim, porque presentemente, á falta desses meios de justiça, todos tratam de fazer justiça por suas mãos! Posso resumir tudo nisto, accrescentou o jornalista Albanez: se o governo pretende fazer dos albanezes uns bons patriotas ottomanos, precisa  neste momento mostrar-se conciliador para com elles; não deve usar da força bruta senão na ultima extremidade; mas se a isso se ver obrigado deverá então mostrar-se firmemente enérgico, punir os cabeças e poupar os innocentes, ou melhor, os inconscientes. (…)(pág.1)

 

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O marechal Hermes e a germanisação no Brasil

O escriptor francez Huges Le Roux publicou recentemente um interessante artigo, em que faz largas referencias ao marechal Hermes, ao Brasil e ao falado plano allemão da germanisação dos nossos Estados do Sul. Essa referencia vieram a propósito de um livro do dr. Emilio Reich- “Germanyé swelled head” (…)Effectivamente, a vaidade nacional dos allemães se vae tornando perigosa para o resto do mundo. O grito de alarme dado pelo dr. Reich, afim de despertar os seus compatriotas inglezes, deve ser attendido tambem pela França. Entram aqui as referencias do escriptor ao marechal Hermes e ao Brasil. Por occasião da eleição presidencial brasileira, recebidas na Europa as noticias da Victoria do marechal, os jornaes allemães alegraram-se ruidosamente. Consideraram essa Victoria nada menos que como um sucesso da política e da diplomacia alleman.(…) Em seguida, diz Hugues Le Roux que, para os allemães, a germanisação do Brasil é obra feita. Não há quem desconheça a importância do tlas geográfico de Stieler, publicado em gotha, na casa Justus Perthes. Abra-se a nona edição desse atlas, a de 1909. Lá estão na centésima carta (sexta pagina do fascículo “America do Sul”) os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul convertidos em colônias allemans. Accrescentem-se a isso os projectos referentes aos Estados Unidos da America do Norte. Eis o que o dr. Reich, que por seu turno, cita um professor allemão:“A semelhança dos caracteres comcorre para a alliança germânico americana. Ao passo que as raças latinas estacionam ou retrogradam, os nossos sessenta milhões de cidadãos americanos augmentam continuamente, emquanto suas qualidades se aperfeiçoam. A raça teutônica á qual, como nós, pertencem os americanos, poderia dominar o globo, se os dois paizes andassem juntos, em vez de viverem separados. A solução mais racional para os Estados Unidos consistiria em tentar uma approximação com a Allemanha. O poder das duas esquadras combinadas excederá dentro em pouco o da marinha ingleza(…)” Fiquemos, porém, no projecto de germanisação do Brasil, do qual o marechal Hermes vae ser, como querem os allemães, o principal agente. (…)(pág3.)

 

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