Quarta-feira, 8 de junho de 1910

Estadão

08 de junho de 2010 | 00h00

 

 

GRAN-BRETANHA

A camara dos communs reuniu-se no dia 10 de maio á tarde para a leitura da mensagem real. Os deputados estavam todos de luto pesado. Reinava um silencio absoluto na sala quando o sr. Asquith se levantou. A solennidade traia um sentimento mais profundo do que a simples preocupação de ser correcto; no discurso da sessão, que foi curta e impressionante, vários deputados deixaram transparecer no rosto a sua commoção. Eis aqui a mensagem do rei:“O rei sabe que a camara dos communs toma parte na dor profunda que Sua Majestade está soffrendo pela perda de seu prezado pae. O zelo com que o rei Eduardo se occupava do bem do seu paizx cumprindo durante todo o seu reinado o seu dever publico, asua grande resistência á dor e ao perigo serão honrados por muito tempo pelos seus súbditos nestailha e além mar.” O sr. Asquithe e o sr. Balfour usaram por sua vez da palavra para pronunciar o elogio do defunto rei. O primeiro ministro relembrou as vastas capacidades políticas de Eduardo VII: “Nos negocios externos, a sua poderosa influencia pessoal applicava-se principalmente não só a evitar a guerra, como tambem a evitar as causas e pretextos de guerra; é por isso que adquiriu o titulo que de futuro conservará,- de Pacificador do mundo. No interior do império, reconhecemos todos que acima das lutas políticas, desprendido de qualquer laço de partido e tendo só em mira o interesse commum, era o arbitro experimentado, judicioso, respeitador das tradições e o guarda vigilante das nossas liberdades constitucionaes. Possuia esta forma suprema do gênio: o bom senso. Estava sempre animado do seu papel de soberano pelo pensamento de estar á frente de um organismo vasto e complexo, o império brittanico. Possuia no mais alto grau a noção do poer e dos limites de uma monarchia constitucional.” (…) (pág.1)

 

1910.06.08_Schumann_pag771

 

A 8 de junho de 1810 nascia em Zwickau(Saxe), Roberto Schumann, o suave poeta da musica que mais tarde devia ter um papel tão notável na historia da arte. Filho de um livreiro, que lhe soube comprehender as tendências artísticas, teve a principio a protecção paterna para fazer o estudo do piano. A morte do pae obrigou-o a seguir, contrariado,o curso de direito, que logo abandonou para entregar-se definitivamente em 1830 á musica. Foi então que, em Leipzig, Schumann cuidou sériamente da sua educação musical, dirigida por Wieck e Henrique Dorn. Tudo lhe vaticinava um brilhante futuro de pianista. Mas, uma louca tentativa de tornar livres os dedos da mão, causou-lhe justamente o contrario da effeito desejado e o pianista teve de dedicar-se  inteiramente á composição. Certo ganhou com isso a arte. Sem os vôos geniaes de um Beethoven, de inspiração limitada, Schumann é, contudo, um poeta de alto lyrismo, que nos deixou páginas inolvidáveis. O que lhe falta em inspiração, sobra-lhe em suavidade, em delicadeza de nuances e em originalidade de factura. Foi o desventurado compositor allemão um dos criadores da verdadeira critica musical. Os seus trabalhos neste gênero, publicados no “Neue Zeitschrift für Musik”, ficaram celebres como uma tentativa de renovação do gosto musical então subordinado aos cânones da opera italiana e das composições allemans e francezas de Czerney, Herz, Hunten, etc. Foi Schumann quem provocou a attenção do publico para as obras de Chopin e de Brahms. Na opinião dos musicistas é, sobretudo, no ‘lied” que se revela o bello temperamento lyrico de Schumann. Principalmente depois do seu casamento com Clara Wieck, filha do seu antigo mestre, o seu talento musical produziu as suas melhores criações. Fundado o Conservatorio de Leipsig, Schumann foi nesse estabelecimento um efficaz collaborador de Mendelssohn. Desde então o seu nome se tornou famoso. Infelizmente uma affecção cerebral, cujos primeiros insultos lhe appareceram em 1833, inutilizou por completo esse brilhante espírito. Num ataque de loucura o infeliz compositor chegou a atirar-se ao Rheno, em 6 de fevereiro de 1854: salvo, foi recolhido a uma casa de saúde, onde morreu dois annos depois (…) (pág.3)

 

ALLEMANHA

Um correspondente da “Gazeta de Francfort”, que percorreu o Japão, escreveu para aquelle jornal dizendo que os allemães não são alli estimados. A origem desta aversão deve procurar-se, diz elle, na intervenção alleman por occasiaão do tratado de Simonosaka. Mas a razão principal é a intimidade anglo-japoneza. Tudo o que a Inglaterra faz é para os japonezes digno de admiração; pelo contrario, é detestável tudo quandto parte dos seus adversários. O referido correspondente teve occasião de conversar com o Marquez Katsura, presidente do conselho de ministros japonez. Disse-lhe este: “Eu que sou um admirador da cultura alleman, lastimo vivamente ver que o meu paiz não é absolutamente nada germanophilo.” O marquez Katsura prometteu dar o seu apoio a idéa que teve o correspondente da “Gazeta de Francfort” de enviar a Berlim um jornalista japonez. A missão desse jornalista consistiria em fazer com que o Japão conheça a Allemanha que elle até agora só tem visto através “dos olhos inglezes”. (pág.1)

 

FRANÇA

A primeira conferencia internacional de navegação aérea, realisada no ministério dos negócios estrangeiros, presidiu o sr. Millerand. O ministro das obras publicas proferiu o seguinte discurso: “Até aqui reuniam-se os povos para assentar nas disposições internacionaes que a prodigiosa multiplicação de automóveis ainda há vinte annos praticamente desconhecidos tornava necessarias, e eis que de novo se congregam para estabelecer leis ás aeronaves. Tarefa emocionante e delicada pela própria novidade da matéria. Trabalho árduo e indispensável que exige, para ser levado a cabo, a estreita collaboração do technico, do jurisconsulto e do diplomata. No momento em que toma posse do céu, o homem sente a necessidade de ahi se impor uma disciplina e alguns preceitos. Arremessando-se na atmosphera tanto os balões livres como os dirigíveis e os vários apparelhos de aviação fizeram com que surgissem novos direitos e novos deveres, assim como responsabilidades e peigos inéditos. Juntamente com as suas “silhouettes” despontaram no horizonte as ameaças de conflictos entre interesses públicos e particulares; interesses dos navios aéreos, dos seus proprietários e do respectivo pessoal; interesses do humilde transeunte e do proprietário da terra; finalmente, interesses nacionaes dos differentes Estados. Policia e alfândega, pregados até aqui ao solo, não é sem uma certa inqueitação que vêm passar por cima das suas cabeças as astutas aeronaves. Sendo, como é impossível deitar-lhes a mão, não haverá ao menos maneira de as reconhecer. Não convirá dotal-as de uma personalidade, de um estado civil, de uma nacionalidade, impondo-lhes signaes exteriores susceptíveis de as identificar?Não se deverão, conforme se fez para os automóveis, exigir apparelhos e pilotos capazes de satisfazer certas condições elementares? Não é só na circulação dos automóveis, mas sem duvida mais ainda na navegação mar4itima que se será naturalmente levado a procurar exemplos e analogias para garantir a segurança da navegação aérea. (…) Voar não é tudo: ás vezes tambem é preciso tocar em terra. O problema que consiste em pousar offerecervos-á questões graves e complexas. O direito internacional, e até mesmo a metaphysica jurídica se ressentem dos effeitos desta revolução. (…)”(pág.1)

 

PORTUGAL

Na “noite de 18- a da anunciada passagem da terra pela cauda do cometa de Halley- choveu em Lisboa, caindo, por vezes fortes cargas de água, o que não impediu de andar muita gente pela rua, até de madrugada, no propósito de ver o cometa! A notada, a despeito da chuva, foi divertida para os que em tudo buscam pretexto de risota. Os restaurantes e tabernas tiveram enorme concorrência e para os arredores fforam inúmeras pessoas que nada viram na escuridão da noite tempestuosa… No Porto, milhares de indivíduos foram para a serra do Pilar e outros pontos, tambem sem receio da chuva, com o fim de ver o cometa. Os comboios da linha da Povea saíram da cidade cheios de trabalhadores que diziam querer morrer ao pé das famílias. Não poucas pessoad, na imminencia supposta da morte prepararam-se com os cacramentos. Em muitas villas da província houve descantes e marchas “aux-flambeaux”, em outras, sobretudo no norte, o povo metteu-se nas egrejas a rezar e a chorar. Nada houve- é sabido- de anormal; ninguém viu o cometa nessa noite; uns divertiram-se á farta, outros ficaram estarrecidos de medo agarrados aos santos da sua maior devoção e dois dias depois já ninguém falava do assumpto. Em algumas povoações do Alemtejo sentiram-se abalos de terra nas vésperas do dis 18; não tiveram, porém, conseqüências.  (pág.2)

 

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.