Quarta-feira, 15 de junho de 1910

Estadão

15 de junho de 2010 | 00h00

 

 

GRAN-BRETANHA

A idéa de uma federação europea, idea que teria sido explanada pelo imperador da Allemanha nas suas conversas com o sr. Pichon, em Buckingham Palace e em Windsor, era um dos sonhos de lord Salisbury. Era elle primeiro ministro quando, em 10 de novembro de 1877, proferiu em Manslon-House, um grande discurso em que, falando dconcerto europeu, se exprimia em termos que, decorridos já doze annos, nada perderam da sua  actualidade e são interessantes de tornar a ler hoje, em presença das declarações de Guilherme II.

“A Federação da Europa, dizia lord Salisbury, é o embryão da única combinação capaz de preservar a civilisação dos deploráveis effeitos dos desastres de uma guerra.

Notae que os instrumentos de distruição, os ajuntamentos de armas augmentam cada vez mais em toda a parte. As faculdades de concentração tornam-se de dia para dia mais poderosas, os instrumentos de morte são mais activos e mais numerosos e todas as armas se vão aperfeiçoando cada vez mais; e as nações para proverem á sua própria segurança, vêm-se todas forçadas.a entrarnessa competência. A única esperança que pod ter de evitar que essa compepetencia produza um terrível esforço de mutua destruição que seria fatal á civilisação christan, é a de que as potencias sejam levadas gradualmente a examinar juntas, com um espírito amigável, todas as questões que poderiam dividil-as, e isso até que finalmente se encontrem unidas por uma constituição internacional que graças á força de que ellas dispuzessem, daria ao mundo um longo período de prosperidade commercial e de constante paz”.

Em Inglaterra será sempre bem acolhido todo o projecto de accôrdo entre as potencias europeas que tenha por fim assegurar a manutenção da paz, com a condição, porém, de que não ponha em perigo a supremacia marítima britânica. Por conseqüência, daquelle lado do estreito não se poderia deixar de ver com sympathia o antigo pensamento de lord Salisbury repetido e calorosamente defendido por Guilherme II.Antes da Europa se pronunciar sobre a importância que convem attribuir ás palavras do imperador da Allemanha, tem de esperar que ellas tenham como conseqüência qualquer alteraçãp na política do governo allemão.(…)O “Daily Mail” lembrava, no seu numero de 24 de maio, que “generosas promessas do mesmo  gênero que as de hoje têm sido muitas vezes, ao passado, seguidas ou acompanhadas de lastimosos  incidentes. Assim, por exemplo, o effeito das delicadas affirmações feitas por Guilherme II durante a sua visita á Inglaterra em 1907, foi singularmente attenuado pela publicação quase simultânea de novo programma naval, e, neste mesmo momento, o ministro dos negócios estrangeiros allemão esta insistindo na Persia em certas exigências que são de molde a produzir algumas susceptibilidade entre a Allemanha por um lado e a Russia e a Inglaterra por outro. Os inglezes prefeririam actos a palavras. (pág.1)

 

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Quadro encommendado pela municipalidade da capital argentina ao illustre pintor hespanhol Moreno Carbonero

 

O QUE HA DE NOVO

A população do Acre- denominação genérica de toda a vasta região que comprehende os três departamentos- divide-se em duas partes distinctas: uma composta dos senhores de barracão, ou seja os serigueiros omnipotentes, feudatários da borracha que alli dominam como se a infeliz circumscripção nacional fosse dividida em baronias sujeitas ao seu império despótico, e outra constante dos míseros extractores da arvore da seringa que , tratados como escravos, não podem ter por aquelles a menor estima e só supportam a servidão, a vida degradante e penosa que lhes impõem, compellidos pela mais dura das contingências. São pois, duas classes que jamais se ligarão, e quem quizer conhecer sua verdadeira psychologia leia a obra posthuma do saudoso Euclydes da Cunha “A’margem da historia”. Alli se encontra uma fiel e completa descripção dessa misera communhão de irmãos nossos, que soffrem no labor crudelíssimo tormentos a que aos exilados da Siberia não é dado conhecer.

Pode-se, acaso, considerar  popular um movimento revolucionário que vae armar  de poder ainda mais discrecionario os senhores dos seringaes? Pode-se conceber uma alliança entre essses dois elementos que instinctivamente se repellem para instituírem uma situação em que o domínio de uns se vae ampliar e a escravidão de outros apertar-se de modo ainda mais constringente? Não, intuitivamente não.Tal é o objecto da revolução que acaba de setalar no Alto Juruá, e que não foi srepreza para quantos acompanham com imparcialidade a marcha dos acontecimentos na longínqua região.

A autonomia por que o povo acreano denotadamente pugna é uma aspiração justa. De facto não se explica a situação de abandono a que o governo federal condemnou os habitantaes da florescente região, e por esse olvido criminoso cabem-lhe graves responsabilidades. Mas uma vez que para conquistal-a, os acreanos lançam mão de recursos violentos, abandonando o caminho regular que seria a continuação de uma propaganda seria a continuação de uma propaganda tenaz e intelligente, até obterem a lei que está em elaboração no parlamento, já relatada no seio da commissão de Constituição e Justiça da Camara dos Deputados, o movimento que excluiu o regimen legal e depoz o representante do governo central no alto Juruá é inteiramente condemnavel e não merece as sympathias da nação porque essa soffreguidão denuncia intuitos bem pouco confessáveis por parte da classe dos dominadores. (…)Desejavam alguns que o Juruá, juntamente o Acre e o Purús formassem um Estado autônomo; outros, em numero maior, queriam a transformação do Juruá em um Estado, e mais ouyros preferiam o mesmo regimen actual, receiando que qualquer alteração desse em resultado o augmento de tributos necessarios a vida administrativa de um Estado. Afinal deliberou-seem assembléa dirigir uma representação ao governo passado pedindo-lhe que promovesse o desenvolvimento gradual das praticas da vida política. (…)

Infelizmente nada pode fazer neste momento o governo para manter sua autoridade conspurcada por um bando de aventureiros avidos por monopolisarem as riquezas da desventurada região, pois lá não podem chegar as forças que lhe cumpre enviar para esse fim, visto como esta é a época da baixa do rio, mas em outubro poderá facilmente coagir os rebeldes a voltarem ao regimen que é o único legal em quanto a autonomia não lhes fôr outorgada pelo poder competente.Para isto bastará impedir que elles entretenham quaesquer relações commerciaes com Manáos e Pará, cidades onde fazem todo o abastecimento de mercadorias.

Deste modo evitar-se-á o derramamento de sangue e baafar-se-á pacificamente o movimento sedicioso. S. (pág.3)

 

 

AMERICA

A travessia em aeroplano de Nova York a Philadelphia

O aviador Hamilton, que ante-hontem fez em aeroplano a travessia de Nova York a Philadelphia, partiu de Nova York ás 7 horas e 35 minutos da manhan.Ajudaram-n’o nos ulçtimos preparativos os seus camaradas Curtis e capitão Baldwin. O tempo estava esplendido. Não soprabva a menor aragem.

Immensa multidão, que se agglomerava em Governor’s island, assistiu á partida, acclamando enthusiasticamente o aviador.(…)

Chegado ao seu destino, o aeroplano descreveu uma série de circumferencias á altura de 100 metros e deixou-se descer lentamente. A enorme massa popular, que esperava a chegada de Hamilton, fez-lhe a mais calorosa ovação.

Ás 11 horas e 30 minutos partiu Hamilton de Philadelphia, de regresso a Nova York. Uma paragem do motor do seu apparelho obrigou o aviador a descer a 20 milhas de Nova York. Attribue-se essa contrariedade ao facto de não ter o aviador parado mais tempo em philadelphia, podendo então limpar e reparar, se necessário, o mecanismo. (…) (pág.3)

 

EUROPA

No parlamento inglez- Discussão sobre o Egypto

Na sessão de ante-hontem da camara dos communs, referindo-se ao discurso proferido pelo ex-presidente dos Estados Unidos, sr. Roosevelt, no Guid Hall- disse o sr. Baird que esse discurso fôra uma licção humilhante para a Inglaterra. As palavras do sr. Roosevelt vieram no momento mais opportuno, para obrigar o governo a modificar a sua política no Egypto.

Em resposta a esse orador, diz o sr. Robertson que os norte-americanos assassinaram , em cincoenta annos, três presidentes- o que entretanto, não prova que os Estados Unidos sejam uma nação mal governada. E accrescenta: “O assassinato de Boutros Pachá demonstra que ainda não fizemos bastante pelo Egypto. O regimen do terror engendra alli a hostilidade a Inglaterra. O governo continuará, porém, a applicar firmemente as leis, afim de preparar a autonomia do Egypto e levar a cabo os seus compromissos”.

O sr. Balfour elogiou calorosamente o sr. Roosevelt; e opina que a situação egypcia exige uma acção prompta e decisiva, para o restabelecimento do prestigio da Inglaterra para que os funccionarios britannicos possam realisar a sua missão, dificultada pela má orientação e falha apreciação dos egypcios.(…) (pág.3)

 

RIO

A flotilha do “Amazonas”, actualmente em Belém, teve ordem de seguir com toda a urgência para o porto de Manaus, onde ficará de promptidão, aguardando ordens do governo. Foi nomeado para commandal-a em substituição do capitão de mar e guerra, Machado Cunha, o capitão de fragata Altino Corrêa, que commanda actualçmente o scout “Bahia”. O general José Bernardino Bormann, ministro da guerra, recebeu um telegramma do coronel Pantaleão Telles, inspector da região militar, communicando os successos do Alto Juruá.

Naquella região se acha o 46º de caçadores e em Tabatinga se encontra a primeira bateria de metralhadoras, que tambem terá ordem de seguir para o Acre.

Segundo telegramma que aqui se receberam, sabe-se que o coronel Antunes de Alencar, um dos cabeças do movimento no acre, conferenciou hoje com o sr. João Cordeiro, prefeito do Alto Juruá, sobre os mesmos sucessos, nada transpirando a respeito.O coronel Antunes conferenciou ainda com outros importantes seringueiros que se encontram em Manaus.

O mesmo coronel deveria ter recebido hoje telegrammas com instrucções especiaes do governo, para que mandasse emissários de confiança ás sedes dos departamentos em Rio Branco, Serra Madureira e Cruzeiro do Sul, no sentido de restabelecer a ordem.

Os emissários deverão partir amanhan mesmo, em lancha fretadas, pelo coronel Antunes. (pág.4)

 

ANNUNCIO

 

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