Quinta-feira, 23 de junho de 1910

Estadão

23 de junho de 2010 | 00h00

 

 

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A façanha de Jacques de Lesseps – O monoplano, typo Blérot, deixa a duna de calais em demanda da outra margem do estreito. De Lesseps, cujo retrato encima a nossa gravura, atravessou a Mancha de Calais a Kingstown, em 21 de maio, das 15,25 ás 16 hrs.17, com céu careegado e vento desfavorável. (pág.3)

 

ITALIA

Por occasião do terceiro centenário da canonisação de S.Carlos Borromeu, fez o papa PIOX publicar uma encyclica exaltando a doutrina catholica, tal como foi proclamada no concilio de Trento, e os marecimentos de Carlos Borromeu que defendeu o catholicismo contra a reforma de Luthero.

Pio X compara o modernismo com o movimento lutherano. Trata-se diz elle, de uma tentativa de apostasia universal da fé e da disciplina da Egreja, apostasia que é tanto mais perigosa quanto é certo ser Ella occulta e produzir-se no proprio seio da Egreja. O papa recommenda aos pastores que conservem inviolável a fé catholica contra as opiniões perversas do modernismo. Indica os meios que é preciso adoptar, nomeadamente o ensino do catecismo. Combate a abolição da instrucção religiosa nas escolas que se dizem laicas ou neutras e aconselha a criação de escolas religiosas.

Recommenda egualmente a pregação e a pratica dos sacramentos, a disciplina e a obediência ao clero. Incita, finalmente, os bispos á acção catholica; recommenda-lhes que guardem fiidelidade e respeito para com as autoridades sempre que estas ordenarem coisas justas, mas que não se submettam ás suas prescripções quando estas forem injustas.

O papa menciona “certas nações onde, sob o falso nome de liberdade, se impõe a mais dura tyrannia”. Qualifica de funesta a conjuração que tende actualmente a arrancar as nações christans do seio da Egreja, e que constitue um methodo de luta muito mais perigoso que qualquer outro e termina dando as suas bençams. (…) (pág.1)

 

GRAN-BRETANHA

Foi proclamada no dia 31 de maio a União Sul-Africana, que é constituída pelas quatro colônias do Cabo, Transvall, Orange e Natal: acontecimento capital da história da África do Sul, acontecimento que Eduardo VII havia preparado desde o começo do seu reinado e cuja realização não chegou a ver. Quando se pensa que há apenas dez annos a guerra chegava ao seu auge e que hoje essas quatro colônias, por um desses phenomenos de adaptação em que a Gran Bretanha prima, se unem por meio de uma Constituição definitiva, não se pode negar ao espírito político em que se inspira esta solução a homenagem de uma merecida admiração.

(…)As quatro colônias unidas do Cabo, Transvaal, de Orange e de Natal têm um território quatro vezes maior que o da Inglaterra e uma população de mais de cinco milhões de habitantes, dos quaes 1.100.000 são brancos e 4.200.000 são pretos. Daqui para o futuro, o governo dessas colônias passará a ser exercido pelo rei, pelo governador geral que o representa, por um ministério ou conselho executivo, por um senado e por uma assembléa legislativa.O senado compôr-se-á de quarenta membros, dos quaes oito são nomeados pelo governador geral e oito por cada uma das quatro províncias. A camara constará de 120 membros pertencendo 51 ao Cabo, 36 ao Trasnvaal, 17 ao Natal e 17 ao Orange. O parlamento reunir-se-á no fim do anno. (…) O governador geral, lord Gladstone, é um homem deespirito liberal e ponderado, que decerto não porá entraves ao livre exercício das novas instituições.

Alguns conservadores inglezes obstinam-se em criticar este novo estado de coisas e incriminam a fraqueza do governo. Essas criticas parece que não têm grande fundamento.Não há duvida de que é um ministério bôer quem toma a direcção dos negócios da África do Sul. Mas também é certo que o estado de espírito bôer se modificou profundamente. A grande luta travada entre boers e “utlanders”, acabou já há muito tempo. A vida sul-africana de amanhan será denominada pelas questões de interesses: a costa contra o interior, os campos contra a cidade, em muito maior grau do que pelos conflictos de sentimentos. Grandes problemas se offerecem para serem resolvidos: o dos pretos, que põe em luta o Cabo, que é negrophilo, com as outras três colônias; o dos caminhos de ferro; o da legislação mineira e das medidas que é necessário tomar contra as “amalgamações” para dar confiança aos capitães estrangeiros. Mas em todas estas matérias já existe a communidade do interesse econômico, e os duellos de raça que occuparam todo o final do século passado a todos se afiguram já como coisas de outros tempos. (pág.2)

 

GRAN-BRETANHA

O secretario de Estado das colônias enviou a seguinte mensagem ao governador geral da África do Sul: “Ordena-me o rei que, por vossos intermédio, expresse ao povo da Africa do Sul, para solennisar a implantação da União, a sua radicada esperança assim como a sua funda confiança em que a nova Constituição há de ser, graças á divina providencia, benéfica para a Africa do Sul e há de fortalecer o império”.

O rei nomeou barão do reino Unido “sir” John Henry de Villers, ministro da justiça da colônia do Cabo.

Foi considerado feriado em toda a Africa do Sul o dia em que foi proclamada a União sul-africana.Para solennisar o acontecimento realisaram-se ceremonias religiosas no Cabo, em Pretoria e em Johannesburgo.O governador geral, lord Gladstone, e os membros do gabinete Botha, prestaram juramento em Pretoria. (pág.2)

 

ALLEMANHA

A “Gazeta da Allemanha do Norte”, jornal officioso, publica a seguinte nota: “ A imprensa estrangeira tem-se occupado de um artigo do “Matin” segundo o qual o imperador, numa conversa que teve em Londres com o representante do governo francez, o sr. Pichon, teria falado na criação de uma confederação européia . E’ exacto haver o imperador manifestado ao ministro francez a sua confiança na conservação da paz, e a sua firme vontade de para Ella contribuir com todo o seu poder, mas a Idea da criação de uma confederação de Estados europeus não constitui assumpto da referida conversa, e é estranha ao imperador.

O jornal “Zeit” de Vienna, commenta esta nota da seguinte forma: “O imperador Guilherme não disse nada de novo nem de interessante ao ministro francez. Já tem afirmado muitas vezes o seu amor pela paz, mas só é partidário da paz armada. Não há nada que esteja mais longe do seu pensamento do que a união dos povos europeus, a qual seria melhor a solução para o problema do desarmamento. Que não haja guerras, mas que nos conservemos armados, tal é o ponto de vista allemão. A Allemanha possue a supremacia militar em terra.

Depois da catastrophe russa nenhum rival se lhe apresenta ameaçador. Um desarmamento desembaraçaria os Estados dessa hegemonia alleman e privaria o império dessa superioridade. Depois do apparecimento dos “dreadnought”, a Allemanha vem-se tornando um adversário perigosoda Inglaterra, no mar. Desarmar, equivaleria a renunciar ás suas esperanças. A Allemanha não póde pensar nisso, sequer. Não pensamos portanto em confederação européia.(…). Dentro de uma confederação, encontrar-se-ia sem protecção, tendo de arcar com um mundo de inimigos e de rivaes. A Allemanha é demasiado forte para que consinta em desarmar. Por conseqüência, os outros Estados continuarão a proceder como Ella, até que a um delles falte o fôlego”. (…). (pág.2)

 

ALLEMANHA 

(…) O sr. Bethmann-Hollwg retirou no dia 27 de maio o projecto de lei que alterava o regimen eleitoral prussiano. Havia dias já que se percebia claramente que essa é que viria a ser a solução.

Ao apresentar o seu projecto, o primeiro ministro, fiel á sua máxima que consistia em se não ligar a nenhum partido, queria que o projecto fosse votado por uma espécie de compromisso que fosse acceitavel não só para os conservadores e para o centro, mas também par os conservadores livres e para os nacionaes liberaes.(…) A camara dos deputados pouco caso havia feito desse desejo. (…)as poucas concessões em que ella havia consentido desencadearam as violencias dos conservadores e do centro(…)O texto adoptado pela camara dos senhores constituía, segundo as proprias palavras do sr. Bethmann, o limite extremo das concessões governamentaes. Foi esse texto que a camara dos deputados rejeitou por uma grande maioria constituída pela direita e pelos catholicos.

O chefe do governo declarou immediatamente que, em vista da impossibilidade em que se encontrava de realizar o accordo dos partidos, deixava de se interessar pela continuação dos debates,. Era a retirada que, havia dias, se esperava.

É intensíssima a impressão produzida em todos os meios políticos prussianos. Os partidos atiram com as responsabilidades par cima uns dos outros. Fossem quaes fossem os seus defeitos, o certo é que a nova lei eleitoral constituía um progresso em realção ao regimen anterior.

Esse progresso tornou-se impossível. Pretendem os jornaes catholicos que os nacionaes liberaes ´e que são os responsáveis, visto haverem quer defender contra os interesses populares o caracter plutocrático do antigo suffragio. (…)Quanto aos socialistas, esses aproveitarão o choque soffrido pela reforma eleitoral, para como diz o “Vorwaerts”, triumpharem da “Impotencia política” desse parlamentop de privilegiados: “ A reforma eleitoral dos inimigos do direito de voto morreu, conclue o orgam socialista. Viva a reforma eleitoral do povo!”.

A “reforma eleitoral do povo”, no sentido que o “Vorwaerts” liga a essa expressão, ainda não está feita, nem decerto se fará tão cedo, pois que a Prussia e a própria Allemanha ainda não foram conquistadas pelos liberalismo. Claro está que a retirada do projecto não terá nenhuma conseqüência de ordem governamental. (…) os conservadores já com isso se mostram alarmados, e a “Gazeta da Cruz”, aspira “ao repouso em seguida aos mezes que decorreram de agitação estéril”. Entende esse jornal que “o suffragio existente já deu as provas e deve ser conservado”. (pág.2)

 

AUSTRIA-HUNGRIA

O imperador Francisco José partiu no dia 28 de maio para a Bósnia, acompanhado do conde de Aehrenthal, do barão de Schoenaich e do barão de Burion, ministros communs nos negócios estrangeiros, da guerra e das finanças.

A polícia exerceu vigillancia muito efectiva sobre todos os estrangeiros que chegaram á Bósnia. Expulsou sem piedade todos aquelles que não podiam dar explicação cabal da sua viagem ou exhibir documentos em ordem e completos.A policia local de Sarajevo recebeu grande reforço.Foram presos no dia 28 de maio na capital da Bósnia de quatro indivíduos chegados de Pariz e qualificados de anarchistas pela polícia franceza.Foi preso um literato russo que se dizia ser um terrorista conhecido das autoridades de Petesburgo.

Segundo a “Zeit”, os camponezes da Bosnia e da Herzegovina tencionavam entregar ao imperador um memorial relativo á questão agrária nas províncias annexadas, pedindo a liberação obrigatória dos “kmétes” ou caseiros. O imperador consentiu em receber  em 31 de maio uma deputação desses camponezes sob direcção do deputado Serkitch.

Nos últimos dois annos, os sentimentos da Bósnia mudaram muito. Em outubro de 1908, as organisações servia e musulmana protestavam solennemente contra a annexação e enviavam delegados para as capitães européas. Hoje, sérvios e musulmanos, sob a acção do governo, tornaram-se dois grandes partidos governamentaes.

Os musulmanos, receiando, talvez como grandes proprietários, que a administração punisse a sua hostilidade por meio de uma solução desvantajosa, para elles, da questão agrária, e obedecendo sem dúvida também ao fatalismo islâmico, tornaram-se súbditos leaes, Foram cumulados de favores e são a todo o instante alvo de attenções especiaes. Os seus chefes occupam os mais altos lugares. Cherif Asnantovitch foi nomeado director dos “vakufs”; Ali Bej Firdus será provavelmente presidente da Dieta bosnica.

 Os sérvios sentem que o governo lhes é favorável por emquanto e estão promptos a fazer uma demonstração de populismo perante aquelle  que na opinião delles é o único que os póde proteger contra os seus adversários, porque está acima dos partidos. Empenharam-se em provar que são tão bons súbditos como os croatas, que foram os primeiros a regosijar-se com a annexação. Elles são, como se sabe, pela autonomia da Bósnia com os musulmanos, contra os croatas que desejam a união da Croácia e da Bosnia. A viagem do imperador é uma excellente circumstancia para os sérvios que aspiram a união directa com o imperador.

Entre os croatas, os sentimentos são differentes: foram os primeiros, em 1908, a enviar uma deputação a Vienna para felicitar o soberano pela annexação; pediram então a união da Croacia á Dalmacia, tiveram grandes esperanças. Ficaram desapontados e comprehendem que o governo desconfia um pouco da sua Idea de trialismo.Teriam festejado o imperador de forma grandiosa se elle se tivesse apresentado como rei da Croacia, acompanhado, por exemplo, por uma deputação da Croacia. Tal não é o caso. O imperador vem acompanhado de ministros communs. A sua attitude parece mais favorável à Idea da autonomia dos sérvios do que à Idea do trialismo croata. É por isso que o zelo destes súbditos leaes esfriou um pouco.

Embandeiraram, mas só de vermelho e azul (Croacia), para frisar que recebem, apresar de tudo, o rei da Croacia, emquanto que os servios arvoram, ao lado das bandeiras da Bósnia, as bandeiras austríacas e húngaras, para exprimir que esta visita coloca a Bosnia nas condições das outras duas partes da monarchia. Eis como as bandeiras protestam e combatem mesmo numa ocasião de festa.(pág.2)

 

O CÃO DE EDUARDO VII

Já se sabe, pois não houve jornal que não espalhasse a sensacional novidade, que o cão favorito do rei EduardoVII figurou, como numero especial, entre o Cavallo de batalha do fallecido soberano e um grupo de monarchas europeus, nos funeraes do rei britânico.

Accrescentaram as folhas que o aspecto tristonho do pobre animal provocou na alma fria dos súbditos de sua majestade uma grande commoção e que deu ao cortejo a nota de suave melancolia que lhe havia tirado o esplendor um pouco excessivo das forças, das corporações e das embaixadas que acompanharam o corpo do saudoso monarcha.

Os jornaes de Pariz não tiveram coragem de achar ridícula a presença do cão no cortejo fúnebre; em todo o caso commentaram-ná com uma ligeira ponta de ironia. Uma coisa dessas seria na França uma verdadeira singularidade. Na França há ainda o preconceito clássico de que os animaes se dividem em animaes nobres e vulgares. O cão não é um animal nobre. A nobreza nos animaes, como nos homens, não se aufere pelas virtudes: aufere-se pelos brazões. E cão não tem brazão. Animal do brazão é o Cavallo; há cavallos, os de corrida sobretudo, que têm as suas árvores genealógicas mais cuidadosamente traçadas que muito duque e muito Marquez. Por isso, o Cavallo, é um animal nobre. Por isso e porque dá coices. Um cavalo de btalha num cortejo fúnebre não offende, pois, os preceitos francezes, mas um cão!

O cão do rei Eduardo não mereceu, porém, apenas um lugar no sequito; mereceu o que ninguém mais no mundo mereceria: mereceu um afago público e carinhoso da rainha Alexandra.

Vejam dahi, a acreditar-se no que dizem os jornaes francezes, o clamor immenso que o escândalo levantaria em frança se em vez da rainha ingleza uma rainha franceza fosse quem a tanto se aatrevesse.

Na Inglaterra um côro de enternecidos louvores cobriu o gesto simples e bom da soberana.(…)(pág.3)

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