Quarta-feira, 29 de junho de 1910

Estadão

29 de junho de 2010 | 00h00

 

 

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BUENOS AIRES – A cidade permanece ainda sob a impressão dolosa dos acontecimentos de ante-hontem no theatro Colon. Dos feridos um, o sr.Fausto Roberts, este em estado gravíssimo. Amputaram-lhe as duas pernas e provavelmente ser-lhe-á cortado um braço. As senhoras Dolores Urquiza e Audibet acham-se em estado melindrisíssimo. Outros feridos continuam em situação lisonjeira.

-Da chefatura de policia prosseguiu o interrogatório dos presos em segredo de justiça. Foram postos em liberdade muitos indivíduos, por se ter verificado a sua não responsabilidade no bárbaro attentado anrachista.

– A imprensa manifesta-se com grande minúcia a respeito dos acontecimentos, commentando-os em notas longas e enérgicas. “La Nacion”, por exemplo, pede ao governo que seja rigoroso, mas que não exorbite das suas funcções e não provoque reacções. Se o paiz não tiver leis para taes casos, solicite-as do congresso nacional. Faça-se justiça, simplesmente isso, que é o que pede o paiz. “La Prensa” aconselha o máximo rigor e censura o governo por não se ter aproveitado do estado de sítio para sanar a capital, que se alarma com o desenvolvimento do anarchismo nefasto. Pede, emfim, immediatas providencias contra os libertários. “L’Argentina”, publica um editorial solicitando justiça severa e leis preventivas, de modo a pôr o paiz a salvo dos anarchistas, destruidores do edifício social.

-O sr. Luiz Dellepiane, chefe de polícia nomeou hontem dois peritos para analysarem as pontas dos pregos, cacos de vidro, bagos de chumbo e os pedaços  do envolucro da machina infernal encontrados na platéa.

– Cerca de uma hora da madrugada de hoje foi encontrada uma bomba na porta do theatro Variedades. (…) foi levada a chefatura de polícia, afim de ser analysado. O facto propalou-se com rapidez(…) O  sr. Dellapine entrevistado, declarou não accreditar que o attentado obedecesse a um plano previamente armado por um complot anrachista. Era um acto individual, recaindo as suas suspeitas em um idividuo preso no theatro Colon.

-Os delegados junto do Congresso Pan-Americano(…) trocaram idéas a respeito da acção comjuta de todas as republicas sul-americanas no sentido de combater o anarchismo destruidor. E’ provável que a Argentina tome a iniciativa da repressão anti-libertária.

-Na sessão do senado, o sr. José Galvez, ministro do interior, defendeu o projecto Meyer Pellegrini, regulamentando as explusões e as medidas severíssimas propostas . O projecto foi approvado, começando a sua execcução desde amanhan. (pág.5)

 

FRANÇA

O sr. Cruppi, eleito presidente da esquerda radical, tomou posse no dia 7 de junho da presidência do grupo. Nessa occasião pronunciou um discurso(…): “Por mais necessária que seja a reforma eleitoral (e sou daquelles que a consideram como tal), o partido radical não se deve deixar distrair das idéas e dos princípios da política de acção que constituem a sua razão de ser e lhe valem a confiança do paiz. Entre essas idéas, existe uma a que estaes unicamente ligados; é a que ordena ao nosso partido a defesa da escola laica e impõe que se eleve, desenvolvendo-a, a sua obra educativa ao mais alto ponto de perfeição. Este é um dos princípios que não se podem alludir, como disse um dos nossos novos oradores. De resto, não nos basta defender contra todos os assaltos a laicidade da escola, a idéa da sua neutralidade absoluta, religiosa e confissional. É chegada a hora de prodigalisar á adolescência, aos jovens operários, no interesse da nação e para a sua salvaguarda moral e econômica , todos os recursos de uma apprendizagem mais bem organisada , de um ensino techinico e profissional, bastante rico para fazer triumphar a França nas lutas industriaes, bastante susceptível de se adaptar ás necessidades variadas das nossas diversas regiões.

Realisamos estas obras necessárias num largo espírito de liberdade, não convém ao partido republicano , que deu á França a liberdade de imprensa, de reunião e de associação e a liberdade syndical, procurar fazer triumphar a idéa laica por meio de actos mesquinhos e acintosos.” (…) (pág.2)

 

 

FRANÇA 2

 

A Cooperativa Feminina, de que é presidente o Sr. Jules Ferry e que foi fundada há dez annos, realisou a sua sessão annual na sede da administração municipal da sétima circumscripção de Pariz. Esta importantíssima instituição tem por fim subtrair as raparigas ao perigo da corrupção a que andam expostas na rua, proporcionando-lhes um segundo lar.

Depois dos relatórios da senhorita Kastler, secretaria-thesoureira, e da senhorita Gimier, inspectora primaria, o Sr. Jules Claretie, da Academia Franceza, pronunciou uma allocução. Eis um dos tópicos principaes dessa allocução: O Sr. Gladstone disse que o século XIX era o século XX é e será cada vez mais o século das mulheres: “Não sei se as veremos deputadas antes de serem eleitoras, mas já as vemos na literatura, nas artes e na sciencia, caminhar á frente das gerações novas. O feminismo literário triumpha e os talentos femininos são cada vez mais numerosos e brilhantes. Mas o melhor dos feminismos, ainda é o da bondade. Sudo de bom grado as poetisas que nos descrevem as paisagens ou os estados de alma; mas inclino-me com mais admiração perante essas poetisas em acção que se fazem as educadoras, as consoladoras, as mães e as irmans dos desherdados. E não falo da caridade. A caridade é muitas vezes um pretexto. Falo da simples e commovente dedicação de todos os dias, desta cooperação feminina sem ostentação que nos leva a desenvolver neste grande Pariz, onde tanta ignorância e tanta miséria ainda opprime os seres humanos, a educação, a instrucção femininas. Vós daes, minhas senhoras, penetrando nas escolas laicas, nas reuniões escolares, nas associações de antigas escolas , um exenplo excellente de feminismo pratico. Não é o feminismo cerebral e literário, é o feminismo da bondade, o feminismo do coração. E deixae-me accrescentar é puramente pela preoccupação maternal, fraternal e também social, o feminismo ideal da mulher.”(pág.2)

 

ALLEMANHA

 Foi votado no dia 7 de junho, no parlamento prussiano, por todos os deputados, com excepção apenas dos cinco socialistas que nelle têm assento, o projecto de lei augmentada a lista civil do rei da Prússia. O debate prolongou-se, apesar do accordo estabelecido anteriormenta contra os partidos burguezes. O ministro das finanças da Prúsia,  sr. de Rheinbaben, entendeu que devia proferir um longo discurso e imprimir a essa votação o caracter de uma manifestação de lealismo á coroa. (…) Com uma verdadeira avalanche de números, o misnitro traçou o quadro grandioso do seguro operário, a que elle chama a obra pessoal de Guilherme II: “As repúblicas, disse elle, não possuem nada que se lhe possa comparar.”

Por seu lado, os socialistas não foram menos prolixos, e ao monarchismo do Sr. Rheinbaben contrapuzeram elles o seu republicanismo: “Nós pedimos que o primeiro servidor do Estado seja eleito pelo povo”, declarou o Sr. Hoffmann, que foi chamado duas vezes á ordem por causa daquella declaração, que o presidente qualifica de “alta traição”.Alguns socialistas que na tribuna assistiam aos debates também não approvavam a attitude do Sr. Hoffmann, mas isso por motivos muito differentes. E’ que estavam pensando no período eleitoral e entendiam que o orador do seu partido havia commetido uma imprudência. *-*-*-*-*-*-*(…)(pág.2)

 

AUSTRIA-HUNGRIA

O imperador Francisco José chegou no dia 3 de junho, ao meio-dia, á capital da Herzegovina. Foi muito colorosa a recepção que a população da cidade fez ao soberano. A multidão era enorme em todas as ruas por onde o imperador passou (…)partiu ás cinco horas da tarde com destino á sua capital austríaca. Á sua chegada á gare de Vienna, era alli esperado (…). O burgo-mestre tinha convidado os habitantes de Vienna a embandeirar as suas casas e em todo o percurso que o imperador tinha de seguir através da cidade achavam-se postados os representantes municipaes, as autoridades escolares, as corporações de officios, as sociedades de veteranos com bandeiras e bandas de música. Vienna quiz associar-se dessa forma ás festas realisadas em Sarajevo e em Mostar e manifestar a alegria que sentia com as ovações de que o velho imperador foi alvo durante toda a sua viagem. (pág.3)

 

 

AUSTRIA-HUNGRIA 2

O imperador Francisco José chegou no dia 4 de junho a Vienna, ás 8 horas e um quarto da noite. Era esperado na estação dos caminhos de ferro pelas autoridades municipaes, a cuja frente se achava o burgomestre que lhe apresentou ás boas-vindas. O imperador, que se mostrou muito satisfeito com a viagem que acabava de fazer, e que disse encontrar-se de excellente saúde,(…)Durante todo o percurso foram-lhe feitas calorosas ovações pelas deputaçõse das diversas sociedades da capital e pela numerosa multidão que se achava postada nas ruas da passagem do cortejo.

A “Zeit” diz que lhe communicam de Sarajevo que o barão de Benko, adjunto civil do governador militar das províncias annexadas, que devia aposentar-se logo que terminasse a visita do imperador, ao conservará ainda por algum tempo no exercício do seu cargo pelo seguinte motivo: o sucessor do barão de Benke devia ser o chefe de divisão , o barão Pittner. Foi este quem, sob o ponto de vista político, formulou os pormenores da estada de Francisco José na capital bornica. Ora parece que o soberano notou que em virtude de exessivas precauções policiaes se fez com que o povo se conservasse demasiadamente afastado da sua pessoa e que dessa forma se impediram as manifestações expontaneas(…)o imperador ficou muito impressionado com a differença de acolhimento que teve em Sarajeco e em Mostar. Nesta última cidade encontrou-se litteralmente no meio do povo, e nas ruas quase que não se via um agente de polícia. Em Sarajevo o contrário. O imperador teria tornado responsável por esse facto o barão de Pittner, ter-lhe-ia manifestado o seu descontentamento não lhe dirigindo a palavra na occasião da sua partida de Sarajevo, e a continuação do barão de Benko no exercício do seu cargo equivaleria ao desvalimento do seu indigitado sucessor. (pág.3)

 

AUSTRIA-HUNGRIA 3

 O príncipe herdeiro da Turquia, Yussuf Izzeddine, e o ministro dos negócios estrangeiros da Turquia, Rifaat-pachá, deixaram Vienna no dia 8 de junho. (…) O príncipe Yussuf Izzedine foi recebido em audiência pelo imperador Francisco José e pelo archiduque herdeiro Francisco Fernando.

Rifaat-pachá teve freqüentes conversas com o conde de Aehrenthal. (…) e declarou no dia 7 de junho a um redactor do “Fremdenblatt” que levava uma magnífica impressão da  sua visita a Vienna: “As  relações da Austria-Hungria e da Turquia são excellentes, disse elle; os dois Estados têm o sincero desejo de manter a paz nos Balkans; nem a Turquia, nem a Austria pensam em expansão territorial na península; todos podem estar tranquillos, a este respeito; as grandes potencias desejam tanto como os próprios Estados balkanicos a manutenção da paz nos Balkans.” (pág.3)

 

ANNUNCIO

 

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