Quinta-feira, 30 de junho de 1910

Estadão

30 de junho de 2010 | 00h00

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COISAS DA SCIENCIA

 

O professor Reclus chamou a attenção da Academia de Medicina de Pariz sobre o emprego da tintura de iodo applicada immediatamente, e sem previa lavagem, nas feridas das mãos e dos dedos. A technica é simples. Consiste em pincelar a ferida com tintura de iodo, servindo-se de um pincel esterilisado. Deixa-se evaporar o álcool da tintura e na superfície sangrenta da ferida vê-se depositar o iodo, assignalado pela mancha escura. Cobre-se depois a ferida em algodão hydrophilo e fixa-se este por meio de atadura. No dia seguinte renova-se o curativo, que depois vae sendo espaçado, não se fazendo a reforma senão de três em três dias. Reclus insiste na inutilidade das lavagens. A tintura de iodo deve ser recentemente preparada. A applicação não é dolorosa, diz Reclus, e póde prestar serviços relevantes nos accidentes de trabalho e na cirurgia de guerra ou de urgência. Para frisar a noção de que as lavagens são inúteis, cita um doente que elle tratava pelo seu methodo e no qual foi feita uma lavagem intempestiva com água oxygenada. Houve aggravação da ferida e retardamento da cura, que só foi assegurada com a costumada promptidão pelo emprego exclusivo da tintura de iodo.

Reclus faz questão da tintura de iodo recentemente preparada, o que não é fácil de obter. Effectivamente é coisa sabida que a tintura de iodo velha se torna muito irritante e mesmo caustica pela formação do ácido iodhydrico. No entanto, há um meio muito fácil de evitar a formação desse ácido ou de o destruir,  quando já existente, é a addição de um pouco de bórax á tintura de iodo. O bórax, ou biborato de sódio, addicionado á tintura de iodo na dose de 10 a 20 por cento, destruindo o ácido iohydrico, corrige a acção irritante da tintura de iodo. Deste modo impede-se o envelhecimento da tintura de iodo. * (…)ESCULAPIO (pág.3)

 

BUENOS AIRES

Até hoje ainda não há nada de positivo sobre o attentado do theatro Colon, não tendo adiantado nada os interrogatórios a que foram submettidos os indivíduos suspeitos. A polícia, que tem guardado o máximo sigilo no inquérito, deu busca nas residências de alguns presos, apprehendendo vários documentos de importância.

A censura telegraphica tem estado muito exigente, cortando as noticias mais interessantes sobre o attentado.

Nesta capital reina absoluta tranqüilidade. Os Theatros hontem estiveram repletos, notando-se a presença de muitas senhoras.

A lei sanccionada pelo governo, tendente a cohibir os excessos do anarchismo, tem sido muito commentada, parecendo a alguns rigorosa demais e cerceadora da liberdade de pensamento. (pág.2)

 

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AMERICA

O congresso nacional da Argentina approvou ante hontem uma lei em virtude da qual é prohibida a entrada, em território argentino, de immigrantes que tenham sofrido condemnação, que estejam condemnado por delictos communs ou mereçam pena corporal; é também prohibida a entrada de anarchistas ou indivíduos que personisem o ataque a funccionários públicos e governos constitucionaes. Em virtude da mesma lei é ainda prohibido o funccionamento no paiz de toda e qualquer associação ou aggremiação de pessoas que se destinam  a propagar, prepara ou instigar actos previstos pelas leis da nação.

Os autores de attentados a dynamite serão codemnados a vinte annos de presídio e se o attentado produzir mortes o seu autor será fuzilado. Os cúmplices desses delictos soffrerão a pena de dez annos de presídio. Essa lei severíssima de segurança social fixa ainda a pena de três a seis annos de prisão para os que regressem á Republica Argentina, castiga com multa ou prisão os capitães e armados de navios que tragam anarchistas, supprime os direitos civis aos anarchistas argentinos, prohibe formação de associações destinadas a propagar idéas anarchistas, justitui a pena de morte para autores de attentados anarchistas, sejam embora mulheres ou menores. (pág.4)

 

 

OS SILVICOLAS

A propósito das recentes resoluções do governo federal em relação aos silviculas, até aqui completamente esquecidas, os deixam  injustamente conservados á margem da civilização e fora do direito, é interessante recordar um pouco, por alto, a historia das relações entre os indígenas e os brancos, desde que nestas terras aportaram os primeiros colonizadores.E’ fora de dúvida que, a princípio, nos primeiros tempos da “invasão” portugueza, os selvagens pareciam dispostos a portar-se muito bem com os intrusos, sem ciúmes e sem temores. A célebre “primeira” missa do Brasil (que por signal foi a segunda), rezou-se em presença de grandississimo numero de aborígenes, os quaes, encantados com a novidade, fraternizavam de bom grado.(…)

Dos horrores que os civilizados praticavam impunemente, estão as chronicas cheias(…)se é certo que já não há quem dê carne de índios a comer aos cães de estimação(como conta frei Bartholomeu de lãs Casas que faxiam colonos hespanhoes na América Central), é certo que ainda há muito quem considere o gentio, por esses sertões, abaixo dos próprios cães.

*Recordemos apenas , que se fez em reacção a taes barbaridades, e para isso nos sirvamos do interessantíssimo trabalho que o dr. A. M. Azevedo Pimentel acaba de publicar(…) “A introducção dos escravos africanos , desde os primeiros tempos e a natureza e qualidades dos primeiros  colonos e povoadores, em geral, excitavam a ambição delles contra a liberdade dos índios; e tornavam os primeiros colonos e povoadores suspeitos aos indígenas pelo desejo  de os reduzir á escravidão. Vendo os colonos quanto lhes custava entregar-se aos pesados trabalhos da lavoura, expostos aos raios aedentes do sol tropical, começaram a faltar á fé dos contratos feitos com os índios, querendo certamente obrigal-os a forçados trabalhos. Os jesuítas, até certo ponto, a isto se oppunham, e pela sua funcção de tutores de índios procuravam, junto dos governadores, impedir a exploração e escravização do gentio por parte dos colonos, pois eram elles os únicos intermediários de que se podiam servir os governadores sempre que havia precisão de tratar com os caciques”. (…) No Rio de Janeiro foi crescendo de dia em dia a desaffeição do povo contra os jesuítas por causa da liberdade dos índios, a quem defendiam, chegando o furor a tal ponto, nesta cidade, que incvadiram tumultuariamente o Collégio, com determinação de o arrazar.(…) Até meados do século XVII, foi essa a obra mertitoria dos jesuítas contra as tendências bárbaras dos colonos e seus descendentes. Mas a virtuosa conducta degeneou, por fim, em ambição e prepotência. De protectores, passaram a exploradores.(…) No século XVIII, tal era a situação dos jesuítas em todos os domínios portuguezes, que o Marquez de Pombal, depois de procurar refrear a ambição e o poderio delles, por varias medidas, entre as qaes o regulamento de 3 de maio de 1757, conhecido com o nome de “Directorio dos Indios”, foi, afinal, obrigado, a expulsar, e definitivamente expulsou as jesuítas dos domínios portuguezes.

*O “Directorio dos Indios” apareceu  há século e meio, e nada se fez até bem pouco tempo, no tocante á realisação das boas idéas nelle contidas, embora de mistura com muita coisa errada. A intenção que presidia á sua concepção é digna de applausos, e criava para os nossos indígenas uma situação muito mais  elevada, socialmente falando,do que a “escravidão dos israelitas”, como opinava o visconde de Porto Seguro. (…)(pág.4)

 

ANNUNCIO

 

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