Domingo, 28 de agosto de 1910

Estadão

28 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

Nietzche e a moral da força

 

Nietzche domina toda vida do pensamento contemporâneo e cria, em torno de si, toda uma literatura. O romance reproduz as suas idéas, que o theatro também aproveita; os doutrinadores christãos não se cansam de a discutir; todas as revistas trazem artigos sobre elle; é traduzido, é copiado, é explicado, é commentado…Ora isso, diz  o dr. E.Palhoriès, numa revista de philosophia, é bem  um signal do tempo e uma nova manifestação da crise da moral. Força é confessar que, se Nietzche satisfaz a nossa geração é porque elle a anteviu e reproduziu.

A única verdade cuja existência e cujo valor Nietzche reconhece é o “instincto”- e a única realidade é o “eu”.

Para o “super-homem” nada existe que lhe seja superior.

Despojar-se dos preconceitos, transpondo a barreira moral de “senhor” no meio de uma humanidade que obedece a uma moral de “escravo”. Esta Idea occupa um posto importante na philosophia nitzcheana.

Como Carlylo o Renan, Nietzche também considera a desegualdade das classes como uma lei social indispensável a todo progresso e a toda civilisação. Segundo o philosopho allemão a primeira conseqüência da exaltação do “eu, isto é, a primeira libertação, é a negação de Deus. A segunda é a renegação das hypocrisias e das fraquezas que constituem a moral tradicional.”   “Os fracos”, disse Nietzche, “são um obstáculo ao progredir da humanidade. Não os sustentemos-mas apressemos-lhes a ruína: elles não têm direito á vida.”

Postas as idéas que ahi ficam resumidas, pergunta o dr. Palhoriès: a moral de Nietzche é verdadeiramente uma moral que possa substituir, para os homens de amanhan, a moral que até agora tem guiado a consciência humana? Não, responde o próprio autor, porque ella é contraria á nossa verdadeira natureza. Para o dr. Palhoriès, Nietzche é um inhumano que prega a destruição. E para prova, o autor recorda que, assim como em estudante de Clermont se suicidou depois de ter lido Schopenhauer, em Leipzig outro estudante matou a noiva, desculpando-se como dizer: “Foi nas obras de Nietzche que encontrei uma lição de energia”. Este facto demonstra melhor do que uma longa critica philosophica, que Nietzche é em grande parte discípulo fiel de Shopenhauer.

A moral de Frederico Nietzche não é romântica, pois prescinde de toda a Idea de obrigação. E o dr. Palhoriès conclue que Nietzche, ao envez de ser um escriptor e um pensador da estatura de Pascal, não conseguiu senão ser, na escola de Schopenhauer, um semi-louco de gênio. (pág.3)

 

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ALLEMANHA

 

O discurso de Koenigsberg- O imperador Guilherme reincidente- A opinião da impresa– A“procedência divina”

 

BERLIM, 27 (D.)- O assumpto obrigado de todas as conversas continua a ser as palavras proferidas pelo imperador Guilherme no banquete que foi offerecido, ante-hontem, a noite, aos veteranos, em Koenigsberg.

Foi  esse discurso-programma o primeiro feito por sua majestade, depois dos celebres dias de novembro de 1908, quando os membros do conselho de ministros, tendo á sua frente o príncipe de Bulow, reclamaram contra a intervenção do monarcha nas questões políticas do paiz.(…)

(…)Há pontos da oração do soberano que provocaram as mais acerbas criticas, especialmente da parte da imprensa pan-germanista e democrática. O  sua majestade frisar tanto, em seu discurso, a “procedência  divina” da sua missão, produziu péssima impressão. Outros sim, a imprensa e o publico receberam mal o trecho da allocução, em que o soberano diz que vae seguindo o seu caminho, sem tomar em consideração as idéas e as opiniões que dominam no momento. Consideram os orgams pan-germanicos e democráticos que taes expressões se prestam mui facilmente a originar mal entendidos, e, além disso, o que lhes parece mais grave, fornecem matéria para agitações não só anti-dynasticas, mas até anti-monarchicas. (…)(pág.1)

 

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O ESPERANTO

 

Escreve-nos o sr. Honorio Rivereto: “Procedendeo-se a rigorosa analyse dos actos e phenomenos da actividade humana, chega-se a concluir que são diversas as criações da humanidade, destacando-se, entretanto, dentre todas, como a mais bella e engenhosa, a linguagem falada ou escripta. Qualquer seja o producto da sua actividade, indubitavelmente pertence á espécie indicada.

A linguagem representa a somma de esforços empregados pelo homem para explicar pela palavra ou pela Penna tudo que se lhe depara no universo.

A criação da já tão celebre língua inventada pelo digno philologo Zamenhof – O Esperanto- é,  não há duvida, um esforço humano sem egual, pois, tempor fim reunir todos os povos num laço fraternal devendo por isso, ser de obrigação de todos, estudar e auxiliar a propaganda do Esperanto.

De certo tempo e esta parte, o Esperanto tem tomado uma posição saliente em todos os paizes. Entre nós a propaganda tem sido feita com galhardia e progresso. (…)(pág.3)

 

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