Terça-feira, 27 de setembro de 1910

Estadão

27 de setembro de 2010 | 00h00

  

 

 

Nas prisões russas

 

 

Há alguns mezes os jornaes allemães, inglezes e russos deram á publicidade graves accusações contra o governo russo, a propósito das condições das prisões do império. O príncipe Kropatkine, apoiando esses ataques, pintou com cores tão vivas os tormentos dos prisioneiros russos e se valeu de documentos tão graves, que o governo do sr. Stolypini, de ordinário muito indifferente aos commentarios dos jornaes estrangeiros, precisou acalmar a emoção e o horror que aquellas noticias provocaram. Então o jornal officiosos “Rossia” procurou desmentir que as condições das prisões russas fossem aquellas. Mas no desmentido da “Rossia” ninguém acreditou, e muitos jornaes provaram a sua falsidade. E entre outros, o autorisado “Rusky Vedemosti” publicou nos seus números de 1 e a3 de abril do corrente anno, factos impressionantes, comprovados e documentados. (…)

Os forçados políticos são em grande parte soldados que tomaram parte nos movimentos de 1905-1906, ou transgrediram as leis militares, ou são antigos memebros dos partidos políticos mais avançados. Não são revolucionários, mas cidadãos pacíficos, inimigos de toda violência, que nos parlamentos europeus não estariam entre os socialistas, alguns nem  mesmo entre os radicaes. Na Rússia, porém, basta que se encontre em casa um opúsculo socialista para que o morador seja considerado pertencente ao partido; preso com outros milhares de revolucionários, e todos enviados sem processo para a Sibéria ou encerrados nas prisões. E aqui começam os horrores. O novo director da prisão, – Gudima,- escreve um forçado da prisão de Wladimir,- foi nomeado em abril de 1909, começando logo a applicar muitos castigosvexatórios, não previstos pelo regulamento e até em contradição com elle. E só porque vários forçados lhe reclamaram contra essas violações regulamentares, cada um delles teve vinte e cinco vergastadas por castigo. Depois começou o regimen das cellulas de rigor”. Estas cellulas, chamadas “camaras de morte”, não têm cadeiras, nem mesa, nem leito: durante o dia é prohibido deitar-se sobre o chão, e durante a noite é prohibido levantar-se delle.

(…) Comparadascom as galés de Tobolsk as prisões de Wladimir são um paraízo; Tobolsk é um sepulchro de vivos, é um antro infernal que nem Dante imaginaria. São três edifícios, separados por altas muralhas e guardados por sentinellas ferozes. Um desses edifícios, muito comprido tem um longo corredor, para o qual abrem as portas dos dormitórios. O chão é terra nua, poeirenta quando não lamacenta. Os dormitórios de uma janella recebem 19 prisioneiros, os de duas janellas 25, ou 30 e até 45.(…)

Assim, não devem espantar as freqüentes tentativas de suicídio: de uma vez cinco e de outra  vez doze prisioneiros tentaram um suicídio collectivo, abrindo-se as veias. (…) E o diretor, quando soube do facto, mandou que se vergassem os miseráveis que haviam procurado a morte como único allivio ao seu soffrimento.

(…) Nas prisões russas há os accusados, os detidos, os condemnados e os “morituri”. Estes últimos são isolados dos outros tanto quanto possível. (…) Como ás vezes são muitos os condemnados á morte, não é possível o seu isolamento absoluto: e então, os outros condemnados os vêm durante o passeio ou quando, de noite, seguem para o patíbulo. Os “morituri” esperam semanas e mezes o seu ultimo dia, e sempre na incerteza. Os primeiros martyres da revolução russa tinham uma aureola de gloria: hoje são muitos e a longa espera os extenua completamente.

Wladimir Korolenko, citando varias cartas de condemnados á morte, diz que nos primeiros dias elles, com muita indifferença, escrevem que a Idea da morte não os perturba. Passado algum tempo, começam a tornar-se mais agitados: “Estou em uma incerteza torturante. Já há dois mezes me condemnaram á morte, e até agora não me executaram. Quererão que se soffra todas as noites os horrores da agonia? E’ terrível. Façam de mim seja o que for!…mas logo!” E são freqüentes os casos de loucura ou suicídio de condemnados á morte.(…)

Há alguns annos ainda as execuções capitães commoviam o público e os juízes. Mas como começaram aser numerosíssimas o público e os juízes foram ficando enervados. E hoje, para evitar inúteis perdas de tempo, supprimem-se muitas formalidades inúteis, de sorte que as condemnações são promptas e os pobres miseráveis vão para as prisões do império ou para a Siberia curtir horrores sem nome, vergonha da nossa civilisação. (pág.5)

 

 

 EXTERIOR :

 

SERVIÇO ESPECIAL do “ESTADO” e da Agencia Havas

 

INGLATERRA

 

O “A.B.C.” e os Estados Unidos

 

LONDRES, 26 (D.)- O “Observer” publica um artigo relativo á situação da America do Sul e às relações das republicas latinas com os Estados Unidos da America do Norte.

O articulista chega á conclusão de que não é provável que a Republica norte-americana não conseguirá realisar o seu plano de apoderar-se e dominar o resto do continente.

O “Observer” attribue grande importância aos boatos da alliança sul-americana, concretisada na fórmula do “A. B. C.”, a qual realisa o presagio de uma união mais estreita entre todas as republicas sul-americanas.

O articulista é de opinião que o México também deve cooperar para obstar os avanços dos anglo-saxões á America do Sul. (pág.2)

 

 

 

INGLATERRA

 

O desenvolvimento industrial do Brasil

 

LONDRES, 26 (D.)- O “Financial Times” occupa-se, em longo editorial, do desenvolvimento industrial do Brasil, dizendo que elle é uma prova da efficacia das tarifas proteccionistas e de animação ás industrias.

Diz aquelle jornal ser muito provável que, brevemente, as manufacturas européas encontrem grande difficuldade para encontrara collocação nos mercados brasileiros. (pág.2)

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