Sabbado, 14 de janeiro de 1911

Estadão

14 de janeiro de 2011 | 00h00

 

A ponte provisória sobre o Rio Uruguay ligando o Estado do Rio Grande do Sul (no primeiro plano) com o de Santa Catharina (no segundo). A’ esquerda desemboca o Rio do Paixe que separava os Estados do Paraná e de Santa Catharina, antes da recente sentença do Supremo Tribunal Federal. Por essa sentença, toda a zona que se divisa no terceiro plano ficou pertencendo a Santa Catharina. A ponte provisória, notável obra d’arte do engeneheiro Achilles Stenghel, foi inaugurada a 17 de dezembro de 1910 após setenta dias de trabalho.

 

 

 

 

O AEROPLANO NO FUTURO

 

Em um interessante artigo sobre a aviação publicado em uma revista européa, o aviador Graham White se declara convencido de quedentro de dez annos o aeroplano se tornará um meio de transporte de uso commum. Andar-se-á em aeroplano como hoje se viaja em automóvel.(…)

(…)Graham White affirma que a aviação está hoje apenas na sua infancia. Não se pode dizer que o homem já tenha conquistado os ares. E’ que, além de conhecermos muito pouco o regimen das correntes aéreas, muitas são ainda s difficuldades a vencer, aprincipal das quaes é a construcção de um motor perfeito.

Depois será preciso resolver o difícil problema da propriedade do ar.

White está convencido de que os progressos da aviação porão termo à guerra, pois já hoje um hábil aviador pode facilmente lançar projecteis explosivos sobre um navio de guerra.

Referindo-se à notica de que na Allemanha se construíram conhões destinados a bombardear os aeroplanos inimigos, diz White não acreditar muito na efficacia dessas armas. Onde encontraremos, pergunta elle, um atirador que possa ferir um alvo que se desloca, em uma altura de quatrocentos metros, com uma velocidade de 150 kilometros por hora?

E em breve os aeroplanos não só attingirão, mais ainda excederão essa velocidade. Dentro de poucos annos, segunda affirma o aviador, teremos aeroplanos que percorrerão 300 kilometros por hora.

Curiosos aspecto dos couraçados norte-americanos- Ao centro o grande mastro de barras de aço que tornam inconfundível os navios da grande Republica.

 

 

 

 

FRANÇA

A política franceza em Marrocos e a collaboração do Maghzen- Importantíssimo discurso do sr. Pichon- O contrabando de armas- Os accordos com a Hespanha- Perguntas á Allemanha

PARIZ, 13 (D.)- O sr. Stephen Pichon, ministro das relações exteriores, pronunciou hontem na camara dos deputados um importantíssimo discurso tratando da política franceza. O illustre titular, que orou longamente, declarou que no correr do ultimo anno, com a sua acção efficaz no império africano, colheu os melhores resultados, sem comprometter a egualdade de tratamento das potencias. O governo francez fundou escolas e dispensários gratuitos em varias cidades e criou o Hospital de Tanger, com a collaboração valiosa do Maghzen, ficando, desta maneira, todos esses estabelecimentos garantidos contra a explosão do fanatismo religiosos.

Em sua brilhante peroração, disse o sr. Pichon:

“Os accordos que celebramos com a Hespanha foram executados lealmente e são a garantia da paz alli.

Exercendo com sentido pacificador e civilizador os seus direitos, a França e a Hespanha asseguram em Marrocos uma situação recíproca, preparando resultados que não podem causar apprehensões a potencia alguma. Recebemos o mandato que exercemos em toda a sua plenitude, de evitar o contrabando de armas. Para cumpril-o enviamos par as ilhas Chafarinas o cruzador “Du Chayia”, cujo commandante foi muito bem recebido pelas autoridades marroquinas.

Pergunte-se à Allemanha:

1º- se fomos nós que quizemos apoderarmo-nos illicitamnte do porto;

2º- se não foi para velar pelo interesse de todas as potencias que evitamos o contrabando de armas;

3º- se não foi obrigados pela necessidade que slcamos as águas marroquinas, para poder praticar os accordos com inteira sinceridade, sem querer sair do texto nem do espírito dos tratados.

Estamos de accordo com o Maghzen econtinuaremos a sua obra fecunda de resultados felizes.”

Este discurso foi muito applaudido, tendo sido commentado em todas as rodas.

 

CARTAS DA FRANCEZAS

A política italiana e a França- Um discurso do ministro italiano dos negócios estrangeiros- O nacionalismo italiano e o seu primeiro congresso em Florença- O despertar da consciência latina

(…) Accentua-se, de alguns mezes para cá, um “nacionalismo” italiano, phenomeno demasiado novo, assas complexo mas extremamente interessante; não o poderíamos deixar passar despercebido na França, e nos outros paizes latinos da Europa e da America. Dá-se em França o nome de nacionalista a um partido político, herdeiro mais ou menos directo do antigo “boulangismo” e, hoje, acantoado na opposição.

Na Itália essa mesma palavra tem uma significação inteiramente diversa: significa o estado de espírito dos que reivindicam para a sua pátria uma maior independência política, econômica e intellectual. Há nesse nacionalismo italiano alguma coisa disso a que os senhores, no Brasil, chamam o “jacobinismo”, o que é uma razão a mais porque a evolução de cá seja como a dos cidadãos brasileiros.

O nacionalismo italiano foi, a principio, literário. “Fizemos a Italia, dizia Azeglio alguns dias depois das victorias libertadoras; resta agora fazermos os italianos.” (…)

Esse nacionalismo já é mais do que uma opinião literária? Seria prematuro affirmal-o; mas já é um symptoma importante a simples florescência dessa literatura nos pontos mais diversos da Italia e, sobretudo, o acolhimento caloroso que encontra em toda a mocidade intellectual. Ainda se lhe não traçou um programma de acção e, provavelmente, para traçal-o, grandes seriam as difficuldades pois os “nacionalistas” vêm, mais ou menos, de tdodos os ângulos da opinião e estão mais de accordo sobre aquillo que não querem do que sobre aquillo que, juntos, poderiam fazer. Não formam, estão longe disso, um partido, mas a popularidade que desfrutam está indicando que pensam como muitos dos seus concidadãos.

Semelhantes aos apóstolos do “Risorgimento”, commungam todos de um mesmo ódio implacável pela Austria.O governo do Marquez de San Giuliano não tem sobre isso a mínima illusão e, apesar de será Austria sua alliada, trata de fortificar a fronteira norte-oriental como se fosse, hoje, a única que está , verdadeiramente, ameaçada; a alliança austro-italiana é das que se destinam antes a prevenir conflictos entre vizinhos do que a associal-os cordialmente para uma obra commum. (…)

(…)Dirão os nacionalistas mais francos que essa fronteira é mal feita e deixa fora da Italia districtos povoados pelos nossos irmãos “irredenti”. Os escriptores nacionalistas nunca têm palavras de censura para os usbditos de Francisco José que, em Trento ou em Trieste, demonstram, por manifestações inequívocas, que desejam Passatr para o domínio de outro soberano.

Ahi está a grande contradição da tríplice alliança, combinação exclusivamente diplomática que não leva em conta antipathias nacionaes perfeitamente caracterizadas.(…)

(…)E’ essa provavelmente a grande lição destes começos do nacionalismo italiano e do congresso de Florença. Uma consciência latina desperta; indícios concordes fazem-na apparecer na Italia e na França também. Os moços de hoje são bem differentes dos de há 20 annos: não accreditam mais na magia das palavras, cultivam os sports e não pensam mais que a força é “sempre” maléfica.

Tanto em diplomacia como em legislação social parece que está próximo do seu fim o tempo dos palradores e dos politiqueiros.

Bordeaux, 8 de dezembro de 1910.

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