Domingo, 22 de janeiro de 1911

Estadão

22 de janeiro de 2011 | 00h00

 

A nossa estampa reproduz o lugar, á margem do Rio Pardo, em S.José do Rio Pardo, onde o nosso saudosos collaborador Euclydes da Cunha passou longos mezes, a fizcalisar e dirigir a reconstrucção da ponte sobre aquelle rio. Na casinha de zinco, que se vê á direita, foram escriptas muitas e muitas paginas do notável livro “Os Sertões”. O povo de S.José do Rio Pardo e a camara municipal conservam com carinhoso cuidado aquelle trecho da cidade, tal como o deixou o garnde escriptor.

O nobre procedimento daquelle povo e das suas autoridades, prova bem eloqüente da sua cultura e do seu civismo, dá-nos a certeza de que em breve será erigida naquelle local a herma de Euclydes da Cunha ou outro monumento que lembre a permanência do infeliz membro da Academia Brasileira naquella cidade, ligada para sempre à história do seu incompatível livro.

 

 

 

 

Os progressos do despotismo

Uma das maiores illusões em que acredita inconscientemente a nossa época positiva, é de ter feito desaparecer até a recordação dos despotismos antigos e de viver em pleno regimen de liberdade.

Sem duvida, se por liberdade entendermos sómente a que as leis nos concedem, ella não falta. Mas, se por liberdade entendermos também aquella que nos deveria ser concedida pela educação política e pelos hábitos sociaes, ella ficou limitada em tão estreitos limites que nós não podemos quase mais vê-la.

Todos ou quase todods os partidos são animados por uma idêntica tendencia à tyrannia. (…) Exemplos muito recentes nos provam que partidos também entre elles affins (socialistas e republicanos, socialistas antgo stylo e syndicalistas) estão materializados num recíproco ódio, tanto mais profundo quanto mais é fraternal. Por meio desse ódio elles tendem a subjugar o adversário para ficarem senhores do campo para exercer sua tyrannia. O espírito despótico que agitou durante algum tempo a psychologia individual dos soberanos, agita hoje a psychologia collectiva dos partidos, sobretudo dos partidos extremos.

(…)Querem que seu filiado seja em sua mão , se se atreve ter um lampejo de independência, o excommungam. Se, por exemplo, um operário ousa acceitar trabalho durante uma greve, boycottam-n’o.

Esta é a liberdade interna dos partidos. Quanto á liberdade em relação aos adversários, sabemos como ella é respeitada com as tentativas de greve geral dos sercviços públicos e com a sabotagem. (…) Exercita-se, isto é, sob o mentiroso nome de liberdade política, a mais perigosa das chantagens, o mais grave dos despotismos.(…)

Nos paizes latinos a vida política dos últimos annos pode ser resumida nestes dois factos contradictorios: de um lado, batalhas verbaes, durante as quaes todos os oradores de todos os partidos proclamam o ódio ao despotismo e o amor à liberdade; do outro lado, batalhas effectivas, por meio das quaes cada classe e partido tende a exercer a tyrannia e fazel-a supportar aos outros.

Achamo-nos no estado psychologico da revolução franceza (quando mesmo em nome da liberdade, se exercia a tyrannia) com esta diferença: que há menos grandeza, menos sinceridade e falta, sobretudo, no fundo, o lúgubre perfil da guilhotina. A uma época medíocre, medíocres perigosos. (…)

Gustavo Le Bom, num seu livro há pouco publicado (“La psycologie politique”), livro um pouco unilateral e confuso, mas que é uma mina de idéas geniaes, analysa mesmo o paradoxo social dos “progressos do despotismo”, e entre as muitas causas do phenomeno, apresenta uma que me parece, sobre as outras, muito justa. Por que- diz elle- permittimos que cresçam em torno de nós tantas tyrannias que uerem substituir-se á autoridade do Estado? Porq que há hoje potencias formidáveis que podem, numa mesma nação, medir-se com o governo, ditar-lhe as condições da capitulação, impor-se a elle e a todo o paiz? Porque a palavra de um demagogo, ouvida e obedecida como um evangelho por uma multidão insconsciente, pode, subitamente, paralysar um serviço publico, parar a vida de uma cidade, cortar as communicações entre províncias, dar a um povo inteiro a sensação de uma syncope, que parece  com a sensação de morte?

Porque- responde Le bom- há um fantasma que domina apolítica e é o medo. Os homens do governo, salvo raras excepções, vêm em toda parte esse fantasma. E tal visão faz dos seus actos uma cadêa de concessões diante de um perigo que se mente, a sua fantasia engrandece.

Uma primeira fraqueza arrasta as outras, e dá aos adversários a consciência de uma força que elles mesmos não tinham a certeza de possuir.(…)

(…) O que falta na nossa vida política é a exacta avaliação dos valores moraes. Nós acreditamos na força do dinheiro: mas não temos sufficiente confiança na força moral. A multidão e a riqueza, eis as duas divindades diante das quaes tudo se explica. A energia individual é hoje, em política, uma divindade sem altares.

Pelo contrario, onde esta energia apparece faz curvar diante de si, mais do que qualquer outra, as multidões. (…)

INGLATERRA

Os acontecimentos do Rio- Commentarios do “Economist”

LONDRES, 21 (D.)- O “Economist”, baseando-se em noticias do Rio, commenta os últimos acontecimentos havidos na ilha das Cobras, insinuando ser inverosimel a versão official de que quarenta e cinco marinheiros revoltosos falleceram simultaneamente de insolação e dezoito accidentalmente asphyxiados.

Accrescenta que a rigorosa censura estabelecida pelo governo do Brasil desde o começo da revolta o impossibilita de conhecer pormenores sobre esse como sobre outros factos garves occorridos recentemente em vários pontos do paiz.

Termina dizendo parecer ser muito seria a situação no Estado do Rio, por ter o governo federal exorbitado de suas funcções, intervindo na vida íntima daquelle Estado.

FRANÇA

A presidência do Banco do Brasil

PARIZ, 21 (H.)- O “Figaro”, “L’Action” e “Le Temps” publicam telegrammas do Rio de Janeiro noticiando que o sr. Hermes da Fonseca convidou o sr. Nilo Peçanha para presidente do Banco do Brasil.

N.da R.- Por este despacho vê-se confirmada a noticia que o nosso correspondente do Rio, há mais de um mez , transmitiu ao “Estado” dizendo que o sr. Nilo Peçanha reclamára do marechal Hermes da Fonseca, no dia da sua posse, a presidência daquelle instituto, pretextando ser um homem pobre e que necessitava daquelle emprego.

FRANÇA

A Inglaterra e a Russia na Persia

PARIZ, 21 (H.)- O ministro da Persia declarou a um redactor do “Matin” que os persas se mostram dolorosamnete estupefactos ouvindo em toda a parte falar-se da partilha da Persia.

No documento que o ministro da Inglaterra entregou ao ministro das relações exteriores da Persia em 5 de setembro de 1907, depois do famoso accordo anglo-russo, a Inglaterra se comprometeu a respeitar inteiramente a independência dos persas.

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