Sabbado, 28 de janeiro de 1911

Estadão

28 de janeiro de 2011 | 00h00

 

OS ANARCHISTAS EM LONDRES

O crime de Houndsditch e a “batalha” de Mile End

(…) Uma única coisa está provada de forma a não permittir dúvida, e é que o crime de Houndsditch , assim como o attentado occorrido há dezoito mezes em Tottenham, não são crimes vulgares commettidos por bandidos ordinários. Em ambos os casos temos attentados anrachistas typicos. Tanto em Tottenham como em Houndsditch, trata-se das “ desapropriações” como na gíria do anarchista russo se desigua o roubo praticado por ordens das associações secretas. E’ evidente que o movimento anarchistas revolucionários dirigido pelos terroristas russos, está multiplicando as suas sucursaes por todas as partes do globo; os propagandistas desse credo revolucionário vão espalhando as suas idéas pela diffussão da literatura incendiaria, que as associações secretas fazem circular entre as classes operarias e ao mesmo tempo empregam o roubo como meio de levantar fundos para o custeio do movimento. Em Houndsditch o plano era penetrar na ourivessaria e arrombar os cofres fortes, em que o ourives judeu guardava jóias avalizadas em milhões de libras. No caso de Tottenham, o dinheiro que se achava em poder do empregado do banco foi roubado e o autor do crime conseguiu evadir-se com a sua presa. A policia julga também, que um audaciosos roubo, que há pouco tempo occorreu em banco na Escossia , foi uma dessas “desapropriações” anarchistas.

A tragédia de Houndsditch veiu chamar a attenção do publico para o problema policial e jurídico criado pela revivescencia da actividade terrorista dos anarchistas. Uma das questões surgidas a este propósito é a da conveniência de armar a policia com revolvers, como alliás se pratica em todos os outros paízes do mundo. As autoridades policiaes, poré,m, oppôem-se á Idea de fornecer armamento aos “constables”, julgando que isto daria á força policial um caracter militar contrario às origens históricas e á organização essencialmente civil e jurídica da policia britânica. (…)

O tiroteio de Houndstrich veiu, porém, revelar à pólica londrina abysmos da natureza humana, que ella te então desconhecia. Em outras terras, sob outros climas, nasciam homens capazes de replicar a uma intimidação, feita em nome do rei da Inglaterra, com a detonação das pistolas automáticas. E’ perante o desabar da concepção que tinham herdado sobre as funcções da policia cívica as autoridades, e com ellas toda a força policial de Londres, ficaram tomadas de um pânico desordenado.

Os autores do crime de Houndsditch e os seus cúmplices assumiram as proporções extraordinárias de seres sobrehumanos. Na sua habitual deficiência de precisão geographica, a opinião ingleza hesitava sobre o paiz de origem daquelles monstros perigosos, que tinham quebrado o silencio de uma noite da City com o espoucar da sua irreverente fuzilaria. Eram russos , lithuanios, polacos, finlandezes, e varias outras nacionalidades, collocadas á sombra do throno do czar, iam sendo sucessivamente honrados com o monopólio da producção daquellas criaturas anormaes.Representantes das diversas raças accusadas vieram a publico affirmar que o seu povo era manso e incapaz de commetter os excessos sanguinários que se lhe attribuiam. Perdido no meio dessa confusão de raças, o inglez adoptou o alvitre com que nos casos extremos costuma completar a sua vaga noção do mundo ultramarino; e aos fantasmas temíveis de Houndsditch foi applicado o mais terrível vocábulo da língua ingleza: “alien” , o estrangeiro.

O QUE HÁ DE NOVO

A Câmara em sobressalto- Como foi recebida a noticia do sitio- A attitude da minoria- O aspecto do cães Pharoux- Granadas mortíferas- O edifício em perigo- A prudência do sr. Sabino Barroso- O sr. Jesuíno Cardoso portador de um estilhaço á mesa.

A’ 1 hora da tarde, nesse dia, o recinto da Câmara estava apinhado, e todos quantos, por obrigação ou curiosidade, haviam occorrido ao edifício, situado na zona mais exposta aos perigos do tremendo bombardeio que durava desde a madrugada, tinham a physionomia transtornada pelo pavor. (…)

A notícia do sítio, então em andamento no Senado, mais augmentava as apprehensões. A repugnância pela medida ganhava terreno. Os adversários da situação, que encontravam na lei a única de suas garantias, porque nunca saíram della para exercer o diereito de combater os actos do governo, desconhecendo outras razões além daquella que alli se expunha aos olhos da população inteira, acreditavam que o governo não pedia tal providencia senão para opprimir e perseguir.

A minoria tinha fundamento, para acreditar que à sombra do sitio o governo encontraria meios para conseguir os orçamentos, para entregar o Estado do Rio ao sr. Nilo Peçanha, para burlar as decisões do poder judiciário, para realizar a projectada violência contra o Conselho Municipal da cidade e exercer actos de vingança contra adversários que não se rendem.(…)

Nenhum outro dia fôra jamais, como aquelle, tão cheio de emoções na vida contemporânea da cidade. Rebentavam granadas em todos os ângulos da praça, e das janellas escancaradas do vetusto edifício contemplava-se, mesmo sem o querer porque ellas dominam todo o vasto jardim, a Bahia, o poço onde ancora a esquadra e a ilha das Cobras, o espectaculo impressionante e horrível que se desenrolava. (…)

Das janellas do segundo pavimento do edifício, onde ficam as salas das commissões, viam-se as balas rebentando na ilha das Cobras, levantando grandes nuvens de poeira. Também se vaim claramente, para vergonha nossa, duas bandeiras barncas reclamando trégoas que se não concediam aos rebeldes inteiramente aniquilados áquella hora.

O sr. Estacio Coimbra, com a sua voz vigorosa e firme, lia de pé no estrado da mesa, a mensagem em que o marechal Hermes, relatando succintamente as occorrencias iniciadas a noite passada, observava não ser possível esconder “que esse facto, seguindo-se tão de perto aos acontecimentos de 22 de novembro, era o resultado de um trabalho cosntante e impatriotico que tem lançado a anarchia e a indisciplina nos espíritos, especialmente nos elementos menos cultos e , por isso mais susceptíveis de fáceis suggestões.”

Ahi estava uma allusão clara, corporificando as versões infantis, que tinham curso nas rodas de hermistas extremados, de que em todo aquelle movimento andava a inspiração de chefes civilistas cujos nomes se murmuravam como uma recommendação á policia para o inquerito que fatalmente se instauraria para a pesquisa de  elementos da conspiração contra o governo… (…)

 ALLEMANHA

A nova peça de Strauss

BERLIM, 27 (D.)- Communicam de Dresde que a nova ópera de Ricardo Strauss- “O cavaleiro  das Rosas” graças aos scenarios deslumbrantes e à irreprehensível execução dada às suas partes pelos principaes cantores assim como pela orchestra e coros, obteve bastante applausos.

A opinião, porém, dos críticos de nomeada não é uniforme quanto ao valor musical do novo trabalho do autor de “Salomé”.

ESTADOS UNIDOS

A navegação para a America do SUL- Discurso do dr. Eliha Root

WASHINGTON, 27 (D.)- Na sessão de hontem do senado o sr. Eliha Root proferiu um discurso em favor  do projecto que confere uma subvenção aos vapores que fazem o serviço da America do Sul. O orador insistia na necessidade de desenvolver a marinha mercante norte-americana, adoptando medidas destinadas a conter o contínuo e pacífico avanço do Japão.

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