A força da 'Passione'

danielpiza

24 de setembro de 2010 | 09h36

Depois de um começo ameno, apostando nas paisagens toscanas, a novela Passione esquentou e passou a justificar seu nome. Em comparação com outras que investiam na conversa fiada ao som de MPB ou nas campanhas politicamente corretas, a atual novela das nove é o que o gênero pede: um folhetim melodramático no qual o público se projeta e tenta influir, revelando muitos valores em conflito no Brasil de hoje. Todas as novelas mais lembradas, como Roque Santeiro e Vale Tudo, foram assim. Passione não está nesse patamar, mas tem personagens e atores muito mais interessantes do que suas antecessoras.

Começo pelas ressalvas. É certo que o brasileiro é barraqueiro e emotivo, só não precisa forçar tanto: há uma troca de insultos e choros a cada bloco! As “adaptações” do italiano também incomodam: na mesma frase o personagem usa um termo em português que não teve tempo de conhecer e um termo em italiano que basta uma semana no Brasil para saber sua tradução; isso para não falar do excesso de bordões que não são assim comuns na Itália. O merchandising chegou a tal ponto que a empresa da ficção existe na realidade; e os penteados, vestidos e móveis também são pensados para gerar negócios. Acima de tudo, como as novelas ficariam melhores com a metade dos capítulos! Situações se arrastam e improvisos são mal feitos – como um personagem, Antero (Leonardo Villar), que de repente vira italiano, Giovanni – porque a novela dura nove meses e as pesquisas levam a mudanças.

Há, porém, muitos pontos fortes. O principal é o de colocar uma paixão ou tara ou obsessão em cada um dos personagens: a madame que caça garotões (Maitê Proença), o bonitão da ZL que quer vingar o pai (Reynaldo Giannechini), o jovem rico drogado (Cauã Reymond), a velha exploradora de meninas (Daisy Lucidi), a gata golpista (Mariana Ximenes), o já cansativo segredo de Gerson (Marcelo Antony). Isso os torna planos, rasos, mas cabe aos bons atores levá-los além dos estereótipos e gerar discussões. E bons atores não faltam, ao contrário do que ocorria em Viver a Vida, e em especial na velha geração: Fernanda Montenegro, Cleide Yáconis, Irene Ravache, Tony Ramos (mais uma vez roubando as cenas, apesar do desprezo que os “especialistas” lhe devotam).

Como sempre em Silvio de Abreu, a parte cômica se destaca, sobretudo o caso da bigamia (Bruno Gagliasso com Gabriela Duarte e a talentosíssima Leandra Leal, agora mais bonita), mas as brigas pelo poder na empresa da família também têm algumas boas cenas. Novelas, como times de futebol, fazem as pessoas torcer e, com isso, modificar a narrativa. Clara ficará “do bem” depois de perder Totó e assumir a irmã Kelly? Ou Totó ficará com a aguada Felícia (Larissa Maciel) e esta mostrará um lado menos “certinho”? Balzac e Jane Austen fariam maravilhas com esses temas, mas uma novela é uma novela e milhões assistem. Por menos tempo e paciência que você tenha, não pode lhe negar o poder de sedução. Punto i basta.