Almodóvar trans

danielpiza

11 de novembro de 2011 | 13h42

Almodóvar é um dos poucos cineastas atuais que veem sua arte como convergência das outras – teatro, pintura, música – e com isso sabe que cultiva ainda mais sua particularidade como linguagem. No novo filme, com o lindo título A Pele que Habito, baseado num romance de Thierry Jonquet, conta a história do cirurgião obcecado em reconstruir a pele da mulher e atinge momentos de memorável beleza plástica (perdoe-se o trocadilho), com remissões às “majas desnudas” e às criações de Louise Bourgeois, embora livre das cores vivas que sempre empregou. O enredo tem suas falhas na parte final, como a demonstração inocente de confiança do médico (Antonio Banderas), mas o clima do filme – aflitivo, quase gótico em algumas passagens – é sustentado o tempo todo em meio às questões que sempre motivam o cineasta, como a transexualidade. Se trocássemos de corpo, trocaríamos de identidade? Ou a memória é a carne que não se corta, o lar que não se tira?