Cartola e o mundo mesquinho

danielpiza

25 Abril 2007 | 12h19

Vi ontem à noite o documentário “Cartola”, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Há uma diferença de ritmos na narrativa – muito saturada e acelerada na primeira metade -, faltam legendas e não dá para entender direito a razão de algumas imagens repetidas, como a das gambiarras (sinal do descaso público? a dificuldade de comunicação atual? contraponto à alegria verde-rosa das bandeirinhas da Mangueira?). Mas o saldo é bom porque as imagens escolhidas para cada época podem ser surpreendentes e o esquema depoimento com ilustração é driblado; mais importante, sentimos o sofrimento de Cartola, a dificuldade de ser reconhecido e pago como artista, seu extraordinário dom poético e melódico. E pelo menos três de suas maiores canções – “O Mundo É um Moinho”, “Acontece” e “As Rosas não Falam” – podemos escutar inteiras. Na primeira, em interpretação dele para seu pai, que emociona qualquer um, note que diz “[O mundo] vai triturar teus sonhos, tão mesquinho” e não, como se canta habitualmente, “tão mesquinhos” – o mundo é que mesquinho, não os sonhos. Seguramente não os de Cartola.