Discernimento.com

danielpiza

16 de agosto de 2011 | 13h32

O fenômeno da internet e da explosão de informações tem motivado cada vez mais reflexões, em especial de jornalistas e ensaístas. Em O Culto do Amador Andrew Keen mostrou a falta de credibilidade da maioria das informações e opiniões dadas em blogs e enciclopédias virtuais. Em Blur, ainda não lançado no Brasil, Bill Kovach e Tom Rosenstiel falam sobre a dificuldade de foco de uma geração que só dá valor ao imediato e ao interativo, em prejuízo do passado e da independência. Também recentemente, no jornal The New York Times, Bill Keller escreveu sobre a “armadilha” das redes sociais, em que a informação vem fora de contexto e os contatos tomam o lugar dos convívios.

Kovach e Rosenstiel dizem que “em três anos se produz no século XXI mais informações do que nos últimos 300 mil anos”, sem explicar direito os critérios da conta. O fato é que um rapaz de 14 anos hoje pode ter acesso a uma massa de informações a que nem mesmo um Bertrand Russell podia ter acesso havia cerca de cem anos. Mas, dizem os autores, os leitores atuais não têm aquilo que Russell tinha de sobra: habilidades analíticas. Não têm nem sequer aquelas necessárias para absorver dados e notícias de modo crítico, cético, sem o deslumbramento e o modismo que parecem cada vez mais dar o tom, como se vê na cultura de celebridades.

“O maior hiato de informação no século XXI não é entre quem tem internet e quem não tem”, escreve a veterana dupla de jornalistas americanos. “É entre aqueles capazes de criar conhecimento e aqueles que só reafirmam preconceitos, sem desenvolvimento e aprendizado.” As pesquisas mais recentes sobre as atividades na rede mundial de computadores comprovam que mais de 90% delas se referem à troca de mensagens em redes sociais, emails e interação; menos de 10% são compartilhamento de conteúdo, ou seja, o uso dessa maravilhosa ferramenta de pesquisa e conhecimento. Ser conectado não é ser mais bem informado, muito menos bem formado.

Isso não significa pintar um apocalipse cultural. Keen, Kovach, Rosenstiel e Keller são usuários vorazes da Web, escrevem em blogs e twitters, interagem com os leitores e sabem que sua vida se divide em a.G. e d.G., antes do Google e depois do Google. Mas, por isso mesmo, estão preocupados com os usuários de amanhã, que talvez não tenham a mesma capacidade de discernimento para encontrar figuras e relevos na mancha informativa. As escolas mal participam desse mundo, lentas e lineares; a mídia só sabe reforçar os estigmas da aparência e do consumo; e o sonho das crianças, alimentado pelos pais, é terem fama e jamais serem contrariadas. Grandes transformações sempre trazem grandes desafios.

(Fonte)