Mãe

danielpiza

12 de agosto de 2011 | 11h49

Durante os mais de três anos desde que descobriu que tinha hepatite C, contraída numa transfusão de sangue em 1964, quando a doença nem sequer tinha sido caracterizada, minha mãe jamais se fez de vítima, jamais disse algo remotamente parecido com “que azar o meu” ou amaldiçoou seu destino. Enfrentou tudo como sempre enfrentou tudo na vida: com fibra, resignação, teimosia, sem sentimentalismo ou escapismo. Foi aos médicos, tomou as injeções, passou por três cirurgias. A doença e o tratamento lhe tiraram a mobilidade e ela ficava sentada vendo House e as novelas na TV, lendo jornal, falando horas ao telefone com as amigas e irmãs; mas sua maior alegria era ver os netos, depois dos quais se tornou mais suave e relaxada, e ao menos eles a puderam visitar no quarto nos últimos dias, apesar de sua consciência – antes sempre tão alerta – começar a faltar, sob efeito da encefalopatia e dos remédios.

Edith (com “th”, como a Piaf) morreu aos 72 anos na última segunda-feira, depois de seis semanas de hospital (Santa Catarina, que a tratou com excelência), e deixou no marido, nos quatro filhos homens e nos dez netos uma sensação de ausência previsível, mas para a qual nunca existe “preparo”. Ninguém está preparado para perder uma parte de si, e Edith estava sempre presente. Não fui criado para pensar na mulher como “sexo frágil” porque ela era o oposto disso. Era das melhores alunas do Pasteur e, depois, da História Natural na USP; foi professora de ciências na rede pública, em escolas como Lasar Segall, e mais tarde foi estudar Pedagogia para se tornar diretora; no começo, pagava a maior parte das contas, enquanto meu pai começava na medicina; aposentada, foi ajudá-lo na administração do hospital (Casa Verde). Nunca tinha preguiça e nunca deixou de dividir tudo com ele, parceira fiel.

Tinha temperamento difícil, como seu pai, Alfio Schievano, de quem pegou o gosto por óperas italianas (Puccini, Donizetti), mas tinha inteligência, responsabilidade e caráter raros, era mais orgulhosa que vaidosa – embora tão bonita – e demonstrava muito carinho com sobrinhos e afilhados. Como sua mãe, Antonieta, e suas irmãs, gostava de juntar a família, de aglutinar todos à mesa nas datas festivas ou, como fizemos tantas vezes entre 1975 e 1985, na chácara lotada também de amigos. Nos últimos anos, gostava muito de nos visitar aos domingos, e só me lembro de se queixar da restrição médica ao sal. Ao contrário do sal, como ela dizia, “personalidade é melhor sobrar do que faltar”. Agora, não mais suas almôndegas, não mais suas opiniões, não mais sua força – apenas as memórias e o exemplo que elas vão sempre evocar. Descanse, mãe. E muito obrigado.

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