Partículas

danielpiza

09 de outubro de 2011 | 09h35

Lendo na semana as notícias sobre o prêmio Nobel, Steve Jobs e outros assuntos de ciência e tecnologia, como a observação feita na Itália – ainda por corroborar – de neutrinos viajando acima da velocidade da luz (o que contraria a teoria de Einstein), me pus a pensar numa frase que li muitas vezes quando flexionava meus primeiros pensamentos próprios na adolescência: “Tudo está dito”. Havia até um poema do concretista Augusto de Campos com essa frase (embora também se pudesse ler em sentido diverso que “tudo estaria dito”), mas a sensação é tão antiga quanto a modernidade, como se vê nos românticos como Poe e Musset (“Vim muito tarde para um mundo muito velho”). Já comentei esse assunto algumas vezes, mas do ponto de vista do admirador das artes e da filosofia, de alguém que reconhece vigor atual em parte delas e sabe que o esgotamento de formas não esgota o espectro de temas ainda por abordar nas realidades individuais e sociais. Mas a ciência, feita de dúvidas, não deixa uma: como sabemos pouco sobre muito! Quase nada está dito.

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O Nobel de Física, por exemplo, foi para um trio de pesquisadores americanos que mostrou que o universo está em expansão, com as galáxias se afastando umas das outras, movidas pelo que se convencionou chamar de “energia escura”. Parabéns por uma descoberta que muda bastante o rumo do conhecimento – mas eles são os primeiros a lembrar que ela soou bastante estranha, contra-intuitiva (“como se soltássemos uma bola e ela subisse em vez de descer”), e que não fazem a menor ideia do que seja aquela energia que, simplesmente, constitui 95% do cosmos… Esse é o tamanho da nossa ignorância, e a vantagem da ciência é que ao menos sabe disso, ainda que certos cientistas possam esquecer. O mesmo vale para os italianos que aceleraram neutrinos no país de Galileu: relataram os dados que colheram laboriosamente durante bom tempo e foram os primeiros a notar, ao divulgá-los, que carecem de novos experimentos para serem confirmados e, então, quem sabe, pôr a constante de Einstein na berlinda. O que ainda não se sabe sobre as partículas subatômicas é um universo.

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Outro dia um leitor se queixou da minha defesa da ciência, num texto desta coluna exatamente sobre Galileu, alegando que ela não tem humildade e se arroga a uma visão “antropocêntrica” do mundo, traduzindo a pretensão do ser humano de conhecer e controlar a natureza. Durante anos cobri exposições e bienais de artes plásticas e me deparei com instalações que faziam o mesmo discurso; ou, para citar uma canção popular, de um seguidor dos concretistas, Arnaldo Antunes, “as coisas não têm paz” porque a ciência vive de decupá-las em qualidades como cor, massa, peso, tamanho, etc. Bem, o antropocentrismo é anterior a Galileu e muito anterior ao pensamento agnóstico do século 19, por exemplo (estou pensando no grande biólogo e ensaísta Thomas Huxley, autor de O Lugar do Homem na Natureza); nasceu no contexto renascentista, ou seja, no humanismo profundamente vinculado à teologia cristã. Quem supunha conhecer e controlar a natureza – decifrar os desígnios divinos para a massa de fiéis – era a Igreja, que se irritou tremendamente com o heliocentrismo de Galileu, Copérnico e Kepler. Mas o conceito de que a ciência peca por soberba se multiplicou como DNA no imaginário cultural moderno. O coração, como se vê em qualquer filme de Hollywood, tem mais status que o cérebro.

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Não estou menosprezando os erros da ciência ou de diversos cientistas (ou das muitas teses que se pretendiam científicas e eram racistas, como as de Lombroso), muito menos os efeitos históricos de descobertas como a fissão nuclear (as bombas na Segunda Guerra ficaram como símbolos do mal que a ciência seria capaz de causar), mas criticando essa noção vulgar da ciência e da tecnologia como se pretendessem ter certeza de tudo. A ciência moderna nasceu com outro espírito, o de investigar e experimentar hipóteses, recorrendo para isso a disciplinas, métodos e aparelhos que levassem a percepção para além do senso comum, da ancestral apreensão emotiva e não raro medrosa dos fenômenos ao redor. Galileu apostava na matemática para enxergar mais do que as aparências davam a entender – e foi isto o que mais incomodou o status quo. Acho divertido quando falam de Newton como se estivesse “ultrapassado” por ter falado de uma realidade previsível, de relação mais discernível de causa e efeito, mas sua originalidade era contestadora, como a de Darwin mais tarde. Ou a idéia de que a Terra se move sob nossos pés foi confortavelmente aceita? E, como se sabe, até hoje a observação comprovadíssima de que as espécies sofrem mutações e são muito mais antigas do que se dizia em 1859 – a essência do pensamento de Darwin – continua mal aceita e mal interpretada.

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Distorcer e diluir as descobertas científicas, claro, são praxe em muitas culturas. Quantas pessoas não afirmam que Einstein disse que “tudo é relativo”, frase ou conceito que jamais proferiu? E quantas não leram resumos dos achados da física quântica, digamos, e tiraram conclusões sobre a tal “incognoscibilidade” ou “incomunicabilidade” do ser, como se ela não pudesse ser precisa e prática? E, no entanto, quando passam pelas fotocélulas do elevador ou põem seus CDs em leitores a laser, usufruem sem saber das conquistas dessas teorias que lhes parecem tão complicadas. Ao mesmo tempo, como Kepler dizia, “a natureza ama a simplicidade” e muitos dos grandes avanços foram ideias simples que surgiram de pensamentos complexos. Há um caráter até “clássico” na visão de Einstein, com sua constante de valor universal. Já os historiadores de arte e literatura insistem em dizer que a ciência moderna mostra um mundo descontínuo, caótico, simultaneísta ou sei lá o que mais. No nosso cotidiano, porém, o Sol continua a nascer a leste toda manhã e a gravidade exerce sua força.

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Fala-se muito na “terceira cultura”, mas poucos a praticam de fato – como o neurologista Antonio Damásio, que recorreu a Descartes e Spinoza para defender suas ideias sobre o que é consciência – e aqui também há um vasto campo a explorar. Sim, é fato que ela é mais antiga do que às vezes se diz; afinal, o médico Freud não teria feito sua teoria da mente sem Sófocles, Shakespeare e Schopenhauer, para ficar apenas na letra S da enciclopédia de artes e humanidades. O oposto, porém, também é verdadeiro. Darwin não mudou apenas o panorama científico depois dele, mas o filosófico e o cultural também; basta ver obras literárias de Herman Melville, Émile Zola ou Augusto dos Anjos. No Romantismo, com a imagem errônea de anticientífico (conforme mostrou Richard Holmes em The Age of Wonder), muitas perguntas sobre fenômenos naturais eram comuns às “duas culturas”, criando intenso intercâmbio entre ambas. Muitos artistas das mais diversas épocas estavam em diálogo profundo com as questões mais fortes da ciência e tecnologia de sua época, como Leonardo (a perspectiva geométrica), Rembrandt (a luz multifocal) e Monet (o efeito do movimento sobre a cor). Já pensou quantos livros ainda há para escrever sobre isso? Quando a filosofia examinava com olhos admirados e críticos o que a ciência pesquisava (como o funcionamento cerebral, ainda cheio de mistérios fascinantes), era muito mais forte e relevante. Hoje está mergulhada em solipsismo ou autoajuda.

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A frase de Kepler (por sinal, tema de um excelente romance de John Banville) foi citada por Walter Isaacson em texto publicado por este jornal anteontem. Isaacson tem uma boa ainda que controversa biografia de Einstein e agora escreve a de Steve Jobs. Para ele, o co-fundador da Apple também prezava a simplicidade, que, como Leonardo já dizia, é algo que exige muito trabalho. Foi chamado de “gênio”, “visionário” e “mago” em quase todos os obituários, mas seu dom era menos a criação de sistemas operacionais do que olhar o mercado e dar o que as pessoas nem sabiam que precisavam, da forma mais acessível e compacta possível. Daí a qualidade do design da Apple, tão sintético quanto seu conceito. E Jobs, que passou um período perdido, depois que Bill Gates levou o Windows para o mundo com a Microsoft, jamais parou de se reinventar. Ironicamente, sempre se queixando de que as máquinas eram executoras de nossos desejos, não capazes de ter ideias… Como notou Nicholas Thompson no site da New Yorker, Jobs sabia ser alternativo e lucrativo.

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Comparações com Thomas Edison e Henry Ford também foram ouvidas, com mais acerto; afinal, ele pertence a essa longa e brilhante linhagem da engenhosidade americana (que até Duchamp elogiaria com o urinol invertido), embora sempre se esqueça uma das invenções mais brilhantes e determinantes do século 20, o satélite (claro, porque foram os russos que inventaram primeiro). Mas o interessante é refletir sobre as diferenças do mercado para o qual Edison e Ford desenvolveram produtos. O fordismo já não dá as cartas, e a chamada indústria criativa – tecnologia da informação, entretenimento, etc – hoje tem mais peso graças a pessoas como Jobs. Uma empresa de quintal com uma grande ideia pode valer mais do que gigantes multinacionais que só fazem a mesma coisa com alguns aprimoramentos anuais. Nesse sentido, Jobs é um símbolo insuperável. Mas ele também seria o primeiro a dizer que há muitas coisas que não sabemos e, portanto, não fazemos. “Tudo está dito” é frase para quem não tem imaginação.

(“Sinopse”)

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