Princípios da incerteza

danielpiza

10 de abril de 2011 | 07h53

Um massacre como o da escola no Realengo, no Rio de Janeiro, na manhã da quinta-feira, causa comoção e perplexidade e é difícil conter as emoções diante dos relatos de que o sujeito matou ao menos doze adolescentes, atirando preferencialmente na cabeça de meninas, com uma rapidez e precisão de quem foi até lá treinado e premeditado. O bilhete que deixou, ciente do desfecho que teria, é confuso, mas nele sobressai a religiosidade que beira o fanatismo ao mencionar os “impuros”. Isso aumenta a indignação, pois ele só matou inocentes. Por outro lado, mostra que ele tinha problemas, não apenas a sociedade; afinal, seu perfil era em muitos aspectos o do psicopata – antissociável, fechado, infeliz sexualmente. Ou seja, era bem parecido com o de outros matadores que escolheram escolas como alvo de seu espetáculo suicida e nos mais diversos países, dos EUA à China, da Finlândia a Israel.

Isso não significa que as sociedades não devam rever muitos de seus valores. A humilhação do “bullying” nas escolas e a violência exaltada em filmes de ação são problemas reais, não frescuras moralistas. Uma coisa é ser um ambiente competitivo, que premia o esforço e o talento; outra é segregar os “losers” dos “populares”, ridicularizar os que não ganham bem ou não exercem profissões badaladas. Isso sem falar na cultura de aparências em que vivemos, segundo a qual todo mundo tem obrigação de ser magro e andar na moda. Também é necessário tomar medidas que de algum modo reduzam a possibilidade desse tipo de acontecimento, como a maior segurança e, em especial, o acompanhamento psicológico nas instituições de ensino. Pais mais capazes de perceber e reagir a esse tipo de comportamento também são fundamentais, já que não necessariamente o caso tem a ver com nível de instrução – bastando lembrar que Mateus Meira, matador do shopping em São Paulo, era estudante universitário.

Daí a sair nomeando culpas totalizantes é outra coisa. Uns criticaram o referendo do desarmamento, esquecendo que apenas 3,5% da população tem armas e que qualquer maluco facilmente conseguiria uma de contrabando, o qual a polícia não sabe reprimir – ou do qual é cúmplice tantas vezes. Outros falaram em influência da cultura americana, como se nos países asiáticos houvesse menor cobrança de resultados ou como se no mundo todo não houvesse milhões de jovens que passam horas diante do computador jogando games. E, claro, há sempre quem diga que se trata da “perda de Deus” no mundo moderno, pois “antes as pessoas se respeitavam mais”, como se Wellington fosse ateu ou como se fosse preciso acreditar em Deus para respeitar as diferenças. A tragédia talvez não fosse inevitável, mas sua causa é pontual, uma propensão psicológica específica. O que mais poderíamos evitar são as certezas da cura.

(“Sinopse”)

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