Melhores do ano (2)

danielpiza

27 de dezembro de 2009 | 07h42

Carlinhos

Como a música é a melhor terapia, foi fundamental para atravessar um ano de crise como 2009. Dizem que os CDs morreram ou morrerão, mas escutei diversos bem vivos, nos variados gêneros, e ainda tive o prazer de tocá-los na Rádio Eldorado todas as manhãs. Em especial as vozes femininas cuidaram de nossa sensibilidade, por mais que se tentem inventar divas a cada semana. Nem vou mencionar o caso de Susan Boyle, em que o marketing de sua figura superou qualquer discussão razoável sobre seus méritos como cantora – até que o CD dela saiu e os que entendem do riscado viram que timbre e vibrato não bastam.

Estou pensando, isso sim, em nomes como Cassandra Wilson, que em Loverly gravou uma das mais belas melodias brasileiras, Manhã de Carnaval; Maria João Quadros, que cantou o Fado Mulato de Zeca Baleiro e outros; Melody Gardot, que também é promissora compositora, em My One and Only Thrill; Sabrina Starke, espécie light de Amy Winehouse, em Yellow Brick Road; ou Jaimée Paul, que releu standards em At Last. O melhor de todos, porque menos convencional, é o de P.J. Harvey com John Parish, A Woman a Man Walked By. Só James Cullum, com The Pursuit, conseguiu representar a classe masculina. No Brasil, os melhores CDs de cantoras que curti foram, pela ordem, Sweet Jardim, de Tiê, Vagarosa, de Céu, e Peixes Pássaros Pessoas, de Mariana Aydar, ainda que nos dois últimos casos a pasteurização dos produtores tenha pesado.

A MPB, na verdade, não é a mesma que já foi, e o mais recente CD de Caetano Veloso é outra prova disso. João Bosco salvou a categoria com Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão, em que contém seus batuques vocais, e como intérprete não teve para ninguém além de Ney Matogrosso, com Beijo Bandido. Roberto Carlos, o mais celebrado do ano, fez uma bonita melodia, A Mulher Que Eu Amo, e mostrou que ainda é o melhor intérprete de suas próprias canções, mesmo com os arranjos cafonas de sempre. Outro grau de sofisticação, em composições instrumentais, foi atingido por Luz da Aurora, de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, Miramari, de André Mehmari e Gabriele Mirabassi, e Sertões Veredas, de Gismonti, uma das poucas homenagens dignas a Villa-Lobos no cinquentenário de morte. O cubano Roberto Fonseca fez o mesmo por sua tradição em Akokan.

Como ocorre no mercado editorial, boa parte das melhores aquisições é de clássicos reciclados, principalmente na chamada música erudita, em que apenas In Principio, de Arvo Pärt, se destacou entre compositores vivos. Escutar Daniel Barenboim regendo o Réquiem de Mozart e John Eliot Gardiner a Segunda de Brahms, Nelson Freire tocando Debussy e Martha Argerich e Gidon Kremer o Berlin Recital, a caixa das sonatas de Beethoven por Willhem Kempff ou o CD de Cecilia Bartoli revendo os “castrati” – é para festa, não para nostalgia. O mesmo vale para a compilação de 50 anos da Motown, os 14 CDs dos Beatles, os 12 primeiros de Jorge Ben e os Complete Commodore and Decca Masters de Billie Holiday. E com sua triste morte Michael Jackson teve o “revival” que sonhava conseguir com a turnê que não pôde fazer. O que fica, sempre, é a obra.

P.S. – Show do ano? Radiohead, sem a menor sombra de dúvida.

CADERNOS DO CINEMA

Fomos menos felizes dentro das salas de cinema. O melhor filme que vi foi Bastardos Inglórios, de Tarantino, que consegue coser paródias sem deixar de criar a vivência de uma narrativa. Coraline foi o melhor infantil, seguido por Up, da Pixar, menos ousada em A Princesa e o Sapo. Os brasileiros não contentaram muito, variando entre telefilmes e vanguardismos, ou os que não chegaram lá como Budapeste, de Walter Carvalho, um tanto arrastado, e Salve Geral, de Sérgio Rezende, que deixou a tensão para muito tarde.

A safra do Oscar de 2009 tinha coisas interessantes, como Benjamin Button, inspirado em Scott Fitzgerald, e O Leitor, com a excelente Kate Winslet, além de outros “filmes de ator” como O Casamento de Rachel (Anne Hathaway), O Lutador (Mickey Rourke) e Milk (Sean Penn); decidiram premiar a fantasia demagógica Quem Quer Ser um Milionário. Filmes mais adultos vieram depois, com Gran Torino, de Clint Eastwood, e Abraços Partidos, de Almodóvar. Outros, como A Partida, Horas de Verão, Amantes e Partir, também valeram a pena, mas, repito, se fossem literatura não passariam de um conto mediano, devido à superficialidade ou esquematismo. Ah, sim: Anticristo, de Lars Von Trier, não é menos raso, mas é um tal “grand guignol” que destoa da média. É difícil dar mais que três estrelas para todos esses.

Também como nos livros, a não-ficção continuou ganhando espaço. Documentários como O Equilibrista e sobretudo Entre os Muros da Escola foram os que mais apreciei. No Brasil, o de Simonal também causou interessante polêmica, mas exagerou na defesa dele como cidadão (amigo que era de gente do Dops) e crooner (pois não “roubou” nenhuma grande canção para si).

P.S. – Melhor programa de TV? Som & Fúria, sem a menor sombra de dúvida.

A ARTE DE EXPOR

Um avanço claro neste ano se deu no quesito exposições. O Masp começa a renascer das cinzas graças ao trabalho do curador Teixeira Coelho. No ano da França, teve destaque com a exposição sobre realismo e em especial com o restauro da enigmática tela de Poussin, Hymeneus Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo. Mostrou ainda as fotos de Walker Evans e alguns grafiteiros paulistanos. A Faap também caprichou com os Trajes de Cena de Lacroix e sobretudo com Osgemeos, que sabem remeter à situação das pessoas de rua sem o menor apelo sentimental ou retórico, de tão inventivos que são. A Pinacoteca mostrou Léger e Matisse, embora em versão caçulinha, e o mestre francês escolhido pelo Sesc Pinheiros foi Cartier Bresson. Houve ainda Virada Russa no CCBB e, entre os brasileiros, Daniel Senise na Estação Pinacoteca. Fazia tempo que não se viam tantas exposições.

O MUNDO É UM TEATRO

A mudança de horário de trabalho e os afazeres com Euclides da Cunha e jornalismo literário me impediram de ir muito ao teatro e à dança, se é que perdi tanta coisa assim. Me decepcionei com Vestido de Noiva na adaptação de Gabriel Villela, puxada demais para o “clownesco”, mas não com Viver Sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro dá mais uma aula de elocução e transforma a prosa de Simone de Beauvoir em vida e alusão.

RODAPÉ

Na coluna da semana passada, faltou citar um bom livro de economia, O Espírito Animal, de Robert Shiller e George Akerloff (Campus), que havia citado em inglês, e os bons títulos de clássicos infantis, como os de Shel Silverstein e Sempé e a nova tradução de Alice no País das Maravilhas.

Para quem gosta de cartas, as de Rimbaud foram traduzidas na íntegra por Ivo Barroso (editora Topbooks) e as de Van Gogh saíram em suntuosa caixa com seis volumes ilustrados em capa dura (Thames & Hudson).

Quanto às de Machado de Assis, reeditadas pela ABL, não acredite em quem diz haver novidades ali. Todas são conhecidíssimas dos pesquisadores; não é verdade que foi em Petrópolis que ele entrou “cadavérico” e saiu “gordo” antes de publicar Brás Cubas, mas em Nova Friburgo, conforme seu próprio relato; e sempre se soube que queria conhecer a Europa, em especial a Itália, “terra amassada por tantos séculos de história”.

(“Sinopse”)