Enquete: o melhor verso de canção brasileira

danielpiza

05 Julho 2007 | 09h46

Na enquete sobre os piores versos de canções brasileiras, houve um empate técnico, digamos, entre Ary Barroso (“esse coqueiro que dá coco”), Caetano Veloso (“Eta, eta, eta/ É a lua, é o sol/ É a luz de Tieta”) e Djavan (“Tudo que Deus criou pensando em você/ Fez a Via Láctea, fez os dinossauros”), com pelo menos nove votos cada. Mas o prêmio vai para Djavan, porque da mesma canção (“Te devoro”) foram lembrados outros versos (“Noutro plano te devoraria tal Caetano/ A Leonardo di Caprio”), assim como da canção “Se” (“Mais fácil aprender japonês em braille/ Do que você decidir se dá ou não”). Em tempo: são duas belas músicas, em termos de melodia e harmonia. Quem sabe alguém escreve letras melhores para elas.

Agora, uma enquete sobre os melhores versos. É difícil lê-los sem cantarolar a melodia junto, mas estou mais preocupado em observar boas imagens, bons jogos de palavras, bons pensamentos. De alguns compositores, como Chico Buarque e Caetano Veloso, me impus o teto de três exemplos. Curiosamente, cinco das minhas canções preferidas da MPB – “Retrato em Branco e Preto”, de Tom e Chico, “Insensatez”, de Tom e Vinicius, “O Bem do Mar”, de Dorival Caymmi, “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, e “Chove Chuva”, de Jorge Ben – não estão abaixo. É porque letras de canções não são necessariamente poemas, como já defendi em algumas ocasiões (aqui ou aqui). Mas que é saudável esse exercício de elencar as melhores letras, é. E fiz questão de colocar mais versos bons do que ruins, por ser admirador do cancioneiro brasileiro. Vote e/ou acrescente:

1) “Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/ As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti.” (Cartola)

2) “Quando um deus sonso e ladrão/ Fez das tripas a primeira lira/ Que animou todos os sons.” (Chico Buarque)

3) “Quando eu não salário/ Ela sim propina.” (Chico Buarque)

4) “Leva os teus sinais/ Que a saudade dói como um barco/ Que aos poucos descreve um arco / E evita atracar no cais.” (Chico Buarque)

5) “Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor.” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

6) “A luz negra de um destino cruel/ Ilumina um teatro sem cor/ Onde eu tou representando o papel/ Do palhaço do amor.” (Nelson Cavaquinho)

7) “A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua, furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas os astros, distraída.” (Silvio Caldas e Orestes Barbosa)

8) “Asa da palavra/ Asa parada agora/ Casa da palavra/ Onde o silêncio mora/ Brasa da palavra/ A hora clara, nosso pai.” (Caetano Veloso e Milton Nascimento)

9) “O samba é o pai do prazer,/ o samba é o filho da dor/ O grande poder transformador.” (Caetano Veloso)

10) “Não me venha falar da malícia de toda mulher/ Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” (Caetano Veloso)

11) “Tristeza não tem fim/ Felicidade sim/ A felicidade é como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranqüila/ Depois de leve oscila/ E cai como uma lágrima de amor.” (Vinicius de Moraes)

12) “Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba/ Que faz dançar os galhos/ Do arvoredo e faz a lua/ Nascer mais cedo.” (Noel Rosa)

13) “E por maus caminhos de toda sorte/ Buscando a vida, encontrando a morte/ Pela meia rosa do quadrante Norte/ João, João…” (Tom Jobim)

14) “Onde vais morena Rosa/ Com essa rosa no cabelo/ E esse andar de moça prosa?” (Dorival Caymmi)

15) “Meu choro, Boca,/ Dolente, por questão de estilo/ É chula quase raiada/ Solo espontâneo e rude/ De um samba nunca terminado/ Um rio de murmúrios da memória.” (Paulinho da Viola)

16) “Clareira no tempo/ Cadeia das horas/ Eu meço no vento/ O passo de agora.” (Marcelo Camelo)

17) “Quando vermelha no sertão desponta a lua/ Dentro da alma flutua, também rubra nasce a dor/ E a lua sobe e o sangue muda em claridade/ E a nossa dor muda em saudade/ Branca assim da mesma cor.” (Catulo da Paixão Cearense)

18) “Rasgue a camisa, enxugue meu pranto/ Como prova de amor mostre teu novo canto/ Escreva no quadro em palavras gigantes/ Pérola negra, te amo, te amo.” (Luiz Melodia)

19) “Eu vim parar na beira do cais/ Onde a estrada chegou ao fim/ Onde o fim da tarde é lilás/ Onde o mar arrebenta em mim/ O lamento de tantos ais.” (João Donato e Gilberto Gil)

20) “A Terra se move/ Falou Galileu/ Não sou maluco nem sou careta/ Minha tribo sou eu.” (Zeca Baleiro)