Viagem vertical

danielpiza

21 de março de 2010 | 07h23

Baptistão

Já posso imaginar o que alguns articulistas da imprensa brasileira vão escrever sobre o livro O Prazer de Ler os Clássicos, de Michael Dirda, que chega amanhã às livrarias pela editora Martins Fontes. Vão dizer que Dirda confunde cultura com consumo, que trata a leitura como deleite burguês, que faz autoajuda para endinheirados, que celebra a vitória do mercado sobre a esquerda, etc… O curioso é que esses mesmos articulistas, que de vez em quando encontro nos shopping centers em meio aos “consumistas” ou “alienados” (que papo velho!), não leram quase nenhum dos livros que Dirda comenta. Crentes no socialismo democrático que os professores da USP lhes ensinaram, têm aversão – porque têm medo – à ideia de ler por prazer, não por política. E nem sequer veem que seu ressentimento é o pior dos elitismos.

Dirda, ganhador do Pulitzer por suas resenhas no Washington Post, diz que entende o senso comum que diz que os clássicos são chatos ou difíceis, mas não concorda com ele. “As grandes obras nos falam de sentimentos reais, de nossa própria confusão e de nossos devaneios.” O que seu livro faz é tentar trazer autores de Lao Tsé e Homero a Italo Calvino e James Agee até o leitor atual, com textos de 3 ou 4 páginas no máximo. É o oposto de ver a leitura como verniz ou obrigação: Dirda põe ênfase na admiração que sente pela inteligência e engenhosidade dessas criações, por sua capacidade de falar com pessoas de outros tempos e lugares. Sabe que o prazer de ler esses livros é diferente de vestir uma bela roupa ou comer num bom restaurante, mas sabe também que sem cultura não há elegância que resista à primeira conversa.

Quando escreve sobre Eça de Queirós, por exemplo, nota que todas as páginas de um livro como O Crime do Padre Amaro são “divertidas e maliciosas”, como quando Amaro roça joelho em Amélia enquanto diz que o bom vinho “concorre para a dignidade do santo sacrifício”. É o único momento em que cita de passagem um escritor brasileiro – Machado de Assis, claro. Aliás, Eça é o único nome de língua portuguesa incluído no livro. Mas Dirda é o primeiro a lembrar vários outros excluídos, como Borges, porque não dá para colocar todos num primeiro livro. Além de suas observações, ele tem o mérito de em alguns casos lembrar partes menos lembradas das obras de grandes escritores, como a não-ficção de Henry James, como seus livros de viagem e seus ensaios literários. O que importa é ir atrás do que Dirda indica. Dificuldades vão aparecer aqui e ali e é preciso insistir e se apoiar em bons críticos. Mas o prazer recompensa.

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As bancas de jornais, por sinal, estão cheias dos livros sugeridos por Dirda, ao lado de best-sellers de autoajuda, etiqueta, negócios, vampiros e seitas. A Abril acaba de relançar uma coleção de clássicos a R$ 14,90, começando com Crime e Castigo, de Dostoievski, e seguindo por outros 29 títulos, sempre em boas traduções (as peças de Shakespeare por Barbara Heliodora, por exemplo). E com a vantagem de ter melhor qualidade de capa e papel.

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Já um livro como 501 Grandes Escritores, editado por Julian Patrick (Sextante), pode até servir como referência para nomes e datas, mas não tem a levada afetiva de Dirda e trata tudo quase com o mesmo peso, de acordo com critérios de renome e não de requinte. Entre os brasileiros, além do óbvio Machado, inclui Jorge Amado e Paulo Coelho. A versão local traz uma lista de 24 outros, como Euclides, Rosa, Drummond, Graciliano, Cabral e Lima, mas não Pompéia, Nabuco, Augusto dos Anjos… O único do século 19 é Machado. Brasileiros decididamente acham que o passado é um tédio.

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Emprestei o título de um dos livros do espanhol Enrique Vila-Matas, autor também de O Mal de Montano. Seu mais recente livro no Brasil é Doutor Pasavento (Cosac Naify), muito mais para um ensaio romanceado do que para uma ficção ensaística. É a história de um escritor em busca do desaparecimento, que cita diversos outros – quase um a cada página – e tem especial obsessão por Robert Walser, um desses clássicos que o mercado editorial brasileiro ainda maltrata. (Não há um único livro dele disponível no Brasil no momento, mas há o de Vila-Matas sobre ele.) Transcreve alguns dos minicontos e aforismos do escritor suíço, de seus ensaios breves, de seu mergulho no silêncio e na loucura até a morte sobre um monte de neve. E é nesses momentos que seu livro atrai, não pela trama narrativa.

Vila-Matas lembra outros reclusos como Kafka, Salinger e Pynchon, para quem a fama era ônus, não bônus. Isso sempre precisa ser visto de maneira desconfiada. Rubem Fonseca, por exemplo, é um dos “desaparecidos” da literatura brasileira, e está sempre aí, apadrinhando jovens escritoras, sem argumentar nenhum critério técnico. Mas o que importa não é o estilo de vida escolhido pelo autor, mas o estilo da obra. São poucos, em qualquer época, os livros capazes de nos levar a uma viagem vertical, muito abaixo da superfície dos costumes. Talvez ressurjam quando as pessoas descobrirem que seu prazer vai além de consumos e ideologias.

(“Sinopse”)

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