Universitários se voltam para questões práticas

davilira

09 de dezembro de 2011 | 23h18

Vitória de agremiações apartidárias na UnB e na UFMG aponta preocupação com realidade de cada instituição e distanciamento de lutas nacionais

 

Leonardo Gorges
Talita Duvanel
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Tendência. ‘Não se constrói o geral sem o local’, diz Rodrigo

 

A Universidade de Brasília (UnB) vive um momento inédito. Pela primeira vez, um grupo de estudantes não vinculados a partidos políticos está à frente do Diretório Central de Estudantes (DCE). Situação similar acontece na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nos dois casos, as chapas se comprometem com questões locais, que afetam diretamente o cotidiano dos universitários. Na USP, propostas de liderança semelhantes também disputarão os votos de estudantes em março. Isso aponta para uma tendência que vem sendo observada por estudiosos de educação: a bandeira do imediatismo, desvinculada de cores partidárias.

Octávio Torres, de 21 anos, aluno de Direito e um dos coordenadores do DCE da UnB, acredita que esse é o caminho para mobilizar a juventude em torno da educação. Para a chapa, pautas externas não são prioridade, apesar de discutidas, e o não-aparelhamento político é uma garantia. O estudante crê que movimentos em prol de causas locais de cada universidade conseguiriam formar uma articulação nacional. “Demandas semelhantes fazem uma força global. Acredito em um projeto a partir de experiências comuns”, diz Octávio, que defende o intercâmbio com outras instituições para construir diretrizes para a educação.

A professora Leila Chalub, coordenadora do Observatório da Juventude da UnB, acompanhou a eleição e viu na chapa vencedora temas que debatiam o cotidiano universitário. “Vejo um clamor muito maior por gestão do que por causas políticas. A pauta é mais pragmática: falta isso ou aquilo na universidade.”

Desde sua fundação, em 2009, a chapa Aliança pela Liberdade, da qual faz parte Octávio, se orientou pelas premissas de discutir os problemas dos câmpus e não ter ligação partidária. “Se você faz parte de um partido, não tem como separar as ideologias do cargo que vier a assumir em um DCE.”

Com propostas similares no tocante à educação, a chapa Onda toma posse hoje no DCE da UFMG. No Facebook, ela promete acabar com “as reuniões centralizadas em assuntos externos, como a crise no Egito” e priorizar a resolução de problemas reais dos alunos.

Essa corrente também pode chegar à USP. Um dos membros da chapa Reação, Rodrigo Neves, de 24 anos, aluno de Gestão de Políticas Públicas da USP Leste, conta que a bandeira do grupo está nas discussões dos problemas que afetam os sete câmpus. Eles têm até usado as mídias sociais para difundir suas propostas. “Não se pode construir o geral sem o local”, diz. “Nossa chapa tem muitos engenheiros e costumo dizer para eles que não se constrói um teto antes de levantar as paredes.”

No entanto, das 61 pessoas inscritas na Reação USP, 7 têm algum vínculo com legendas políticas – 6 são do PSDB e 1 do PV. Na visão de Rodrigo, isso não chega a interferir, pois ninguém tem cargo de direção nesses partidos.

As preocupações imediatistas desses movimentos nem sempre estão relacionadas com uma expressão de individualismo do jovem. Leila Chalub acredita que essas causas locais têm consequências nacionais importantes e que, no futuro, possivelmente perceberemos uma mobilização muito maior daquilo que parecia apenas casual. “Prevalece uma visão mais individualista até que eles consigam perceber o espaço político que têm. Quando percebem, tomam conta disso. Mas, antes, a articulação é mais em relação a situações concretas.”

Um exemplo bem-sucedido de mobilização aconteceu fora dos centros acostumados a serem palcos de grandes discussões. O DCE da Universidade Federal de Rondônia (Unir) teve apoio de quase todos os alunos contra o reitor, José Januário de Oliveira Amaral. Levantando bandeiras contra o sucateamento dos seis câmpus, estudantes e professores articularam uma greve geral e a ocupação da reitoria. A hashtag #forajanuario foi usada no Twitter para discutir a atuação do reitor. Desgastado também por investigações do Ministério Público Federal sobre desvio de verbas, ele renunciou em 23 de novembro.

De modo geral, o consenso entre os especialistas é que há, sim, mobilização pela educação. “Ela é tão forte quanto em outros tempos, principalmente por causa das mídias sociais. Esse poder de ampliar o debate não pode ser desprezado”, afirma a professora Eliane Ribeiro, da UniRio e UERJ.

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