Na política, atuação direta e performática

davilira

09 de dezembro de 2011 | 23h29

Formas tradicionais de participação, como os  partidos, perdem espaço para iniciativas próprias

 

Natália Peixoto
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 Performance. Em Belo Horizonte, manifestantes transformam a Praça da Estação em uma praia
(Foto: Tamás Bodolay /Creative Commons) 

 Em 7 de outubro do próximo ano, cerca de 56 mil paulistanos com idade entre 16 e 17 anos ajudarão a escolher nas urnas prefeito e vereadores. Em números absolutos, pode parecer bastante, mas o porcentual de participação de jovens para os quais o voto ainda não é obrigatório, no eleitorado de São Paulo, é de 0,7% – e vem caindo. A filiação partidária entre eles também é baixa. Apenas 3% dos filiados no Brasil têm entre 16 e 24 anos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Será que os jovens não se interessam por política?

Para um avaliador apressado, a resposta seria “sim”. Algo que a série de marchas e manifestações ocorridas neste ano desmentiria facilmente. O que há – e isso as estatísticas mostram – é um desinteresse pelas maneiras tradicionais de participação política.

“Não existem mais formas puras ou absolutas de o jovem fazer política”, explica a cientista política Mary Garcia Castro. “Nós estamos vivendo hoje uma época trans”, continua ela, que é pesquisadora de Políticas da Juventude da Universidade Católica de Salvador.

Em Belo Horizonte, por exemplo, os integrantes do movimento Fora Lacerda chamam atenção pelas formas inusitadas de mostrar o que querem. O antropólogo e produtor cultural Rafael Barros, de 29 anos, é um dos participantes que começaram a se manifestar em 2009, quando o prefeito da cidade, Márcio Lacerda (PSB), proibiu por decreto qualquer tipo de protesto na Praça da Estação, a maior praça da capital mineira. Indignados, diversos jovens passaram a utilizar a praça como uma praia, aos fins de semana, como forma de ocupar o espaço.

“Só é possível alcançar alguma coisa quando se age em conjunto, quando se aciona uma diversidade de forças e pensamentos e eles vão para o espaço público”, diz Barros. Para o manifestante, o caráter festivo do movimento contribui muito no envolvimento de pessoas interessadas, pois suaviza a ação política. “A festa em si é um ato revolucionário. Toda festa é uma forma de questionar a ordem estabelecida.”

A pesquisadora Mary afirma que uma das tendências de participação política é justamente essa característica performática. “Isso se anunciou nos anos 1990, mas hoje está muito mais visível”, explica.

O ex-deputado federal Fernando Gabeira (PV), que na década de 60 participou da luta armada contra a ditadura militar, também vê essa característica performática e midiática de algumas ações. “O movimento antiditadura temia a televisão, pois ela marcava as pessoas. Os caras pintadas já foram uma saída televisiva. Eles fizeram uma encenação em cores, que ajudou a firmar a sua identidade”, diz Gabeira. “Mas hoje as manifestações são mesmo construídas pensando nas imagens.”

Caminhos. A pesquisa Sonho Brasileiro, feita neste ano pela Box 1824, especializada na faixa etária dos 18 aos 24 anos, trouxe duas considerações interessantes a respeito de juventude e política: 59% dos jovens afirmaram não ter preferência partidária e 71% disseram acreditar que é possível fazer política pela internet, sem utilizar intermediários, como os partidos.

É o que o empreendedor social Pablo Ribeiro, de 25 anos, coloca em prática diariamente em São Paulo. Em 2010, ele montou o Eu Lembro, que listava o que era falado sobre os candidatos à Presidência nas redes sociais. Neste ano, organiza o movimento #EuVotoDistrital, que pretende obter 1 milhão de assinaturas e aprovar no Congresso Nacional a lei que muda o sistema de votação no Brasil para o distrital.

Ribeiro diz que as ações tradicionais estão perdendo espaço para as atividades que agregam mais as pessoas, nas quais elas se sentem parte de algo perto de sua realidade. “As pessoas precisam perceber que se elas têm um sentimento de mudança, elas não estão sozinhas. O que você quer mudar? Vá atrás de gente, reúna e faça aquilo acontecer.”

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