São Paulo, cidade ocupada

davilira

09 de dezembro de 2011 | 23h28

Longe do Vale do Anhangabaú, jovens promovem um outro tipo de ocupação, tomando o espaço público com arte, lazer e esporte

 

Cristiane Nascimento
Juliana Deodoro
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Educação. Pâmella, Priscilla e Natália relatam casos dos bairros por onde passam

 Educação. Pâmella, Priscilla e Natália relatam casos dos bairros por onde passam
(Foto: Felipe Rau / AE) 

Durante 50 dias, as barracas fizeram parte da paisagem de São Paulo. Armadas pelo Ocupa Sampa, grupo que chegou a contar com 300 jovens, elas representaram a versão paulista do Occupy, um movimento de protesto que tomou praças e ruas no mundo inteiro. Mas essa não é a única forma de ocupar a cidade. De forma mais velada, arte, política, esporte e entretenimento têm sido usados por outros jovens para conquistar regiões que vão além do Viaduto do Chá e da Avenida Paulista.

“Queremos chamar a atenção para a rua não como lugar de passagem e sim como espaço em que podemos viver e habitar”, conta Priscilla Toscano, de 27 anos. A atriz faz parte do Coletivo Pi, formado também por Pâmella Cruz, de 24, e Natalia Vianna, de 26. Ao longo do ano, as três passaram por dez bairros com o projeto Narrativas de São Paulo. Em cada um, montaram uma sala de estar sobre a calçada e nela permaneceram, ao longo do dia, com um livro de páginas em branco nas mãos. A quem se aproximava, pediam que relatasse histórias do bairro.

“O que a gente faz só tem sentido na rua”, ressalta Priscilla. “Nós a valorizamos como um espaço de ocupação, de troca de experiências e não só o espaço do medo, terra de ninguém”, diz Pâmella. De acordo com o coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP, José Guilherme Magnani, o espaço público é o local do exercício da cidadania. “É onde se delibera, se encontra com o outro e com o diferente.”

As ocupações não estão ligadas somente à arte. “Algumas vezes são formas de ativismo que passam pela cultura de um modo geral”, afirma Euler Sandeville, coordenador do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade da USP. É nesse contexto mais amplo, de cultura como política urbana, que há cinco anos o artista plástico Mauro Néri da Silva, de 30 anos, nascido e criado no Grajaú, na zona sul, posiciona seu trabalho. Cartograffiti, sua mais recente intervenção na cidade, consiste na criação de 21 murais. As instalações têm ainda bancos e lixeiras que convidam as pessoas a sentar e interagir com o projeto.

“Não é só um movimento artístico nem tampouco um projeto social”, garante Silva. “Vemos uma importância política de como ocupar a cidade.” O Cartograffiti sugere uma circulação que vai da borda para o centro, seja pelos rios ou pelas avenidas. Até o momento, dois lugares sofreram intervenção: a Ponte Eusébio Matoso, em Pinheiros, zona oeste, e o Autódromo de Interlagos, na zona sul. Assim que os murais forem concluídos, um ônibus levará os interessados para conhecer as obras e, consequentemente, a cidade.

 


Visualizar São Paulo, cidade ocupada em um mapa maior

 

Periferias. É justamente nas bordas de São Paulo que surgem movimentos mais articulados de ocupação dos espaços públicos. Os saraus que atraem cada vez mais adeptos, por exemplo, são uma expressão artística que vai além do entretenimento, assegura o professor Magnani. “Hoje há uma afirmação política mais clara na periferia”, diz. Durante o sarau dos Mesquiteiros, organizado na Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita, em Ermelino Matarazzo, zona leste, questões como a violência, a liberdade de expressão, os equipamentos de saúde, a educação e a cultura são discutidas. “Por que não transformar as escolas em espaços culturais?”, questiona Rodrigo Ciríaco, idealizador do sarau. “Temos de usar os espaços públicos e a escola é um deles.”

Local constituído para a educação e cultura, o Centro Educacional Unificado (CEU) de Lajeado, na zona leste, teve de recorrer a alguns jovens da região para atrair a atenção dos moradores. O grupo já era responsável pela organização do Cine Campinho, projeto que em 2007 revitalizou o campo de futebol do bairro, transformando-o em arena para a exibição de filmes ao ar livre. “Os projetos para a periferia surgem sempre como uma ajuda, nunca como um direito. É preciso pensar se as atividades dialogam mesmo com a comunidade”, diz Pedro Gilvan de Oliveira, de 27 anos, um dos idealizadores.

A formação de coletivos na periferia é uma forma de representação muitas vezes mais bem-sucedida que as instâncias institucionais, como aponta o professor Sandeville. “Eles agem por um ideal e têm uma relação vital com o lugar. Não é o local onde vão trabalhar e voltam, é a casa deles”, explica o especialista. “Eles reinventaram o espaço público, a forma de ocupar a cidade, de fazer política. E isso não aconteceu só na periferia, está acontecendo com toda a juventude.”

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