E você, pelo que se mobiliza?

Estadão

09 de dezembro de 2011 | 23h30

Mãos ao teclado. As palavras que forma o megafone foram digitadas por 2 mil jovens em resposta à enquete que fizemos no Facebook. Elas denunciam as reportagens que você encontra a seguir

 

Antonio Pita
Beatriz Bulla
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fone.PNGCapa do Especial publicado no dia 10.12.2011 nO Estado de São Paulo

 

Enquanto você lê este especial, manifestações reúnem jovens em pelo menos 40 cidades ao redor do globo, incluindo São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Eles estão lutando pelos Direitos Humanos na Síria, país onde a maioria nunca esteve. Ontem, centenas de pessoas marcharam contra a corrupção em vários pontos do País e, desde o início da semana, a Esplanada dos Ministérios está ocupada por estudantes. O pedido? Melhorias na educação.

De Brasília a Tunis, passando por Nova York, Cairo, Roma, Santiago e Madri. A juventude foi protagonista de alguns dos acontecimentos mais marcantes de 2011. Alguns surgiram na internet e ali ganharam vulto. Outros foram organizados pelas redes sociais e chegaram às ruas. Uma placa, instalada entre outras tantas na Puerta del Sol, coração da capital espanhola, pode ser uma boa síntese: “Dormimos, despertamos”, escreveram, indignados com a situação econômica do país.

“Este é o espírito de 2011”, resume Pedro Noel, brasileiro de 24 anos que há 4 vive em Madri. Ele integra o movimento Take the Square, que surgiu na Espanha e organiza mobilizações no mundo inteiro pela internet. Em novembro, 950 cidades em 82 países atenderam ao chamado e milhares de jovens ocuparam praças, como aconteceu em Wall Street. “Demonstramos que conhecemos nossa força, que é de sinergia, e estamos dispostos a usá-la para mudar as coisas”, diz Pedro.

Essa força – em torno de causas internacionais ou locais – foi mostrada, deixando perplexo quem imaginava que os jovens estavam adormecidos. “Ouvi durante décadas que isso nunca aconteceria de novo. Que os jovens nunca sairiam às ruas para protestar”, conta o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle. “Mas eles estão aí. E são uma multidão.”

Como as redes sociais tiveram papel central para reunir essa multidão, decidimos perguntar a jovens no Facebook por quais causas eles se mobilizariam. A enquete, iniciada no dia 21 de novembro, recebeu 2 mil votos. A maioria das pessoas indicou o meio ambiente como o assunto que mais os sensibiliza, com 31% dos votos. Combate ao preconceito (29%) e política (24%) também tiveram votações expressivas, à frente de religião (3%). Cultura, educação e outros temas foram apontados nos comentários. Palavras-chave que compõem a ilustração que você vê na capa do caderno.

Concluída neste ano pela agência Box 1824, a pesquisa O Sonho Brasileiro reforça o resultado da enquete. De acordo com o estudo, que entrevistou 1.800 pessoas em 173 cidades do País, 74% dos jovens se sentem na obrigação de fazer algo pelo coletivo diariamente. Destes, 29% disseram ter interesse em atuar em prol do meio ambiente. O combate ao preconceito também foi abordado. Para a coordenadora da pesquisa, Carla Mayumi, o resultado mostra a preferência do jovem por “mobilizações pacíficas” e pelo envolvimento com questões do seu dia a dia.

Com múltiplas bandeiras e novas formas de mobilização, a juventude não se restringe ao engajamento político-partidário. “Eles têm outros desafios e vivem em outro País”, avalia a deputada federal Manuela D’Avila (PCdoB-RS), de 31 anos. Ex-militante do movimento estudantil, Manuela resume o momento atual: “Existem dois mundos: um muito veloz, do qual os jovens participam, e outro com instituições pesadas que não respondem na rapidez que eles esperam.”

 

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Thiago Aguiar defende uma participação mais ativa dos jovens nas decisões  (Felipe Rau/AE)

 

USP. Em outubro, estudantes da USP iniciaram um protesto contra a presença da Polícia Militar no câmpus depois de três colegas terem sido abordados porque fumavam maconha. Houve confronto com policiais e cerca de cem alunos invadiram o prédio administrativo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), só liberado quando um pequeno grupo resolveu radicalizar o movimento e ocupar a reitoria. As manifestações deixaram a sociedade alarmada e a discussão, distorcida, já que os protestos foram vistos como favoráveis à descriminalização das drogas.

O flagrante, estopim das ocupações, serviu para trazer à tona uma discussão latente na USP: a busca por espaços para debater os rumos da universidade – o que inclui a segurança no câmpus. E a ação da PM para desocupar a reitoria deu um novo gás para o movimento estudantil. Segundo o diretor do DCE Thiago Aguiar, de 22 anos, o debate sobre a participação dos alunos na tomada de decisões da universidade conseguiu mobilizar mais gente do que nos últimos anos. “Queremos algo novo. Há desejo de aprofundar a democracia, mas também há desejo de ruptura. A juventude é um catalisador.” / Colaborou CECÍLIA CUSSIOLI

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