Cardeais iniciam conclave para escolher novo papa

Felipe Tau

12 de março de 2013 | 08h58

Saiba quem são os cardeais mais cotados a papa

 AGÊNCIAS, CIDADE DO VATICANO – O cardeal italiano Angelo Scola, arcebispo de Milão, e o brasileiro Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, entram hoje na Capela Sistina como os dois favoritos na eleição que definirá o sucessor de Bento XVI.

Mas a lista de papáveis é muito mais ampla e inclui cardeais do Canadá, da Hungria, de Gana e dos Estados Unidos, além de outro brasileiro, João Braz de Aviz, arcebispo emérito de Brasília. Saiba um pouco mais sobre cada um deles:

Angelo Scola, 71 anos, é o principal candidato italiano. Especialista em teologia moral, foi transferido em 2011 de Veneza para Milão, onde é arcebispo, pelo então papa Bento XVI. A decisão foi vista, por especialistas, como um sinal de aprovação.

Durante bastante tempo, Scola foi próximo do grupo conservador católico italiano Comunhão e Libertação, que Bento XVI também apoiava, mas manteve distância nos últimos anos. Tem familiaridade com o islamismo, na qualidade de chefe de uma fundação que promove o entendimento entre cristãos e muçulmanos. Tem uma oratória considerada intelectualizada, o que pode afastar cardeais que busquem um pastor que seja um comunicador mais carismático.

Odilo Scherer, de 63 anos, é o principal candidato da América Latina. Arcebispo da maior arquidiocese do Brasil, a de São Paulo, ele é um conservador para os padrões brasileiros, mas em outros lugares é visto como um cardeal moderado.

Suas raízes familiares alemãs e o período trabalhando na Cúria do Vaticano lhe garantem ligações importantes com a Europa, o maior bloco de votação no conclave que definirá o novo papa.

De acordo com a imprensa italiana, d. Odilo possui apoio entre os cardeais da Cúria que hoje se posicionam de forma contrária a Scola. O brasileiro é conhecido pelo senso de humor e por usar o Twitter regularmente. O rápido crescimento das igrejas evangélicas no Brasil, no entanto, pode pesar contra ele.

João Braz de Aviz, de 65 anos, um dos cinco eleitores brasileiros no conclave, era arcebispo de Brasília quando Bento XVI o nomeou prefeito da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica. É o responsável pelas ordens e congregações, masculinas e femininas, que têm cerca de 1,2 milhão de membros no mundo. Ligado ao movimento dos Focolari, desenvolveu intensa atividade pastoral na arquidiocese de Brasília, próximo do povo e principalmente dos jovens. Foi grande também seu contato com o clero, sempre com uma participação ativa nas reuniões feitas nas paróquias. Na Cúria Romana, Aviz mostrou grande capacidade de trabalho e facilidade para o diálogo. Firme em suas posições, fazia questão de ouvir antes de tomar decisões.

Tem um jeito de homem simples e bonachão, sempre sorridente e aberto para um bom papo. Mas fechou-se para a imprensa quando o seu nome foi incluído entre os papáveis. Nas congregações-gerais, d. João defendeu reformas na Cúria Romana.

Marc Ouellet, de 68 anos, natural do Quebec, no Canadá, apesar de favorito, chegou a afirmar, em 2010, que “ser papa seria um pesadelo”. É prefeito da Congregação para os Bispos e o responsável pela Pontifícia Comissão para a América Latina, órgão da Cúria Romana que estuda os problemas relativos à vida e ao desenvolvimento da Igreja na América Latina. Por causa desse trabalho, tem um bom trânsito entre os cardeais do continente.

Ouellet foi arcebispo da Província de Quebec de 2002 a 2010 durante uma época turbulenta, em que as posições inflexíveis do Vaticano geralmente iam contra o secularismo do Quebec. Na ocasião, Ouellet provocou polêmica ao se posicionar contra o casamento de homossexuais e o aborto, até mesmo em casos de estupro.

A imprensa canadense o apelidou de “o cardeal mãos de ferro”. Por conta disso, estabeleceu uma relação de confiança com Bento XVI. É poliglota – fala francês, inglês, espanhol, português, alemão e italiano. É um homem discreto, que pouco aparece em multidões e tem pouco perfil midiático.

Peter Erdö, de 60 anos, é arcebispo de Esztergom-Budapeste e visto como uma pessoa que poderia trazer a mensagem de renovação. Foi durante muito tempo o cardeal mais jovem da Europa e hoje prega contra a secularização e tem relação próxima com a África. Proclamado cardeal em 2003 por João Paulo II, primeiro papa oriundo de um país da extinta União Soviética, Erdö é visto como um líder em potencial para estreitar os laços com as Igrejas ortodoxas. Fluente em sete línguas, presidiu por seis anos o Conselho das Conferências Episcopais da Europa.

O pulso firme e as convicções fortes podem contar a seu favor. “Os cardeais, desde a Idade Média, sempre têm dado suas opiniões sobre todos os temas que os interessam porque seu dever é representar a fé, a esperança e o amor”, disse ele ao jornal húngaro Nepszabadsag.

Ativista na evangelização das novas gerações, defende o diálogo com outras religiões, especialmente com o judaísmo. Em abril passado, durante marcha celebrada em Budapest e para lembrar vítimas do Holocausto, ressaltou que o antissemitismo não tem lugar dentro do cristianismo.

Peter Turkson, de 64 anos, cardeal ganense, foi alavancado logo após o anúncio da renúncia de Bento XVI pelas casas de apostas britânicas. Mas declarações polêmicas sobre o homossexualismo e a expansão do islamismo na Europa reduziram a chance de a Igreja Católica escolhê-lo como primeiro papa negro da história.

O mais bem preparado entre os postulantes africanos, em seu país, o arcebispo de Cape Coast é tido como artífice da paz. É considerado progressista por seus admiradores, que ressaltam seu papel como mediador, em 2008, das eleições presidenciais de Gana. Desde 2009, preside o Pontifício Conselho Justiça e Paz, instituição da Cúria que combate a violação de direitos humanos.

As principais polêmicas no currículo de Turkson começaram no ano passado. No início de 2012, ele rebateu as cobranças do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que exigiu maior rigor no combate aos crimes contra homossexuais na África. Recentemente, após entrevista à CNN, foi criticado novamente por sugerir uma relação direta entre pedofilia e homossexualismo.

Sean O’Malley, de 68 anos, arcebispo de Boston, tem como características marcantes a posição firme pela punição de responsáveis por abusos sexuais na Igreja, a facilidade de comunicação com os jovens, com o uso pioneiro das mídias sociais para evangelização, e a simplicidade de quem usa até hoje o uniforme da ordem dos frades capuchinhos.

O franciscano foi um dos primeiros a por em prática uma política de “tolerância zero” contra a pedofilia e considera que esse deve ser um tema prioritário para o próximo pontífice. Ainda que os americanos raramente sejam apontados como favoritos nos conclaves, a imprensa especializada tem feito referências positivas a ele.

Segundo o jornalista americano John L. Allen Jr, correspondente do National Catholic Reporter, “por reputação, ele não é adepto de construir impérios ou participar de jogos políticos”. Esse perfil pode ser valorizado em tempos de escândalos como o do Vatileaks. Fluente em espanhol, O’Malley também tem como vantagem um canal de comunicação aberto com os fiéis sul-americanos, que representam 40% dos católicos.

Timothy Dolan, de 63 anos, arcebispo de Nova York, foi chamado pela papa João Paulo II de “arcebispo da capital do mundo”. Por vaticanistas, foi apresentado como o “candidato que representa o impulso na direção da purificação” por ter se destacou nas reuniões pré-conclave ao pedir mais transparência da Igreja.

Curiosamente, logo após a renúncia, a hipótese foi descartada justamente por ele ser “distintamente americano” – muito expansivo e muito alegre. Ele tem disfarçado, falando que está ansioso para voltar para casa.

Chama a atenção pelo bom humor e dinamismo e por ter um histórico tanto de administrador firme (é presidente da Conferência Americana dos Bispos Católicos) quanto de pastor. Na eleição presidencial de 2012, democratas e republicanos disputaram quem teria sua bênção. Ele deu aos dois.

Pesam contra ele o fato de não falar bem italiano e de, na época em que foi arcebispo de Milwaukee, ter autorizado pagamentos a padres envolvidos em denúncias de abuso para que eles se afastassem.

Gianfranco Ravasi, 70 anos, italiano, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano, é um acadêmico erudito com um toque de modernidade – justamente a combinação que muitos católicos consideram ideal para ressuscitar uma Igreja sob pressão pelos escândalos e contração do seu rebanho. É também a esperança entre os católicos italiano que desejam ver a volta de um compatriota no Trono de Pedro.

Extrovertido, alegre e saudável, é considerado o prelado que poderia fazer a ponte entre a Igreja e o mundo moderno. Poliglota e erudito em temas bíblicos, costuma incluir em seus discursos citações que vão de Aristóteles à cantora britânica Amy Winehouse – para ele, suas músicas melancólicas são uma boa referência para entender a juventude de hoje.

Costuma usar o Twitter para mandar mensagens aos fiéis. O vaticanista americano John Allen costuma dizer que o italiano é uma mistura de Bento XVI, de quem teria a mesma solidez teológica, com Carlo Maria Martini, o lendário cardeal de Milão morto em agosto do ano passado, que representa o catolicismo progressista italiano. Entre os papáveis, seria o menos conservador.

 

Veja como é a Capela Sistina por dentro entenda todos os passos do conclave

Eleição que começa nesta terça-feira deve elevar a papa alguém que possa iniciar nova fase na igreja. Veja o infográfico que mostra como é esse proceso

 

 A caminho do conclave, d. Odilo só ri da possibilidade de estar com frio na barriga

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

CIDADE DO VATICANO – De cara fechada, sério, sem nem mesmo dizer bom dia aos jornalistas que o aguardavam, o cardeal brasileiro d. Odilo Scherer deixou nesta terça-feira, 12, a residência que estava ocupando em Roma e, cedo pela manhã gelada do final de inverno na Europa, se dirigiu a seu novo aposento dentro do Vaticano e que ocupará durante o conclave, na Casa Santa Marta. Com ele, apenas uma mala pequena, sua pasta e cabides com suas roupas solenes.

Se eleito nos próximos dias, a viagem de pouco menos de 20 minutos até o Vaticano foi a última na condição de um simples ser humano. Mas adotando a mesma estratégia dos últimos dias, se recusou a falar enquanto seus assistentes já alertavam que nenhum dos cardeais faria declarações aos jornalistas.

Questionado em sua saída pelo Estado sobre como se sentia, apenas respondeu: “com frio”. A reportagem então o questionou se não seria frio “na barriga”, arrancando um tímido sorriso do cardeal. d. Odilo seguiu no mesmo carro com os cardeais brasileiros Raymundo Damasceno e Geraldo Majella Agnello. Os três estavam hospedados no Colégio Pio Brasileiro, em Roma.
Já outros cardeais chegaram ao Vaticano caminhando, enquanto um deles foi com sua bicicleta.

 

 Em missa antes do conclave, cardeal reforçou necessidade de um pastor

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo, com agências internacionais

 CIDADE DO VATICANO – Cardeais de todo mundo participaram na manhã desta terça-feira, 12, de uma missa especial antes de se enclausurarem na Capela Sistina para o conclave que vai escolher o novo líder da Igreja Católica.

Enquanto um canto gregoriano ecoava pela Basílica de São Pedro, os 115 cardeais chegavam vestindo suas capas vermelhas. Alguns mostravam um aspecto sério, como que evidenciando o peso da iminente votação. Ao lado de fora, chovia fortemente.

O decano do Colégio Cardinalício, Angelo Sodano, que conduziu a missa, falou repetidas vezes em sua homilia sobre a necessidade de buscar um pastor para conduzir a Igreja. “A atitude fundamental de todo bom pastor é dar a vida por suas ovelhas. Isso vale, sobretudo, para o sucessor de Pedro, pastor da Igreja universal. Porque quanto mais alto e mais universal é o ofício pastoral, tanto maior deve ser a caridade do pastor.”

Ele recordou a intenção desta missa, ou seja, “implorar ao Senhor que mediante a solicitude pastoral dos padres cardeais queira em breve conceder outro bom pastor à sua santa Igreja”. E pediu unidade. “Cada um de nós está chamado a cooperar com o sucessor de Pedro, o fundamento visível da unidade eclesial.”

Depois de outro canto, em que pediram a intervenção do Espírito Santo, os cardeais prestarem um juramento de guardar segredo e escutaram uma meditação feita pelo cardeal ancião maltês Prosper Grech.

Após a missa, que contou com a presença de fiéis, os cardeais retornaram para a Casa Santa Marta, onde estão hospedados, para almoçar. Às 16h30 (horário local, 12h30 de Brasília), partem em procissão para a Capela Sistina. Às 16h45, fazem o juramento e os que têm mais de 80 anos, e não podem votar, se retiram do local, que é lacrado. Na sequência, começa a primeira votação. A expectativa é que até umas 19h saia a primeira fumaça. Se preta, é porque ainda a Igreja não tem um novo papa. Se branca, sim.

Amanhã e nos próximos dias haverá duas votações pela manhã e duas à tarde.