Política e vigília em Buenos Aires na entronização do papa

Tania Valeria Gomes

19 de março de 2013 | 11h55

Marina Guimarães, correspondente

Buenos Aires, 19- A política argentina não esteve ausente da vigília de Buenos Aires, que começou ontem (18) à noite e durou até esta manhã pela entronização do Papa Francisco. As palavras do ex-arcebispo Jorge Mario Bergoglio dirigidas à população durante a madrugada, através de uma ligação telefônica, foi uma “chamada à unidade argentina”, segundo interpretou Patrícia Fernández, de 53 anos, moradora do bairro portenho de Belgrano, uma das milhares de fiéis que lotaram a Praça de Maio.

“A Igreja estava hostilizada pelo governo Kirchner e hoje nós, católicos, podemos voltar à Praça de Maio, de onde estávamos praticamente proibidos de ocupar”, desabafou Fernández em conversa com o Broadcast. Segundo ela, “havia muita tristeza e muitas agressões” provocadas pelo ex-presidente Néstor Kirchner , morto em outubro de 2010, e sua sucessora e esposa, Cristina Kirchner. “Tomara que o pedido o pedido do Papa para que não haja ódios e que nos cuidemos uns dos outros seja ouvido e que o governo promova união e integração da sociedade argentina”, disse ela.

A amiga de Fernández, Malena Nougues, de 50 anos, concorda que, pela primeira vez, há muitos anos, a Igreja argentina “não sentia tanta alegria e não havia uma festa popular tão grande”. Ela disse que sente uma grande esperança de harmonia em seu país.
Em sua mensagem particular aos fiéis reunidos em frente à Catedral Metropolitana de Buenos Aires, nesta madrugada, o Papa Francisco pediu “que não haja ódio, que não haja briga, deixem de lado a inveja, não critiquem ninguém. Dialoguem”.

Antes de se tornar Papa, o ex-arcebispo de Buenos Aires, clamava pelo diálogo e o fim do discurso bélico do governo. Para o cientista político argentino, Rosendo Fraga, do Centro União para Nova Maioria, “a Igreja argentina se fortalecerá e revitalizará com o Papa argentino”. Quando à relação do governo com a Igreja, ele considerou que “não vai ser fácil”.

Em entrevista ao Broadcast, Fraga disse explicou que o governo enxerga Bergoglio como um adversário como é evidente. E verá segundas intenções detrás de suas palavras. As quais, agora, em realidade, se dirigem a 1,2 bilhão de católicos, dos quais somente 3,5% vivem na Argentina.

Cristina e Francisco

Depois de uma longa demora em transmitir uma mensagem pela eleição do argentino Bergoglio para o cargo máximo da Igreja, de uma carta de parabéns bastante fria e distante e um discurso com estocadas, ontem, no encontro que manteve com o Papa, em Roma, Cristina parecia ser outra pessoa. Foi simpática, com olhares e gestos suavizados em direção ao Papa e até pareceu estar emocionada. A presidente demonstrou uma enorme vontade de agradar, dando a impressão, em uma primeira leitura, de que estaria disposta a apagar os 10 anos de áspera relação que manteve com a arquidiocese portenha.

Para os analistas locais, ontem, o Papa deixou todas as portas abertas para o início de um diálogo com a Casa Rosada. Porém, ontem mesmo, setores mais duros do kirchnerismo dispararam fogo contra a aparente aproximação de Cristina à Igreja. Um dos intelectuais que lideram essa corrente, Horácio González, do movimento Carta Aberta e diretor da Biblioteca Nacional. Disse que “seria um retrocesso” para o kirchnerismo qualquer proximidade com a Igreja. A expectativa agora é sobre o retorno de Cristina à Buenos Aires e qual será a ordem que ela dará aos kirchneristas “duros”.

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