Vaticano diz que acusações contra papa sobre a ditadura são "caluniosas e difamatórias"

Viviane Bittencourt

15 de março de 2013 | 12h17

ANDREI NETTO / JAMIL CHADE – ENVIADOS ESPECIAIS AO VATICANO  (atualizado às 15h15)

Pressionado pela polêmica crescente, o Vaticano lançou hoje uma ofensiva de comunicação para tentar limpar o nome do cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, acusado de ter colaborado com organismos de repressão da ditadura militar da Argentina nos anos 1970 e 1980.

Em um pronunciamento específico sobre o assunto, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, definiu as acusações como “caluniosas e difamatórias” e promovidas por grupos ideológicos “anticlericais de esquerda” para atacar a imagem da Igreja. Cardeais de diferentes países também se lançaram à defesa do pontífice.

O pronunciamento foi o primeiro movimento oficial feito pelo Vaticano para responder as críticas que ganharam novo fôlego após o conclave encerrado na quarta-feira à noite, que resultou na unção de Bergoglio como novo pontífice.

Segundo as acusações, iniciadas há 30 anos, o atual papa teria colaborado com a ditadura militar da Argentina, que deixou mais de 15 mil mortos e 30 mil desaparecidos entre 1976 e 1983. Desde então, duas investigações envolveram seu nome. A mais importante delas diz respeito ao sequestro de dois padres jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, em 1976, quando trabalhavam na periferia de Buenos Aires. Bergoglio, então com 39 anos, era o superior direto de ambos por exercer a função de provincial dos jesuítas na Argentina.

Padre Francisco Jalics diz que se reconciliou com o papa Francisco

À época, o atual papa sofria críticas de setores mais progressistas de sua congregação, ligados à Teologia da Libertação, que o acusavam de apatia frente à ditadura e por desmobilizar os jesuítas do país, levando-os a abandonar a ordem.

Yorio e Jalics teriam recebido uma ordem para deixar Buenos Aires, a qual teriam desobedecido. Três meses após o golpe militar promovido pelo general Jorge Videla em 24 de março de 1976, os dois padres foram sequestrados. Para os críticos de Bergoglio, a exclusão dos dois padres teria sido interpretada como uma autorização implícita pela ditadura para realizar o sequestro.

Incomodado pelas informações sobre o passado do papa Francisco, o Vaticano foi para a ofensiva ontem. Visivelmente incomodado pelo assunto, o porta-voz da Santa Sé alegou que seria necessário responder às ilações, que considerou anacrônicas. Lombardi citou o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, que isentou Bergoglio de colaboração com o regime. “Esquivel não é particularmente próximo à Igreja”, ressaltou.

“A campanha contra Bergoglio é conhecida e se refere a acontecimentos de muitos anos atrás. Foi promovida por uma publicação especializada em uma campanha de viés calunioso e difamatório”, afirmou Lombardi, em tom solene, alegando que as acusações teriam “caráter anticlerical”. “Nunca houve uma acusação concreta e credível ao seu encontro. A Justiça argentina o interrogou uma vez, mas apenas como pessoa conhecedora dos eventos. Mas ele nunca foi imputado por nada.”