A fantástica fábrica de sonhos e pesadelos

Estadão

08 Outubro 2011 | 07h00

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O sono chega. Então, parece que uma mágica acontece. O corpo se desliga de tudo e a gente embarca em outro mundo, para viver outros tipos de aventuras: os sonhos. Neles a gente voa, conversa com nossos heróis e faz coisas que parecem não ter sentido nenhum. No entanto, às vezes, aparecem monstros, ladrões, vampiros, dragões e dá um medo danado. Ufa! Ainda bem que acordamos. E, por garantia, muitos acabam dando uma passada no cama da mãe. Mas só para ver se ela está bem, não é?

O que será que aconteceu enquanto estávamos dormindo? Se você leu o Estadinho de hoje, já sabe que assim que o sono chega, o corpo relaxa, mas o cérebro não descansa. É dormindo que a gente cresce, se recupera dos machucados e grava o que aprendeu ou aconteceu durante o dia. Caso você não tenha lido, é só clicar nas páginas abaixo. Mas volte para cá pois este post tem muito mais curiosidades sobre essa fantástica fábrica de sonhos e pesadelos.

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 Agora que você já sabe que todo mundo sonha, todas as noites, e que até os bichos devem ter lá as suas aventuras dormindo, vamos falar sobre outras curiosidades. Acompanhe as entrevistas com dois médicos que estudam o sono: o pediatra Gustavo Antonio Moreira, da Unifesp, e o neurologista Rubens Reimão, do departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da USP. Depois, leia mais sobre o trabalho dos alunos do Colégio Santo Américo. Você pode copiar a ideia e fazer em casa.

O que é o sono?
Gustavo: É o descanso do cérebro.

O que é o sonho e o pesadelo?
Rubens: Quando sonhamos, é como se o cérebro tivesse acessado um fichário das nossas memórias e ele vai pegando fichas ao acaso e lendo para formar o sonho. Na verdade, são coisas que a gente já tem na memória, que podem ser mais antigas ou mais recentes e que, às vezes, parecem fora da realidade. O pesadelo é um sonho como os outros, mas tem características de sonho ruim, que geram medo e ansiedade.
Gustavo: Eles não são realidade, isso é importante dizer. O sonho é uma mistura de informação que aconteceu durante o dia, misturada com a memória passada, que aparece no meio da noite e que você se lembra de alguns pedaços, de forma bagunçada. É como se você tivesse tirado todos os brinquedos do armário, colocado no chão, feito aquela bagunça e daí você vai guardando cada um no seu armário. Mas você não se lembra de toda a organização, só de um pedaço. Então, fica uma história desconexa, que não tem a ver com a realidade.

O pesadelo está relacionado aos nossos medos?
Rubens: Totalmente. É por isso que é comum, quando criança, sonhar com monstro, assalto. Em geral, com as coisas que vê no dia a dia. Todo mundo sonha e pode ter pesadelo de vez em quando. Depois dos três, quatro anos até a idade adulta podemos ter pesadelos. Entre as crianças, de 30% a 40% têm pesadelo uma vez por semana ou um pouco menos.

Por que a gente não se lembra sempre dos sonhos?
Rubens: Porque não acordamos durante o sono REM (que é uma fase do sono que vem depois do sono não-REM). Se você acorda quando estava sonhando (a gente sonha nesse sono REM), em 80% a 90% das vezes vai se lembrar do sonho.

Quem sonha mais: criança ou adulto?
Rubens: A criança tem mais sono REM (aquela fase em que aparecem os sonhos) do que os adultos. Um recém-nascido, por exemplo, tem 50% a 60% de sono REM durante a noite, porque o cérebro está aprendendo muito (lembra que a matéria dizia que é durante o sono REM que o cérebro guarda o que interessa ser guardado na memória e joga fora aquilo que você não vai precisar?). O adulto só tem 25% desse sono.

Às vezes parece que a gente fica cansado de tanto sonhar. Sonhar cansa?
Gustavo: Não, sonhar é bom. É o melhor sono, aquele que você relaxa bem. É só a percepção de que o cérebro trabalhou muito à noite, de que a faxina foi mais puxada.
Rubens: Se a pessoa acordou muito durante a noite, vai acabar lembrando mais dos sonhos e achar que a noite foi ruim, cansativa.

Quantas horas devemos dormir por dia?
Rubens: Uma criança de 10 anos deveria ter de 10 a 11 horas de sono por noite. Uma de 5 anos tem que dormir mais do que isso, umas 12 horas. Um adulto, deveria dormir entre 7h30 a 8 horas.

Se não dormimos o suficiente, o que acontece?
Rubens: A pessoa fica irritada, agressiva, explosiva. E se tiver estudado para uma prova no dia anterior, e não dormido quase nada, ela pode ter o famoso branco e não se lembrar de nada.  

Quando ficamos sonâmbulos é porque estamos sonhando?
Gustavo: Não. Muitas pessoas confundem. O sonambulismo é um despertar parcial. Você está dormindo e, de repente, acorda, mas não acorda completamente e fica meio confuso. É como se fosse um limbo entre estar dormindo e acordado. Tem elementos da vigília, como a fala e o movimento. E tem elementos do sono, porque você está inconsciente e não vai se lembrar de nada.

VOCÊ SABIA?

– O sonho pode ser em preto e branco. Só que o mais comum é a gente sonhar colorido, mas com a cores “envelhecidas”.
– Se você tirar uma soneca à tarde, dificilmente vai sonhar, pois o corpo precisa de cerca de 90 minutos para começar os sonhos.
– Dormir com a luz acesa e barulho atrapalha o sono.
– Que a gente deveria dormir todo dia no mesmo horário para o cérebro entender mais fácil que é hora de descansar?

 

PARA ESPANTAR O MEDO

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Se durante o sonho você costuma sonhar com aquilo que mais teme, os alunos do Colégio Santo Américo dão a receita de como perder o medo de monstros, ladrões, sequestradores, agulha, fundo do mar, cobra… É que eles fizeram uma atividade muito legal em sala de aula. Primeiro, leram o livro Pequeno Manual de Monstros Caseiros (Ed. Companhia das Letrinhas).

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Então, todo mundo teve de contar para a classe do que tinha medo. A própria turma pensou em maneiras de fazer cada um não sentir mais aquele medo. Por fim, em duplas, os alunos inventaram monstros bonzinhos, com descrição da personalidade e desenho do bichão. Todos os trabalhos foram expostos para que os alunos menores também perdessem o medo de monstros. E a turma ficou muito mais corajosa. O Estadinho conversou com cinco corajosos para saber o que cada um fez:

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A Helena Müller Iasi, de 6 anos, tem medo de ladrão, que alguém a sequestre e a leve para longe de sua mãe. A turma pensou numa solução e decidiu que era só a Helena ficar sempre junto da sua mãe, do pai ou de algum parente. Daí o medo ia embora. “Quando eu estou num lugar que não conheço e a mamãe pede para eu fazer um favor, eu fico com medo. Aí dá um frio na barriga e não tem nada lá. A turma falou que era só eu tomar coragem.” Ela já teve muito medo de monstro e de ficar sozinha, mas sua mãe sempre a acalmava, dizendo que “estava tudo seguro”. Então, era só pensar no anjinho que estava sempre junto e ela se acalmava. Para a atividade, Helena inventou o Alegrão. Como ele é? “Ele tem uma cara muito feliz, é muito colorido, com nariz de fios de lã, quatro olhos azuis por dentro e laranja por fora e dois rabos. É engraçado e tem uma namorada muito legal chamada Veronstra. A comida que o Alegrão mais gosta é carne. Ele faz amizade, brinca, ajuda as pessoas a atravessarem a rua.”

 

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André Zomer Sica, de 6 anos, tinha medo de morrer afogado num lugar bem fundo, porque ouviu um adulto dizer que essa deve ser uma morte terrível. Também tinha medo de se perder “em algum lugar ou na floresta”, porque um dia se perdeu de sua mãe no Parque da Xuxa e não gostou nada da experiência. “Às vezes ainda dá medo, nunca se sabe o que vai acontecer!”. Também já teve medo de vacina, mas a culpa foi da “mão ruim da enfermeira”. Mas de monstro não tem. “Monstro não existe, só em filme e história”, garante. Para a escola, ele criou o monstro Esquizoide. O André conta como é: “Ele é todo esquisito. Tem umbigo de flor, solta pétala com veneno que pode até matar, tem vários braços e só um é de polvo. Ele também se protege com espinhos no corpo. Ele mora no fundo do mar e chupa sangue de pessoas e animais, que dá força para o umbigo de flor. Mas gosta de fazer coisas do bem para os animais do fundo do mar. Sua fraqueza é o braço de polvo”.

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A Luiza Veiga Borges, também de 6 anos, só tem medo de ladrão. “Quando estou na rua, tenho medo que alguém me leve para outro lugar longe da minha mãe.” Ela já teve pavor de abelha, mas, quando levou uma picada, viu que não doía tanto. Em seu trabalho, ela deu vida ao Coloror, um monstro todo colorido. “O sonho dele era pintar a maior arte do mundo, ele trabalhava numa oficina de arte. Tinha três olhos, mais dois na antena, e uma barriga cheia de bolinhas coloridas.” Você tem medo de monstro, Luiza? “Monstro não existe, a gente fez esses trabalhos para tirar o medo do jardim 2 e jardim 1.” Ah, tá…

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 O Arthur Martins Nogueira, de 6 anos, tem medo de ficar longe dos pais, de ficar sozinho na casa silenciosa e de cobra. Quando fica com medo, ele tem uma receita: “Se o telefone estiver funcionando, eu ligo para meus pais. Mas quando algum adulto está comigo, eu fico tranquilo”. Ele também tem medo de se perder, como já aconteceu antes. Os amigos de classe deram um bom conselho: é só ficar parado no lugar e deixar os adultos o procurarem, em vez de ficar correndo sozinho. Arthur criou o Zubi-zubi, que é um ótimo escavador! “Ele faz um buraco sem fim que atravessa o mundo inteiro. Ele cava quando está muito, muito bravo. Sua cabeça é triangular, o corpo xadrez.” 

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Já a Rafaella de la Torre Giaffone, 6 anos, tem o mesmo medo das outras meninas: que um ladrão a roube e a leve para longe da sua família. “Quando estou sozinha em casa e vejo a janela aberta ou a porta, tenho medo que alguém entre e assalte ou quando estou na rua esperando.” Antigamente, ela e um amigo tinham medo de cobra, mas seu irmão falou que gosta muito desse réptil, então, ela perdeu o medo. Na escola, inventou o monstro Rabo de Camaleão, que é bonzinho. “A cabeça é meio de meleca, o rabo de camaleão e seu sonho é ser policial. Ele adora uva e suco de uva”, conta. E será que depois de toda essa atividade, ela perdeu um pouco o medo de ladrão? “Fiquei com menos medo.”  Que bom, não é?

Com a ajuda dos cinco alunos, fizemos uma listinha de como espantar alguns medos. Se precisar, vale o conselho:

Medo de injeção: é só dar a mão para outra pessoa.
Medo da Cuca: basta lembrar que ela não existe, é só um personagem de livro.
Medo do fundo do mar: segure em algo que fique boiando.
Medo de raio: é só ir para dentro de casa.

Você tem mais dicas? Escreva para a gente!

E se também tem um medo, conte para seus amigos e peça para eles ajudarem a encontrar soluções para acabar com ele. Por fim, ajude quem tem medo de monstro a perder isso: invente um bichão bem bonzinho para ajudar a proteger a pessoa. Depois, mande para a gente.