O voo dos passarinhos

Estadão

10 Março 2012 | 06h30

(Por Aryane Cararo)

No Estadinho de papel de hoje (dia 10), sugerimos dois livros que têm uma temática em comum: de um passarinho que um dia vai embora. As histórias de O Poeta e o Passarinho e Passarinha nasceram de momentos de dor de cada escritor. Tanto Ricardo Viveiros como Regina Berlim tinham perdido um filho. Isso foi há 15 anos. E, sem se conhecerem, eles acabaram escrevendo esses livros super sensíveis, poéticos na narrativa e nas ilustrações, que dão tristeza e alegria ao mesmo tempo.

Nenhum dos dois imaginava publicar um dia esses textos, mas, com o tempo, descobriram que era um jeito de deixar o passarinho realmente voar e seguir o seu caminho. E que, nesse voo, eles poderiam levar mensagens de amizade, esperança, amor. Obras que servem para crianças e adultos, que já perderam alguém especial ou que ainda não passaram por isso.

O Estadinho conversou com os autores sobre os livros. Você pode ler um pouco mais das entrevistas aqui:

Entrevista com Regina Berlim, que escreveu a Passarinha (Ed. Peirópolis, R$ 34), um dos livros que vão representar o Brasil na Feira de Livros Infantis de Bolonha, na Itália.

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Regina, do que se trata a Passarinha?
A Passarinha é uma história de como é difícil perder. Qual é a opção ao sentimento da perda? É o não se envolver, o não afeto. Mas isso não é uma opção! Afinal de contas, não dá para viver assim: “eu tenho medo de perder, então não me envolvo com nada”. Essa história foi processada em função de uma perda importante que tive e que me ajudou a dar nome a essa sensação. É uma história antiga e, como é muito doída, foi difícil colocar na rua. Tinha receio de transformar numa coisa pública.

Quem você perdeu?
Eu perdi uma filha no nono mês de gravidez… Não sei o motivo, mas o pássaro é uma metáfora meio universal. Num determinado momento, a história veio quase inteira. Só que demorei muito tempo para conseguir soltar a passarinha. É um livro que traz uma carga emocional, mas não é para ser ruim. Não acredito que as perdas são determinantes num mau sentido. Acho que elas são um aprendizado, fazem parte da história da gente e saber lidar com elas de uma forma construtiva é muito importante.

Que mensagem você quer passar?
A perda é inevitável. Construir esses laços profundos e entender que eles continuam, independentemente da presença ou não do sujeito que a gente amou, é um aprendizado importante e difícil. Como transformar a dor numa coisa legal? É isso que está por trás da história. Para mim, a grande mensagem é essa: os afetos que a gente constrói e como a gente torna esses afetos permanentes e prazerosos, independentemente de você ter ou não essa pessoa junto com você materialmente. Não é prender a passarinha, não é lutar contra o destino, é deixar livre e conseguir carregar o que essa relação trouxe de bom.

Colocar essa história no papel fez doer menos?
Desvinculou. Virou público, saiu, voou.  O livro não me remete mais à dor. E a origem da história nem foi a dor. Foi a cura. O que a gente tira de bom nisso? O tempo que a gente viveu, as memórias… É importante entender que isso faz parte da vida, das relações. A gente só perde porque um dia ganhou.

 

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Agora leia a entrevista com Ricardo Viveiros, que escreveu O Poeta e o Passarinho (Ed. Biruta, R$ 38):

Ricardo, como nasceu O Poeta e o Passarinho?
Ninguém imagina perder um filho, um neto, isso vai contra a lei da natureza. Quando eu perdi o Ricardo (filho, com 25 anos) e a Mariana (neta, com 6 meses), me vi numa situação estranha. Como repórter, eu já havia coberto guerra, incêndio, desabamento, grandes desastres aéreos… E o repórter, acostumado a cobrir tanta coisa, de repente se vê como a reportagem, como a vítima daquelas coisas que, normalmente, ele tinha que cobrir. Eu virei notícia. A única coisa que sei fazer é escrever. E, emocionado com o fato, escrevi esse texto, mas fiz para mim. Jamais imaginei que isso pudesse ser lido por outra pessoa. Fiz um texto suave, poético, de amor, de esperança. É um carinho. Eu fiz, guardei e ele se perdeu. Agora, 15 anos depois, mexendo nos livros, acabei o encontrando e me emocionei muito ao perceber o quanto ele me ajudou a superar aquela dor lá atrás.

O que o passarinho simboliza hoje?
Esse livro dá margem a mil discussões: a da ecologia, a do amor, a da amizade, a da presença. Meu filho Ricardo nasceu em Petrópolis, interior do Rio, e era apaixonado pela natureza. O que naquela hora me ocorreu foi o confronto da floresta com a cidade grande. Ele saiu do campo para desaparecer na cidade grande. E o poeta é o homem que quer sair da cidade grande para viver no campo. O Ricardo era um cara fora de lugar. A história mostra o passarinho e o poeta fora de lugar. E os dois querendo buscar o lugar para viver em paz. Se tivesse buscado, talvez não tivesse o passarinho ido embora.

Como foram feitas as ilustrações?
O Rubens Matuck ilustrou com papel de arroz chinês e lápis de cor alemão.

É seu primeiro livro para crianças, mas serve também para os adultos, não é?
Serve para todo mundo, porque fala de amizade, fraternidade, lealdade, amor, companheirismo. Eu fiz 24 livros, dos quais 23 são para adultos. Nunca pensei em escrever para criança. Agora, com o sucesso que este livro tem feito, já tenho mais dois escritos para criança.

Sobre o que são?
Um é sobre um tema raro de novo, que é saudade. E outro é uma história de um rei e uma rainha que não conseguiam ter filhos. E, na luta para ajudar o rei entre o mago do reino, que é bom, e a bruxa, que é má, o mago vence e a bruxa, como vingança, faz a menina nascer com “defeito”. Mas o “defeito” acaba se provando como uma qualidade.

Li que você gosta de contar história para crianças. É verdade?

Ah, sou famoso com os coleguinhas dos meus filhos, netos, vizinhos, sobrinhos. Quando era jovem, estudei teatro. Então, conto história e faço a voz de cada personagem e o pessoal se diverte. Elas fazem sucesso porque não conto história existente, eu conto história inventada e de acordo com o grupo. Vou pegando o jeito de cada um da plateia e envolvendo a todos. Outra coisa que faz sucesso é misturar história famosa. Misturo Chapeuzinho Vermelho com Branca de Neve, Bela Adormecida com Gato de Botas. E mudo o jeito do personagem na história original: quem é bom vira mau, quem é calmo vira sapeca. O pessoal morre de rir.