Os meninos da ópera

Estadão

15 de setembro de 2012 | 06h55

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(Por Fernanda Araujo)

Giovani Paulo Camargo Prado e Marcelo Damasceno da Costa têm apenas 12 e 11 anos. Mas, na hora de soltar a voz no palco do Teatro Municipal, nem parecem crianças. Eles têm um vozeirão! E precisa mesmo, pois são solistas da ópera  Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy, com regência de Abel Rocha. O espetáculo estreia hoje (dia 15), em São Paulo.

Normalmente, o papel de Yniold, filho do príncipe Golaud, é interpretado no teatro por uma mulher. Mas os dois meninos provaram que essa pode ser uma tarefa para quem ainda nem chegou à adolescência. Além de remuneração pela temporada, eles têm camarim próprio e contam um pouco mais sobre suas rotinas abaixo.

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Giovani Paulo Camargo Prado, de 12 anos

Quando começou a cantar?
Comecei com sete anos, na igreja católica de Santo Antônio, no bairro do Limão. Minha mãe perguntou se eu queria ser coroinha, mas disse que não, estava interessado mesmo em cantar. Um dia, quando cantava na ordenação de um padre, um rapaz trouxe a ficha de inscrição para fazer um teste na Osesp.

Como foi?
Fiz o teste com o maestro Teruo Yoshida, passei e ingressei no coral infantil. Nessa época tinha oito anos. Em 2010, depois de várias apresentações, o maestro me convidou para participar do coral dele, o Eco.

É sua primeira ópera?
Não. Em fevereiro deste ano, o maestro Luís Gustavo estava procurando crianças sopranos para a ópera Magdalena, de Villa-Lobos. E o maestro Yoshida me indicou. Pelléas et Mélisande é a segunda. E também é a segunda vez que recebo salário!

Você pretende seguir essa carreira?
Quero ser cantor ou engenheiro civil, ainda não decidi.

O que você gosta de cantar?
Gosto de rock, pop e música brasileira. O legal é que aprendemos a cantar de tudo na Osesp. Em hebraico, francês e tupi-guarani. Já fui até para o Rio de Janeiro cantar ópera em alemão.

Há músicos em sua família?
Não. Minha mãe é professora e meu pai, pedreiro.

Dá para conciliar escola, trabalho e diversão?
É puxado. Acordo às 5h da manhã. Mas dá tempo de jogar bola, mexer no computador, brincar de DS e Xbox.

O que você mais gosta de fazer?
Adoro brincar com Tico, uma calopsita muito inteligente. Jogo bola pra ele e ele rebate para mim. Ele corre atrás de mim, é o máximo! É meu amigo.

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Marcelo Damasceno da Costa, de 11 anos

Como começou a cantar?
Sempre gostei de ouvir música. Cantava em casa, no chuveiro, no quarto. Gostava de rock e música internacional. Com oito anos, minha mãe achou que seria uma boa eu entrar para o Instituto Baccarelli. Moro no Ipiranga, então, é perto do Instituto.

E você entrou para o coral?
Bem, eu queria tocar um instrumento de sopro, mas minha mãe me convenceu a entrar para o coral.

Como foi?
Eu estava tímido, achava que não ia dar certo, queria ir embora. No primeiro dia, achei que só seria bate-papo e vídeos sobre música. Mas as professoras tiraram as cadeiras do lugar e pediram para encenarmos o que estávamos sentindo. Foi fantástico! Todo mundo começou a gritar e expressar desespero. Vi que todos estavam nervosos, como eu. Era o que estávamos sentindo. E esse já foi o primeiro ensaio.

E os ensaios seguintes?
Comecei no iniciante, mas me esforcei bastante e logo estava no intermediário. Fiz minha primeira apresentação oficial em 2010.

Você ainda fica nervoso?
Antes de toda apresentação, fico tremendo. Agora, um pouco menos. Mas depois fico tranquilo e dá tudo certo. No final eu penso: “Nossa, não sou eu neste corpo”. É muito legal!

O que mudou na sua vida?
Eu era muito bagunceiro. O coral me acalmou e hoje não grito mais.

É assim que cuida da voz?
Sim, não grito, tomo bastante água e faço aquecimento de voz. Também é preciso comer bem para aguentar o tranco.

Por enquanto, qual a maior emoção de sua carreira?
Em 2011, fui uma das 50 crianças escolhidas para representar o Instituto Baccarelli no Criança Esperança. Foi a primeira vez que viajei pelo Instituto. Fomos para o Rio de Janeiro e, por uma semana, ficamos em um hotel superchique, de frente para a praia.

Sua família também canta?
Minha mãe vende produtos naturais e meu pai é abastecedor de máquinas, mas ele também gosta de cantar.

Como é cantar ópera?
Este é meu primeiro trabalho remunerado. Também é o mais difícil, pois é a maior partitura que tive que decorar até agora. E fica mais difícil por ser em outra língua (francês).

Pretende seguir carreira?
Ainda não decidi se quero ser cantor ou ter um emprego fixo, como médico ou advogado.

Você tem tempo de brincar?
Estudo três horas por dia, mas gosto de dançar free step (passos livres), dormir e jogar futebol. Pensando bem, também quero se jogador de futebol.

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