Siga esta entrevista!

Estadão

28 Abril 2012 | 06h55

seta1.jpg

(Por Aryane Cararo)

A portuguesa Isabel Minhós Martins é uma autora que volta e meia aparece aqui nas indicações de livros do Estadinho. Isso porque ela escreve livros muito legais. Tão legais que o que ela publica lá em Portugal, pela editora Planeta Tangerina, acaba interessando às editoras daqui do Brasil. E conquista fácil, fácil muitos leitores. Ela já escreveu Meu Vizinho é um Cão, A Manta, Pê de Pai e vários outros muito bons. E agora fez o incrível Siga a Seta! (Cia. das Letrinhas, R$ 33). Por que é incrível? Porque tem uma ideia muito boa, daquelas que fazem a gente pensar na vida, e desenhos bacanas do Andrés Sandoval. Falamos dele no Estadinho de papel, vocês viram? Se não, clique no link abaixo. E quem ficou com gostinho de quero mais, pode ler a entrevista completa que a Isabel deu. Vale a pena!

Clique aqui para abrir a página

isabel1.jpg

 

Estadinho:  Como surgiu a ideia de Siga a Seta?
Isabel: A ideia para o Siga a Seta surgiu num daqueles dias, entre 2.ª e 6.ª feira, em que temos os minutos contados para tudo e corremos para todo lado… Nesses dias, está tudo tão programado que há pouquíssimo espaço para o imprevisto e para o devaneio, e a sensação que tenho é a de que quase nem somos pessoas. Mais parecemos robôs a cumprir um horário e uma série de tarefas predestinadas. E a sensação não é muito boa. Sobretudo quando esta rotina claustrofóbica se repete dias após dia, acho que corremos grande perigo. Deixamos de viver com os olhos abertos, deixamos de procurar coisas novas, não deixamos que a surpresa entre nas nossas vidas, deixamos de ter tempo para olhar e ouvir os outros e também para deixar fluir os pensamentos. Tudo isso mata a imaginação e, acho eu, uma série de outras coisas importantes: a liberdade, o sentido crítico, a capacidade de pensarmos pela nossa cabeça.

Portanto, estas setas iniciais que deram origem ao livro são setas do quotidiano, muitas vezes colocadas por nós próprios e não por outros. Depois, à medida que fui desenhando a história, as setas ganharam uma dimensão diferente e podem ser setas mais universais, que podem significar, por exemplo, a tendência a seguirmos um rebanho, uma moda, uma mania, uma ideia imposta de fora que não questionamos… Ou até falta de liberdade imposta por terceiros, repressão mesmo.

Que setas você encontrou em sua vida?
Aquelas setas que toda gente encontra: as do “tens que fazer porque os outros fazem”… Ou as mais relacionadas com horários muito rígidos.

Qual foi o pior lugar que uma seta a levou?
Talvez ir parar a um centro comercial (shopping) numa véspera de Natal…

E os melhores?
Por exemplo, aquela ideia que aparece no livro: ir à praia nos dias de inverno. Não gosto dos lugares onde há grandes multidões e prefiro praias desertas, aquelas que não vêm nos mapas. Também gosto muito quando decido viajar por uma estrada mais rural, pouco movimentada. E gosto de ignorar a seta que diz: “Agora tens de comprar isto porque toda a gente já tem!”. “Reduz as necessidades se queres passar bem”, diz um cantor de que eu gosto muito…

Quando devemos fugir das setas?
Quando as setas nos levam para lugares perigosos. Fuja dessas setas, rápido!
Quando as setas nos dizem para fazermos uma coisa com a qual não concordamos ou que não nos faz sentir bem.
Quando as setas não nos deixam pensar pela nossa cabeça, ter a nossa opinião.
Quando as setas nos levam sempre aos mesmos lugares e nos impedem de ter ideias novas, de ser criativos!
Quando as setas nos roubam o espaço para respirar, preguiçar… Filosofar.
Quando as setas correspondem a regras tontas, impostas por uma sociedade preconceituosa.

E quando devemos segui-las?
Esta pergunta é importante! Quando escrevi este livro, não foi com a intenção de que os leitores começassem de repente a desrespeitar as regras. As regras são importantes, até a rotina é muito importante. Por exemplo, para as crianças  é algo estruturante e fundamental: deve haver uma hora para dormir, acordar, comer, brincar e aprender. E, para vivermos todos juntos em sociedade, seria um caos se não existissem regras: imaginem se não existissem setas no trânsito, por exemplo!
Claro que este livro é uma caricatura, no sentido em que exagera a ideia para se perceber melhor a mensagem. Por isso digo: as setas do trânsito são para seguir, as regras relacionadas com o respeito por nós próprios e pelos outros também. Mas é importante pensar na razão das regras e não fazer as coisas só “porque sim”. “Questionar as coisas”, ora, aí está uma frase boa para vir escrita numa seta!