Uma avenida, duas eleições

Como veem a eleição os moradores da Avenida Senador Vitorino Freire, que fica bem na divisa entre São Paulo e Diadema. Eles são abordados por campanhas de ambos os municípios e chegam a confundir candidatos. Mas torcem para que os dois prefeitos eleitos sejam amigos e resolvam problemas comuns da região

Estadão

06 de outubro de 2012 | 23h35

Como veem a eleição os moradores da Avenida Senador Vitorino Freire, que fica bem na divisa entre São Paulo e Diadema. Eles são abordados por campanhas de ambos os municípios e chegam a confundir candidatos. Mas torcem para que os dois prefeitos eleitos sejam amigos e resolvam problemas comuns da região

Imagine o que seria morar em um lugar onde candidatos a prefeito e a vereador de duas cidades diferentes batem à sua porta atrás de votos? O que parece um pesadelo pré-eleitoral é a realidade cotidiana de Antônio Matias da Silva, de 59 anos. Atualmente desempregado, ele costuma ouvir promessas de políticos de São Paulo e também de Diadema – isso porque mora na Avenida Senador Vitorino Freire, uma das divisas entre as duas cidades. “Pior, minha casa está, praticamente, no limite entre os municípios.”

A situação da avenida é curiosa. Do lado par, você está em São Paulo. Já do lado ímpar, bem-vindo a Diadema. Não é difícil encontrar ônibus das duas cidades lado a lado e até moradores que precisam pensar um pouquinho entes de responder se são moradores de um lugar ou de outro. Em época eleitoral, o mais comum é observar cavaletes de candidatos de Diadema colocados no lado paulista da calçada (ou vice-versa).

Matias diz que ele mesmo faz confusão entre os candidatos. Embora vote em São Paulo, tem sido mais assediado pelos candidatos de Diadema. “O mais confuso é a eleição para vereador. São muitos nomes, muitos em São Paulo e muitos em Diadema. A gente fica sem saber quem é de onde”, diz.

Ele afirma que, apesar do excesso de informação, tem prestado atenção às duas campanhas. “Seria bom que as duas prefeituras trabalhassem juntas. Quem mora aqui na divisa sofre com os problemas das duas cidades. Uma administração acaba empurrando as obrigações para a outra. Espero que os dois prefeitos se entendam”, diz Matias.

Milena Gardine Triscolo, de 31 anos, mora em São Paulo, mas vota em Diadema. A recepcionista de hospital diz que mantém um pé em cada cidade e se sente uma cidadã “múltipla”. “Eu utilizo serviços das duas cidades. Por exemplo, se eu preciso ir ao hospital, o que acontece é o seguinte: em Diadema o atendimento é mais rápido. Agora, se o caso for mais grave, os hospitais de São Paulo são melhores. Para conseguir manter essas duas possibilidades em aberto, Milena, que mora apenas a quatro casas de Diadema, diz fornecer endereços um pouco diferentes em suas fichas de internação hospitalar ou consultas.

A filha de Milena, Carina, de 10 anos, também já sabe o que é conviver em duas cidades. “A gente mora em São Paulo, mas a escola de Diadema fica nessa mesma avenida. Então, informei o endereço de Diadema na hora da matrícula. Se eu indicasse São Paulo, eles iam mandar minha menina para uma escola muito longe daqui”.

Por questões de educação e saúde, Milena diz se esforçar para prestar atenção às duas eleições. “Quanto menos problemas existirem entre as duas cidades, melhor pra quem mora aqui na divisa. Torço para candidatos amigos ganharem em ambas.”

Já a dona de Casa Marli da Silva, de 59 anos, mora do lado de Diadema – e vota lá mesmo. Embora tenha o banner de um candidato de Diadema pendurado em seu portão, ela diz tentar se manter por fora desta eleição. “Faço a política da boa vizinhança. Ouço se me falam da eleição em São Paulo, escuto se me falam da eleição aqui em Diadema. Mas, confesso, não quero me meter em nenhuma das duas”, avisa.

Marli declara que não faz diferença entre os vizinhos que moram em uma cidade ou em outra. “Ninguém é melhor do que ninguém aqui. Tanto faz morar do lado de cá (Diadema) ou do lado de lá (São Paulo). A gente até esquece essa coisa da divisa.”

Embora afirme não ter interesse em votar nestas eleições, Marli se junta ao coro da vizinhança e torce para uma eleição casada. “Acho que a vizinhança nunca conversou sobre isso, mas não seria ruim a gente votar em políticos que tivessem pontos em comum, que pudessem, juntos, resolver os problemas da avenida”.