Boxeador vai à luta após hemorragia cerebral

Depois da luta pela vida (Fábio Garrido sofreu hemorragia cerebral em seu último combate), o boxeador sobe ao ringue neste sábado, 24, no Viaduto Alcântara Machado, na Mooca, para enfrentar 'Mineiro' em luta válida pela Associação Nacional de Boxe

Redação Esportes

24 de julho de 2010 | 00h25

Alessandro Luchetti

Com a cara, a coragem e os exames. Munido disso tudo, Fábio Garrido vai se encaminhar neste sábado, 24,  ao Viaduto Alcântara Machado, na Mooca, onde enfrentará Albertino Mota Pinheiro, o Mineiro, em uma luta válida pela Associação Nacional de Boxe, sediada na Bahia. O eletrocardiograma, o eletroencefalograma, a ultrassonografia e a ressonância magnética da caixa craniana vão acondicionados em uma pasta e serão exibidos aos dirigentes da ANB para que eles autorizem o combate.

Fábio Garrido: 20 vitórias (16 por nocaute) e uma derrota na carreira (JF Diório/AE)

Fábio Garrido: 20 vitórias (16 por nocaute) e uma derrota na carreira (JF Diório/AE)

 

Tudo isso porque Fábio sofreu uma hemorragia cerebral em seu penúltimo combate, contra Mário Soares, o Marinho, em 2004. O choque da cabeça num tablado duro, sem a proteção regulamentar, levou-o a um coma induzido e a uma outra luta, essa entre a vida e a morte.

Drenado o sangramento, Fábio teve alta, recuperou-se e voltou ao ringue na Vila Brasilândia, em janeiro de 2006. Mas essa luta teve um desenvolvimento estranho, na opinião de alguns espectadores. O adversário, Lourival Silva, o Cowboy, que tem um cartel com duas vitórias e 58 derrotas em 60 combates, não acertou um único golpe na cabeça do oponente. “Não me senti à vontade para golpeá-lo na cabeça”, afirmou à época Cowboy, derrotado naquela oportunidade por nocaute no terceiro assalto.

Segundo Fábio, a médica que o examinou atesta que ele tem plenas condições para lutar. “A neuro disse que sou favorecido por um negócio raro. De 100 pessoas, uma ou duas são como eu. Tem uma distância maior entre o meu cérebro e o meu crânio. É por isso que me recuperei também. Mas ela frisou que lutar boxe não é uma coisa muito inteligente. Ela não recomenda a ninguém levar socos na cabeça”, lembra o lutador, com um sorriso. “Ela propôs que eu praticasse outro esporte.”

Como treina boxe desde os quatro anos de idade, Fábio acha difícil mudar de esporte a esta altura do campeonato, aos 30. O dinheiro que ganha como promotor e treinador, embora razoável para lhe dar uma vida tranquila, não é suficiente para deixá-lo equilibrado emocionalmente. “Sinto falta do ringue. O estresse aumenta e preciso lutar para aliviar a minha mente. Longe do ringue, eu sinto que os danos à minha saúde mental são maiores.”

Resistência vencida
Quando se viu gritando sem mais nem menos com os filhos Luan, de 10 anos, e Isabela, de 6, Fábio viu que era hora de voltar a calçar as luvas. Animado, ele resistiu à oposição da mãe, Dalva. Já a mulher, Jennifer, mesmo contrariada, engoliu a volta do marido ao ringue com resignação. “O que posso fazer? Não dá para amarrar esse cara no pé da mesa.” Antes mesmo de lutar, Fábio já sente a confiança para propor um ajuste de contas a Mário Soares, o lutador que ele processou na Justiça, alegando falta de condições adequadas na luta de 2004. Marinho foi o responsável também pela promoção daquele duelo. O processo ainda corre.

Fábio assistiu a uma luta de seu algoz contra Reinaldo Fidélis, pugilista de escassos recursos técnicos e cartel de 12 derrotas em 12 lutas. Na opinião de Fábio, Fidélis deveria ter sido apontado como o vencedor do combate que travou contra Marinho, em maio de 2008, no Ginásio Baby Barioni.  “Os jurados deram a vitória ao Marinho, mas o público contestou. Faltou pouco para voar cadeira. Não preciso treinar para lutar com o Marinho, pelo que vi dele naquele dia”, afirma Fábio, com certo tom de vingança. Mas, antes da revanche, o peso-cruzador pretende ajustar contas consigo mesmo.

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