O mundo de Tite

Familiares e amigos que viram pela televisão a consagração profissional de Tite como técnico ao levar o Corinthians a conquistar pela primeira vez o cobiçado título da Libertadores se lembraram naquele instante de como tudo começou, 40 anos atrás

Redação Esportes

07 Julho 2012 | 23h42

Familiares e amigos que viram pela televisão a consagração profissional de Tite como técnico ao levar o Corinthians a conquistar pela primeira vez o cobiçado título da Libertadores se lembraram naquele instante de como tudo começou, 40 anos atrás, e de como o futebol havia se tornado uma peça fundamental na vida da família Bacchi.

Anos 1970, Caxias do Sul. A cena era comum no começo das tardes frias ou amenas da cidade gaúcha. Ade, 12 anos, filho do meio de Ivone Mazochi e Genor Bacchi, se juntava com Miro, seu irmão mais novo (ele ainda tem Beatriz, a mais velha) para jogar futebol. Sem muitos recursos financeiros, os garotos estudavam no Colégio Estadual do Guarani (hoje Henrique Emílio Meyer), onde não havia quadra. Para não ficar sem o futebol de todas as tardes, eles não faziam nenhuma cerimônia para pular o muro dos fundos do tradicional (e particular) colégio de freiras da cidade, o Madre Imilda, localizado a menos de 200 metros da casinha onde viviam, numa travessa da Rua Sinimbu, no bairro de Lourdes.

A cena se repetiu por anos e foi o início do contato diário de Adenor Leonardo Bacchi, muito antes de ele se tornar o Tite, técnico campeão da América com o Corinthians e um apaixonado pelo esporte de onde tirou seu sustento desde sempre e do qual quase nunca se afasta.

A paixão de Tite pelo futebol vai além de seus compromissos e obrigações profissionais. É parte de sua vida, seja como o técnico de um time de ponta durante uma campanha importante, como a da Libertadores recém-conquistada, seja de folga, entre uma caipirinha e outra ao lado da churrasqueira acompanhado dos mais chegados, contando histórias de quatro décadas no mundo da bola.

Uma das histórias mais curiosas é de como Adenor – ou simplesmente Ade, como a família ainda o chama – ganhou o apelido célebre: foi tudo um grande engano, cometido por outro gaúcho famoso de Caxias do Sul: Luiz Felipe Scolari.
Aos 14 anos, Tite ainda jogava apenas como amador nos torneios entre escolas estaduais. Defendendo seu colégio, o garoto, um meia clássico, camisa 10 às costas, enfrentou o time do Cristovão Mendonza, equipe que era treinada por Felipão, à época um jogador já veterano do time do Caxias, que dividia seu tempo com a função de professor de educação física.

Scolari ficou sabendo que o time rival tinha um meia habilidoso, com potencial de se tornar profissional, chamado Ade. Ele fazia dupla de meio de campo do “Emilio Meyer” com um garoto conhecido como Tite. Felipão gostou do que viu no camisa 10, o Adenor, mas confundiu o nome dele e passou a chamá-lo de Tite. Assim ele foi apresentado aos dirigentes do Caxias, onde depois se tornaria profissional e até jogaria ao lado de Scolari.

A vida de Tite é toda direcionada para o futebol. E, como um sujeito apegado à família e aos amigos (os mesmos desde os tempos de colégio), ele arrasta todos a seu redor.

Exemplo disso é que nos dias de folga em Caxias a diversão principal de Tite é cuidar do Carrossel, o time formado por amigos e por Ademir (o Miro) seu irmão e companheiro de campos e quadras desde os tempos das puladas diárias de muro e, eventualmente, pelo mais novo elemento do time, Mateus, 21 anos, filho do treinador e jogador do time na época das férias escolares.

O nome da equipe é quase um tratado de imodéstia de seus “atletas”. Deriva da legendária Holanda da Copa de 1974, conhecida como “Carrossel Holandês” por seu estilo de jogar e de encantar com toques rápidos e “equilíbrio”, palavra preferida do técnico.

O Carrossel tem direito a uniforme oficial, foto posada a cada jogo e “casa própria” –o Centro Esportivo e de Lazer Tite (Celte), formado por um par de quadras de futebol society com grama sintética e um galpão com churrasqueira e bar que aluga espaço para os boleiros de fim de semana.

“Ele não fala de outra coisa. Não tem outro assunto para ele. É futebol, é o Carrossel, é o jeito que o time joga… Ele gosta tanto de futebol que, no início de carreira, já profissional, ele jogava pelo Caxias mas não deixava de viajar com a gente pra jogar peladas”, conta Álvaro Mentta, amigo desde a infância.

Essa paixão toda foi nutrida pelo pai, que incentivava Tite se tornar jogador, e pela mãe, que aumentou sua produção como costureira para compensar a falta de dinheiro no período mais difícil, quando as contas apertaram e o filho ficou entre abandonar o sonho de virar jogador ou ajudar na renda familiar.

“O pai teve uma época que fez a cobrança. Estava na hora de trabalhar. Mas a mãe disse que trabalhava mais pra deixá-lo tentar ser jogador”, lembra Miro, hoje com 46 anos e administrador do Celte. “Era dia e noite costurando para ele poder jogar”, complementa a mãe, dona Ivone, 76 anos.

Ela é parte importante de dois dos rituais seguidos por Tite como técnico. O primeiro, e mais conhecido, é o de usar nos dias de jogos uma camisa da cor predominante do time que dirige. No Corinthians, o preto é a escolha dele. A ideia veio a partir da iniciativa de sua mãe, que depois do primeiro título dele como treinador, o Gaúcho de 1999 pelo Caxias, lhe deu um terço grená – a cor do time. A segunda superstição de Tite que remete à mãe é a ligação no dia da partida. “Ele liga sempre por volta do meio-dia, pede a bênção a ela e que reze por ele”, diz Miro.

Fala muito! – Tite, de fato, tem a religião como um traço marcante de sua personalidade herdada da mãe. “Eu rezo para o santo do dia. Mas tenho o São Jorge como o principal. E foi só outro dia que descobri que ele era o padroeiro do Corinthians. Combinou”, conta dona Ivone.

A paixão pelo futebol, segundo a mãe, não impediu Ade de ser um bom aluno. “Não tenho do que me queixar.”

O prontuário escolar de Tite no Emilio Meyer, bem conservado nos arquivos da escola até hoje, mostra que ele era um aluno que oscilava entre notas boas e medianas. Jamais foi brilhante, mas também não estava entre os piores da classe.
Nas observações finais de 1974, quando cursou a sexta série, o conselho da escola para Adenor, registrado oficialmente a mão em seu prontuário, foi: “Você tem capacidade para atingir um bom aproveitamento. Dedique-se mais ao estudo, pois tem condições para render mais”. Mas a observação mais curiosa mostra que Tite sempre foi bastante falante: “Mais dedicação e falar menos.”

Tite, o treinador vencedor, talvez definisse Ade, o garoto que gostava de futebol, com uma de suas expressões mais conhecidas: “Fala muito.”

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